On the rocks

On the rocks

Ficha técnica


País


Sinopse

Mesmo sendo feliz com o marido, o casamento de Laura está em crise, pois ela acredita ter encontrado evidências de que o marido a trai. Quando conta isso ao pai, com quem tem pouco contato, ele decide ajudá-la e armam um plano que os levará a passar mais tempo juntos.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

27/10/2020

Num primeiro momento, pode parecer irresistível comparar On the rocks a Encontros e Desencontros, ambos escritos e dirigidos por Sofia Coppola, ambos protagonizados por Billy Murray ao lado de uma personagem feminina e mais jovem – no caso do primeiro, interpretada por Scarlett Johansson e, aqui, por Rashida Jones. Mas as comparações se limitam a pontos específicos, pois são dois filmes e dois momentos bastante distintos na carreira de Coppola. O novo trabalho pode não atinge a mesma magia que o longa de 2003, mas certamente tem brio o bastante para sustentar-se sozinho.
 
Coppola, que se mudou para Nova York há algum tempo, observa a cidade com carinho, da mesma forma que olhava os subúrbios em Virgens Suicidas, ou Tóquio, em Encontros e Desencontros. Inegavelmente, há aqui algo de filmes antigos de Woody Allen, mas a sensibilidade e o humor da diretora são de outro tipo. É sempre uma comédia melancólica, comedida e marcada mais por diálogos quase casuais do que aqueles ácidos do diretor de Noivo neurótico, noiva nervosa.
 
Murray interpreta Felix, dono de galeria de arte rico e aposentado, que vez ou outra negocia algum quadro. Enquanto está de passagem pela cidade, visita a filha e a encontra numa crise matrimonial. Laura acredita, por motivos um tanto tolos, que seu marido a trai. Dean (Marlon Wayans) e ela levam uma vida tranquila, num apartamento grande no Soho, com duas filhas pequenas lindas e adoráveis. Mas pequenos indícios colocam dúvidas na cabeça de Laura: estaria o marido tendo um caso com a assistente?
 
Felix, que nunca foi totalmente simpático ao genro, alimenta a dúvida sobre a fidelidade dele e sugere à filha que comecem a segui-lo. Assim, On the rocks torna-se quase como um filme de detetive combinado com uma crise existencial da protagonista, que, entre outros problemas, enfrenta um bloqueio criativo para escrever um romance pelo qual já foi paga.
 
A situação toda gera momentos de humor pela falta de habilidade da dupla na tarefa de investigar Dean. Mas há outras situações inspiradíssimas, quando, por exemplo, sempre que Laura leva uma filha à escola precisa escutar as lamúrias de uma mãe (Jenny Slate) que está tendo um caso, e conta mais detalhes do que a protagonista mereceria ouvir.
 
Coppola tem um olhar apurado para as diferenças dos gêneros sexuais e as gerações. A visão de mundo sexista de Felix – para quem os homens não conseguem ser monogâmicos – deve, ou, ao menos, deveria estar ultrapassada na geração da sua filha, mas ela se deixa levar, e cai na conversa do pai. Há outras nuances, no entanto, que conferem complexidades às personagens. Felix não é de todo machista, sua educação informal às netas também as deve preparar para um mundo onde as mulheres têm mais liberdades.
 
As inseguranças de Laura em relação ao seu casamento estão, de certa forma, ligadas à sua relação com o pai, cuja separação abalou a família e causou mal à mãe dela. Dessa forma, nada mais compreensível e simbólico do que as dúvidas dela em relação ao casamento também a ajudem a resolver suas questões pendentes com Felix. Nesse sentido, On the rocks pode ser visto como uma comédia “romântica” de um tipo de amor entre pai e filha, e não marido e mulher. A crise do casamento aqui se torna mais uma desculpa narrativa do que qualquer outra coisa, levando os dois a passarem mais tempo juntos e estreitarem os laços. Coppola, novamente, toma um gênero conhecido, e sutil e sagazmente o subverte a seu modo.

Alysson Oliveira


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