Sem fim

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Ficha técnica


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Sinopse

Antek é um advogado, casado com a tradutora Ula e pai do menino Jacek. Repentinamente, ele morre, deixando sua viúva inconsolável. Sua morte também causa uma reviravolta no caso que ele defendia, do sindicalista Darek, preso por liderar uma greve ilegal na Polônia sob lei marcial nos anos 1980.


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Crítica Cineweb

23/09/2020

 Quando Antek Zyro (Jerzy Radziwilowicz), começa a narrar como ocorreu a própria morte, paira uma sensação de estranheza em Sem Fim, ainda mais porque se trata de um filme de Krzysztof Kieslowski (1941-1996)  - que não era afeito a experiências místicas. Não se será, também, um filme em que o morto se torna o narrador dos fatos, como ocorria em Rashomon, de Akira Kurosawa, ou Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, ambos realizados em 1950. 
 
Na verdade, após sua singular apresentação, Antek transforma-se num tristonho observador do que ocorre na vida de sua família e na Polônia depois que ele partiu deste mundo. Sua condição de fantasma é mais um recurso dramático, ou mesmo uma metáfora para idealismos perdidos, simbolizando a total falta de controle dos seres humanos sobre os mecanismos da própria existência - este um dos temas por excelência de toda a obra de Kieslowski.
 
Realizado em 1984, três anos depois da decretação da lei marcial na Polônia, Sem Fim foi a primeira parceria de roteiro entre Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz - que se tornaria coautor também das obras que dariam fama e prêmios ao diretor, como Não Amarás, Não Matarás, do Decálogo, A Dupla Vida de Véronique e da Trilogia das Cores
A formação de advogado de Piesiewicz foi, aliás, fundamental para informar esta história, em que Antek era um advogado de defesa do operário Darek (Artur Barcis), acusado de liderar uma greve ilegal. Eram os tempos do Solidariedade, a central sindical que se tornaria famosa no mundo inteiro, como símbolo de resistência ao regime comunista. A  lei marcial, portanto, tinha endereço certo para procurar esmagar esta e outras tentativas de oposição política. 
 
Todo este contexto está implícito na história, uma das mais declaradamente políticas de toda a obra do diretor, sem necessidade de nenhuma ênfase, até porque Kieslowski tem em mira muito mais o funcionamento da ética do que qualquer outra coisa. Um de seus focos será o processo de Darek, que deverá de agora em diante ser defendido por outro advogado, Labrador (Aleksandr Bardini), mais velho, cínico e pragmático do que Antek, mais disposto à negociação do que ao confronto direto.
 
Outro foco da história segue a viúva, Ula (Grazyna Szapalowska, a estrela de Não Amarás), e sua desolação diante da morte do marido, sendo a única que o vê depois de morto.  A partir desses dois núcleos, que se entrelaçam e incorporam outros personagens, como o filho de Ula e Antek, Jacek (Krzysztof Krzeminski), Joanna (Maria Pakulnis), a mulher do operário preso, e até um hipnotizador (Tadeusz Bradecki), a história decola com a habitual densidade dos filmes de Kieslowski, aqui ainda não imbuída de toda a sutil doçura humanista que impregnará seus trabalhos posteriores, notadamente o Decálogo e a Trilogia das Cores
 
O emprego sutil e consistente dos detalhes, no entanto, já está aí - como o fato de que Ula seja uma tradutora de 1984, de George Orwell, um clássico antiautoritarismo, e as imagens do cemitério de Varsóvia, num breu povoado de luzes de velas, que abre e fecha o filme, com poderoso poder simbólico. Símbolos esses devidamente captados pelo regime polonês, que impediu a circulação de Sem Fim por mais de dois anos.  
 
Ao revisitar um filme de Kieslowski, tantos anos depois de sua realização, é impossível não pensar na grande lacuna deixada por ele, ao morrer tão precocemente, em 1996. Rever suas obras é recuperar um mundo cinematográfico que tem vibrações e ressonâncias de várias maneiras num mundo que não se livrou nem dos autoritarismos, nem do lawfare, enquanto a existência humana prossegue, como sempre, imprevisível e contraditória. É quase como se fôssemos como Antek, fantasmas revisitando velhos lugares, estranhamente vivos em algum lugar do imaginário. 

Neusa Barbosa


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