Pieces of a Woman

Ficha técnica


País


Sinopse

Martha acaba de viver uma grande tragédia e precisa reconstruir sua vida. Conflitos com o marido e sua mãe tornam cada vez mais difícil que ela reencontre seu equilíbrio.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

12/01/2021

O húngaro Kornél Mundruczó (Deus Branco) gostaria de deixar sua marca logo no início de Pieces of a Woman, quando coloca um longo plano-sequência de quase meia-hora de um parto caseiro. É um fetiche formal que, por mais que seja um feito técnico, não consegue ir além de um certo exibicionismo cinematográfico. Quem sai ganhando com isso é a atriz Vanessa Kirby, mostrando pleno domínio a personagem, e que saiu do Festival de Veneza 2020 com o prêmio de interpretação feminina.
 
O parto todo é um momento complicado. Sua doula não pode vir e manda outra no lugar (Molly Parker), que parece mal preparada, e, com alguns minutos, fica claro que não acabará bem. A tragédia se abate e, partir daí, o longa acompanha Martha (Kirby) num processo de luto, amparada por (ou, às vezes, em conflito com) seu marido Sean (Shia LaBeouf) e sua mãe, Elizabeth (Ellen Burstyn). O filme é fragmentado em dias específicos da vida dessa mulher – daí o título, que se traduz em algo como “Pedaços de uma mulher” – que tenta lidar com sua grande dor.
 
O roteiro, assinado pela mulher do diretor Kata Wéber, é autobiográfico a partir de um episódio da vida do casal – embora o desdobramento final pareça ser diferente aqui – e repleto de metáforas ruins (envolvendo sementes de maçã) ou surradas (envolvendo estações do ano) além de clichês espalhados por personagens e diálogos. O que sobra é um melodrama tentando ser mais sofisticado e, quando faz isso, apenas desanda.
 
Existe uma parcela de sadismo em Pieces of a Woman, mesmo que parta de uma experiência do próprio casal de diretor e roteirista. Na vida real, a perda de um filho é de uma dor inimaginável, que o cinema nunca será capaz de traduzir por completo – por melhor que sejam as intenções, as atuações, as cenas. Dessa forma, quase sempre (senão sempre) parecerá um dispositivo gratuito para servir de gatilho ou catalisador para transformação da mãe e/ou do pai em adultos melhores. É, novamente, inimaginável o que o casal Mundruczó e Wéber passou em sua experiência que serviu de base para o filme, mas talvez tenha servido de expiação da dor.
 
 
O filme é de Kirby, sua personagem é mais interessante e ela é melhor atriz do que LaBeouf, e cada cena dele se torna mais e mais desnecessária, fazendo com que Pieces of a Woman perca, gradualmente, seu foco, até que o reencontra numa cena de tribunal – que poderia ser maior, mais bem desenvolvida e resolvida. O resultado é que parece um momento saído de outro longa que entrou ali por acidente. Sua resolução é um tanto implausível, e o resgate de um antigo objeto para que o julgamento termine como termina, não só é improvável como excessivamente cinematográfico para manipular as personagens e o público.
 
A atuação da protagonista é realmente memorável, e a coloca como uma das favoritas ao Oscar, mas os demais intérpretes pouco têm o que fazer com personagens que servem mais para um propósito narrativo do que parecer seres humanos reais. Todos têm seu grande momento com um grande monólogo que pode ser usado no clipe na cerimônia do Oscar. São interpretações técnicas demais emolduradas por uma trilha sonora intrusiva do veterano Howard Shore, que ajuda ainda mais no projeto de manipulação das emoções do longa.

Alysson Oliveira


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança