Mank

Ficha técnica


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Sinopse

Alcoólatra e impulsivo, o talentoso roteirista Herman Mankiewicz está em guerra com seu patrão, Louis B. Mayer, do estúdio MGM, quando recebe a proposta de escrever o roteiro do primeiro filme de um jovem talento, Orson Welles, que será "Cidadão Kane".


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Crítica Cineweb

30/11/2020

David Fincher resgata um antigo roteiro escrito por seu pai, Jack Fincher (1930-2003), para dar a partida a Mank, um drama sobre a criação do roteiro de um dos filmes mais icônicos da história do cinema, Cidadão Kane, cujas referências não serão estranhas aos mais cinéfilos. Indicado a 10 Oscar, o filme venceu dois Oscar: fotografia e desenho de produção. 
 
O centro desta reinvenção cinebiográfica é Herman Mankiewicz, popularmente conhecido como Mank, vivido com o habitual empenho por Gary Oldman. Talentoso, celebrado, alcoólatra, impulsivo, culto e contraditório, o personagem oferece ao ator material de sobra para ocupar os espaços de uma história que tem a marca habitual de Fincher: frenesi nos diálogos e montagem picotada, emulando um mergulho na cabeça deste agitado e brilhante Mank.
 
Vamos encontrá-lo num momento especial de sua vida, isolado num rancho, supostamente à prova de distrações como a bebida, e desafiado a entregar, em 60 dias, o roteiro inicial de Cidadão Kane, que marcaria a estreia na direção da mais nova promessa de Hollywood, o jovem prodígio Orson Welles (Tom Burke).
 
A fotografia em preto-e-branco (de Erick Messerschmitt, vencedora do Oscar) sintoniza a nostalgia de uma antiga Hollywood, cujo glamour será devidamente martelado ao longo dos diversos flashbacks, dissecando as relações tensas de Mank com seus chefes de estúdio, Louis B. Mayer (Arliss Howard) e Irving Thalberg (Ferdinand Kingsley) - sem que isso implique romantizar a figura do próprio Mank, àquela altura o prestigiado e bem-pago chefe dos roteiristas da Paramount.
 
Um enorme cinismo impregna a maneira como se delineia este ambiente, dominado por manipulação e manobras de poder, das quais também faz parte o barão da mídia William Randolph Hearst (Charles Dance), que usa a própria riqueza e influência para fazer decolar a carreira de sua amante, a atriz Marion Davies (Amanda Seyfried).
 
O filme tece, em paralelo, a batalha da escrita do roteiro e inúmeras situações de dez anos antes, que terminam habitando a própria narrativa de Cidadão Kane - que, como se sabe, é uma ácida recriação da biografia do magnata Hearst, numa magistral, sofisticada e arriscada vingança de Mank contra um personagem que teve um papel ambíguo em sua vida.
 
Justiça seja feita a Amanda Seyfried, que vive aqui o melhor papel de sua vida (foi indicada com mérito ao  Oscar e ao Globo de Ouro), na pele de Marion Davies, a amante de Hearst, desdobrando camadas de humanidade por baixo da notória burrice e deslumbramento da personagem, salvando-a do risco de uma caricatura.
 
O mesmo não se diga do personagem de Orson Welles, que resulta francamente caricato, pintado como apenas como um jovem afoito e temperamental, desprovido da verve que era sua marca registrada e aqui parecendo um mero impostor arrivista. A escolha deste tom, certamente, tem a ver com o parti pris do filme, que visa ressaltar a autoria de Mank do roteiro, esvaziando a participação de Welles, algo que desde sempre foi disputado, mais ainda depois da premiação com o Oscar, em 1942. 
 
A caricatura impregna também a caracterização da figura do chefão Louis B. Mayer, pintado como um vilão de historinha infantil nas lembranças de Mank.
 
Por outro lado, um aspecto interessante é resgatar a fabricação de fake news já naquela época, através da produção, ordenada por Mayer, de falsos cinejornais para prejudicar a campanha eleitoral de Upton Sinclair, o ex-socialista e candidato democrata à eleição estadual de 1934 na California, na qual o chefão da MGM defendia com unhas e dentes seu oponente republicano, Frank Merriam, que finalmente venceu. 
 
Os flashbacks que marcam a linguagem do filme, indo e vindo no tempo acompanhados por letreiros semelhantes a marcações de um roteiro febril, por mais justificados que sejam para aclarar as relações de Mank com todos aqueles personagens que habitarão, direta ou indiretamente, Cidadão Kane, são excessivos e ocorrem de maneira um tanto frenética, tornando confusa a aproximação com a história. Este frenesi que é tão a marca habitual de Fincher, com seus jorros de palavras e imagens, contribui para quebrar a conexão emocional com o filme, depois de ter dificultado antes a conexão intelectual com tantos fatos, ideias, situações que habitam o fluxo da memória de Mank. Um pouco mais de síntese, de economia narrativa, teria feito bem neste aspecto. 
 
Sobre o tema da história em si, é evidente que há coisas que nunca se saberão sobre a gênese de Cidadão Kane. Este filme é apenas mais uma versão e que não tem a paixão da lenda que perdura, que é a do filme efetivamente realizado por Welles, com a indispensável parceria de Mank. Por outro lado, o fascínio do personagem de Mank, esse homem culto, talentoso, alcoólatra, impulsivo, imprudente, perdura. É quase o único personagem do filme de Fincher que tem a oportunidade - ao lado do de Amanda Seyfried - de tornar-se humano aos nossos olhos, desdobrando suas contradições e exercendo algum humor.

Neusa Barbosa


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