Vestido Maldito

Vestido Maldito

Ficha técnica


País


Sinopse

Insegura e com baixa auto-estima, Sheila compra um belo vestido vermelho, mas, aos poucos, a peça toma conta de sua vida, trazendo-lhe problemas físicos e emocionais.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

12/10/2020

Peter Strickland é um dos cineastas mais interessantes da atualidade, e é uma pena que nunca um filme seu tenha chegado aos cinemas brasileiros – apenas o longa de estreia, Katalyn Varga, foi exibido na Mostra de S. Paulo. A estreia de Vestido Maldito em streaming é a oportunidade de conhecer um dos melhores trabalhos desse cineasta para quem estilo é força propulsora. Aqui, com roteiro também assinado por ele, há uma história de terror básica: a peça de roupa do título nacional tem poderes de matar quem a veste. A roupa também é indestrutível, e passa de uma dona para outra, sempre causando destruição.
 
Pode parecer a sinopse de um filme trash qualquer, e Strickland flerta com o gênero, para levá-lo a outro lugar. O filme é, acima de tudo, uma crítica ao fetiche da mercadoria, ressuscitando, de maneira bem literal, aquela ideia de que aquilo que você possui acaba possuindo você. A primeira pessoa que compra o belo vestido “vermelho artéria” de mangas compridas é Sheila (Marianne Jean-Baptiste), uma mulher de meia-idade insegura e solitária, que encontra na roupa autoestima para encarar um encontro com um desconhecido. Além da autoconfiança, o vestido lhe dá coceiras e marcas pelo corpo. Mais tarde, enlouquece a máquina de lavar – essa é a palavra que ela mesma usa.
 
Strickland é metódico, segura a narrativa com força e, nos momentos em que parece se perder, é mera distração para algo inesperado que virá depois. É um filme repleto de surpresas e reviravoltas, levando-o cada vez mais às raias do absurdo, o que, em mãos menos hábeis, poderia ser risível. Aqui não é. Com ecos de David Lynch – especialmente A estrada perdida – e Dario Argento e Mario Bava, o longa tem uma estética que se refere ao que poderia haver de mais kitsch nos anos de 1970 e 1980. Vestido Maldito é um filme de uma era que já passou, das grandes lojas de departamento e suas funcionárias atenciosas, aqui representada pela estranhíssima Gwen (Gwendoline Christie), debaixo de maquiagem e peruca pesadas, que a transformam num ser que parece de outro mundo.
 
A fotografia de Ari Wegner, assim como o desenho de som e a trilha sonora da banda Cavern of Anti-Matter, é pensada no sentido de criar fantasmagorias, camadas de estranhamento que se acumulam, até o clímax. Vestido maldito parece, em certos momentos, uma combinação entre o recente Suspiria, de Luca Guadagnino, e Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson. Povoado de gente estranha, usa o mundo da moda e do consumismo como forma de explicitar e explorar o horror da experiência de vivermos inseridos numa sociedade em que o consumo define, mesmo a contragosto, quem somos.

Alysson Oliveira


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