Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou

Ficha técnica

  • Nome: Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou
  • Nome Original: Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: Parou
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produção: 2019
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 73 min
  • Classificação: 12 anos
  • Direção: Bárbara Paz
  • Elenco:

País


Sinopse

Companheira do cineasta Hector Babenco em seus últimos anos, quando já sofria de um câncer, a atriz Bárbara Paz filma seu cotidiano e relembra momentos da carreira dele.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

18/11/2020

A iminência da morte do cineasta Hector Babenco (1946-2016) determina a realização e o ritmo deste documentário peculiar, assinado por sua última mulher, a atriz Bárbara Paz. Documentários que registram os últimos tempos de um diretor, aliás, não são inéditos - lembre-se, por exemplo, Um Filme para Nick, de Wim Wenders, em torno da agonia de Nicholas Ray. Mas falar da própria vida enquanto se espera a própria morte não deixa de ser arriscado, temerário, pelo potencial desagrado de quem assiste - afinal, o quanto estamos dispostos a participar do réquiem para um ser humano como nós, gostemos ou não do personagem em questão? Ao final, parece impor-se a necessidade inadiável de deixar um último testemunho, uma última pegada. 
 
O rosto e o corpo enfraquecido de Babenco, lutando contra mais um câncer, como tantos que o abalaram por mais de 30 anos, assombra esta sua despedida, em que ele trava uma espécie de diálogo consigo mesmo, tendo Bárbara como mediadora. É simbólico o esforço que ela faz, em algumas das imagens iniciais, tentando enquadrar Babenco na lente, ela lutando contra a própria inexperiência técnica, ele dando bronca, com a impaciência um tanto ríspida que tantas vezes se podia observar neste argentino que abraçou o Brasil como sua morada mas parecia em constante guerra com ele. Como ele mesmo diz no filme: “Sinto que o Brasil não me quer ou eu não me aceito no Brasil”. Este, mais um sinal, como tantos, de alguém em luta permanente com a própria identidade, fosse ela a nacionalidade, o judaísmo ou seu lugar no mundo e no cinema.
 
Há uma oportuna volta às imagens de tantos de seus filmes emblemáticos, como Pixote - a lei do mais fraco, Ironweed, Brincando nos Campos do Senhor, O Beijo da Mulher-Aranha, O Passado, Meu Amigo Hindu - seu último filme, em que Willem Dafoe interpretava um alter ego de Babenco disposto a acertos de contas que são dispensados aqui. Cenas que trazem de volta uma trajetória que emerge de questões candentes no Brasil da ditadura, depois chega a Hollywood e à indicação ao Oscar e reverte a uma volta à Argentina e ao Brasil, numa procura mais amargurada de si mesmo. Estar filmando, diz Babenco, era como “estar vivendo um dia a mais” e isso se reflete na pulsão de seus trabalhos, especialmente das décadas de 1970 a 1990. Depois, um refluxo e também uma frustração. No final de sua vida, Babenco mesmo sentia que sua grande obra não havia sido feita.
 
Reflexões como esta não são estranhas a alguém conhecido por uma franqueza não raro agressiva e desconcertante, quem sabe eventualmente autodestrutiva. Mas não importa. Babenco…, o filme, é pensado para ser esse retorno simbólico a caminhos já trilhados, essa repetição de despedidas já imaginadas e que apenas precisam ficar registradas em filme para adquirirem essa verdade que só é autêntica dentro de uma tela. A despedida maior, aqui, é de quem realiza o filme, Bárbara Paz, última mulher, atriz do último filme, que revisita os bastidores de um trecho de vida que a ela pertence também. Babenco diz que já vivera sua morte, só faltava o filme de sua morte, que ela entrega nesta cerimônia de adeus que não tem como deixar de vibrar as notas de algumas contidas emoções.
 
Premiado como melhor documentário sobre cinema do Festival de Veneza 2019, o filme foi escolhido como representante brasileiro na disputa a uma vaga na lista do Oscar de filme em língua estrangeira em 2021. 

Neusa Barbosa


Trailer


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