O conto das três irmãs

Ficha técnica


País


Sinopse

No interior da Turquia, vive um viúvo, Sevket, que tem três filhas, Reyhan, Nurhan e Havva. Cada uma delas, sucessivamente, vai ser empregada na casa de uma família mais rica na cidade, trazendo consequências diferentes na vida delas.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

13/10/2020

Há um pouco de Anton Tchecov neste melodrama turco em torno de três irmãs, enredadas nas limitações de destinos impostas por uma sociedade imensamente patriarcal. Elas são Reyhan (Cemre Ebuzziya), Nurhan (Eca Yüksel) e Havva (Helim Kandemir), filhas do velho viúvo Sevket (Mufit Kayacan), todos moradores de um vilarejo remoto, escondido entre as montanhas da Anatólia.
 
Em diferentes momentos de suas vidas, cada uma das três irmãs foi assumida como um misto de filha adotiva e empregada na cidade, as duas primeiras, na casa do médico Necati (Kubilay Tunçer), uma pessoa influente da região. Esta interdependência entre as duas famílias, uma rural, iletrada e pobre e a outra, urbana, culta e rica, vai sendo desvendada no relato.
 
O isolamento deste vilarejo em sua beleza dura e montanhosa é lindamente mostrado na sequência inicial, em que Havva, dentro de um automóvel, está sendo devolvida ao pai depois da morte do menino de quem cuidava, em outra família da cidade. O choro da menina dentro do carro, cujas janelas descortinam a imensidão desta paisagem árida e imensa, são um prólogo promissor que o drama a seguir nem sempre manterá com a mesma intensidade.
 
Ainda assim, o diretor e roteirista Emin Alper, em seu terceiro filme, demonstra intimidade com este universo camponês rude e primitivo, em que homens comandam os destinos das mulheres, afastadas da oportunidade de estudar, trabalhar e tornar-se independentes - como é o sonho de Reyhan, cortado pelo fato de que ela engravidou e teve que fazer um casamento de conveniência com um rude pastor, Veysel (Kayan Açikgöz), que aceitou o arranjo, mesmo não sendo o pai do bebê, Gokhan (Ibrahim Kestane).
 
Nurhan, a irmã do meio, é também devolvida ao pai por conta de seu temperamento agressivo, que culminou em brigas com os filhos do patrão, Necati. A volta à casa paterna, onde tudo que a espera é a rotina doméstica e os caprichos do pai mandão, desencadeia uma profunda inadequação, o que a leva também a entrar em guerra com Reyhan e ter ciúme de Havva, agora oferecida pelo pai como substituta na casa do médico.
 
Estas relações servis das irmãs com a família Necati remetem a certos detalhes de As Três Irmãs, a primorosa peça de Tchecov que dissecou a solidão e a falta de perspectivas de três mulheres na Rússia pré-soviética com uma profundidade e sutileza que este filme jamais alcança.
 
Apesar disso, há uma transparente honestidade na maneira como a história forja uma cumplicidade entre estas três irmãs, em seu confronto com um mundo quase mineral em seu atavismo. Reyhan, sem dúvida, é a personagem mais complexa e estimulante, pelo percurso dramático que empreende diante de nossos olhos ao longo da história - inclusive por uma ousadia sexual raramente vista em filmes turcos. Nurhan e Havva estão mais restritas em suas personalidades adolescentes, embora o filme aponte para sintomas de depressão na primeira, que são mais uma ponta da denúncia  contra o sufocamento desta dominação machista.
 
Uma certa mão pesada para o melodrama em algumas situações trágicas tira o filme um pouco de seu equilíbrio, mas não lhe retira o interesse.Um trunfo indiscutível está no trio de atrizes que interpreta as três irmãs, premiadas em conjunto com a melhor atuação feminina no Festival de Istambul 2019, em que o filme colheu cinco prêmios, inclusive o de melhor diretor para Alper, além de ter concorrido ao Urso de Ouro em Berlim no mesmo ano.

Neusa Barbosa


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