The Basilisks

The Basilisks

Ficha técnica


País


Sinopse

Antonio, Francesco e Sergio são três amigos que cresceram numa cidadezinha do sul da Itália. Agora adultos, eles passam seus dias sonhando com as garotas que vêem passar e que aconteça alguma coisa em sua vida, enquanto falam de Roma, onde nunca foram.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

06/01/2021

Lina Wertmüller tinha 35 anos e acabava de atuar como assistente de direção de ninguém menos do que Federico Fellini em 8 ½ (1960) quando estreou na direção com este drama singular, que escava por dentro a dinâmica pantanosa da vida provinciana. Logo de cara, venceu o prêmio de direção no Festival de Locarno, dando a arrancada para uma carreira notável, em que se assinalam filmes memoráveis como Mimi, o Metalúrgico (1972) e Pasqualino Sete Belezas (1975), com o qual registrou a façanha de ter sido a primeira diretora indicada ao Oscar na categoria. 
 
A partir de um roteiro seu, Lina começa a exercitar aquela que se tornaria uma de suas marcas registradas, um agudo sentido de observação e a composição de personagens e ambientes que simbolizam uma época. Em The Basilisks - que remete ao basilisco, um tipo de lagarto -, a diretora inicia sua crônica da vida provinciana de uma cidadezinha do sul de uma forma saborosa, com uma narração em off de Madalena, uma habitante do local, que apresenta toda a cidade entregue à habitual sesta vespertina. 
 
Introduzindo desta forma seus habitantes dormentes, o filme já define seu tom, retratando um microcosmo tacanho e machista. Pelas ruas da cidadezinha, quase não se vêem mulheres, muito restritas às suas casas, o que é um dos motivos de desespero do trio de amigos Antonio (Antonio Petruzzi), Francesco (Stefano Satta Flores) e Sergio (Sergio Ferraninno). Circulando pelas vielas, os três jovens sonham com alguma milagrosa aparição das jovens, que saem juntas para ir à missa, para um olhar ou uma conversa fugaz que, quem sabe, dê origem a um namoro.
Há pouco o que fazer por ali. Os jovens matam o tempo nos jogos de cartas no Clube Cultural, recém-reaberto, mas igualmente só frequentado por homens. 
 
Na província, as relações são rígidas e os pais exercem um domínio quase absoluto sobre a vida dos filhos. Como acontece com Luigi, filho do tabelião (Luigi Barbieri) que, por ser formado em Farmácia, o pai determina que se case com uma das feias filhas solteironas do farmacêutico local. Das mulheres, então, só se espera que sejam discretas e invisíveis, que nunca dêem margem a nenhum boato que possa colocar em dúvida sua moralidade pública.
Por tudo isso, Madalena surge como uma personagem singular. Ligeiramente mais velha do que o trio de amigos, num lugar onde todos se conhecem desde sempre, ela já escapou um pouco à expectativa de que se case, por conta da idade. Assim, ela lidera um pequeno negócio, herdado do pai, e tem a ideia de que ali se poderia formar uma cooperativa, para o que ela precisa obter adesões de alguns destes camponeses arredios e desconfiados. Seria de se esperar que pelo menos os jovens fossem tentados a uma mudança. A dúvida é se conseguirão livrar-se do visgo dessa verdadeira areia movediça que os amarra no seu lugar de nascimento, onde nada acontece e todos sonham e falam de Roma.
 
A visita da tia Maria (Mimma Quirico), sua amiga Luciana (Flora Carabella) e um outro amigo delas (Enzo di Vecchia), vindos de Roma, acende os sonhos de Antonio, quando eles o convidam a conhecer a capital. Quem sabe possa continuar seus estudos lá, ter uma vida diferente - isso se tiver coragem de romper com o círculo vicioso.
 
Filmado em preto-e-branco, entre a Basilicata e a Puglia, com o mesmo diretor de fotografia de 8 ½, Gianni di Venanzo, The Basilisks guarda um certo tom neorrealista. Não faltará quem perceba também um eco de Os Boas Vidas (1953), de Fellini, que era focado mais num retrato de geração e num viés masculino, além de ter um olhar de quem havida pertencido àquele ambiente. O filme de Lina contempla esses aspectos também mas, sendo ela romana, lança uma atenção diferente sobre a mentalidade provinciana, um foco mais abrangente num coletivo de personagens entorpecidos pelo imobilismo, em que as mulheres são retratadas com mais complexidade. Mesmo a mamma de Antonio é vista mais de perto e com mais detalhes de como se comporta uma personagem tão central da vida familiar, com sua mediação permanente entre o marido colérico e os filhos dependentes e no impasse entre o desejo e o medo da emancipação. 
 
Lina partiria deste primeiro filme para compor uma carreira singular, encontrando sua própria personalidade como autora. Embora compartilhando com Fellini um certo gosto por explorar o outro lado do grotesco e um humor sempre tingido de cinismo, ela exerceu suas características com estilo próprio e inserindo com mais ênfase suas colocações políticas e as contradições das relações entre os gêneros, encontrando em Mariangela Melato e Giancarlo Giannini seus atores-fetiche. 
 
Outra boa herança da convivência com Fellini é o compositor Ennio Morricone, que assina a trilha e ocupa os espaços sonoros com a competência habitual, usada na medida certa pela diretora.

Neusa Barbosa


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