Sem Descanso

Ficha técnica

  • Nome: Sem Descanso
  • Nome Original: Sem Descanso
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produção: 2019
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 78 min
  • Classificação: 14 anos
  • Direção: Bernard Attal
  • Elenco:

País


Sinopse

Geovane Mascarenhas tinha 22 anos quando foi parado, com sua moto, por policiais em Salvador, desaparecendo depois. A luta de seu pai, Jurandy, levou ao esclarecimento de sua morte brutal. O caso permite ao documentarista Bernard Attal explorar aspectos da violência policial no Brasil, comparando-a também aos EUA, a partir do caso de Michael Brown, morto na mesma semana que Geovane.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

16/12/2020

Geovane Mascarenhas tinha 22 anos quando foi parado por uma viatura policial, em agosto de 2014, em Salvador. Imagens posteriormente obtidas numa câmera de segurança perto do local mostram que ele não resistiu à abordagem nem estava armado - o que não impediu que fosse agredido e forçado a ajoelhar-se com as mãos na cabeça. Posteriormente, foi levado na viatura e desapareceu, entrando para a penosa estatística brasileira que acumula cerca de 4000 mortes anuais decorrentes de intervenções policiais. Um número assombroso mesmo comparado aos EUA (1000/ano) e mais ainda à Alemanha (10/ano) e ao Japão (nenhum caso). 
 
Exemplar para abordar o tema, o caso de Geovane é a espinha dorsal do documentário Sem Descanso, em que o diretor Bernard Attal (A Coleção Invisível) reúne a impressionante sucessão dos fatos que levaram à morte do jovem, entrevistando seu pai, Jurandy, jornalistas, advogados e especialistas em segurança pública. 
 
Jurandy, aliás, foi peça fundamental para que o desaparecimento de seu filho não caísse no esquecimento, como acontece com muitos jovens, quase sempre negros e de origem modesta, como ele. Incansável na busca do filho, o pai percorreu delegacias, batalhões, hospitais e mesmo o presídio, sendo figura frequente no IML da capital baiana. Foi lá que ele conheceu o repórter Bruno Wendel, do jornal Correio, cujas reportagens finalmente mobilizaram as autoridades. Por isso, Jurandy pôde confirmar que o corpo que aparecera sem cabeça e sem as mãos no IML era mesmo de seu filho, demonstrando os requintes de crueldade de sua execução.
 
O documentário aumenta seu alcance ao utilizar a fundo esta história pessoal que, longe de ser única, materializa a disseminação da perversa ideologia do “bandido bom é bandido morto”, ficando a classificação como “bandido” a cargo de policiais não raro despreparados e ultra-violentos, cujos atos são, também com muita frequência, deixados impunes -  com a conivência de parte da justiça, dos governadores estaduais e da mídia.
 
A discussão sobre esta mazela social brasileira encontra um paralelo com os EUA, partindo da trágica coincidência de que a morte de Geovane ocorreu na mesma semana que a execução de Michael Brown, 18 anos, por um policial, em Saint Louis, um dos casos mais rumorosos a alimentar os protestos do movimento Black Lives Matter. Entrevistando diversos ativistas norte-americanos, o filme oferece um matizado material para reflexão e comparação da situação entre os dois países.
 
No caso do Brasil, emergem algumas conclusões, como a incontornável necessidade de maior preparo e remuneração para os policiais, oferecendo-lhes probabilidades de progressão na carreira para que possam dispensar os “bicos” como seguranças a que boa parte deles recorre - e que os expõe a muitos perigos. Geralmente, os policiais mortos o são fora do serviço, nestes trabalhos externos.
 
Mais do que tudo, talvez o movimento mais necessário seja transformar gradualmente o policial em “guardião” e não “guerreiro”, nas bem-colocadas palavras de uma ativista da Universidade de Yale.
 
Enquanto isso não acontece, o caso de Geovane se arrasta nos tribunais. Foi aberto um processo de homicídio qualificado contra três policiais. Estes indicaram 56 testemunhas, das quais, até o final do filme, haviam sido ouvidas apenas cinco, sendo que muitas não vinham sendo localizadas. Do lado de Geovane, todos já foram ouvidos. Seu pai aguarda justiça e, vivendo no mesmo lugar, o bairro de Santa Mônica, em Salvador, admite que tem medo. 

Neusa Barbosa


Trailer


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