A verdadeira história de Ned Kelly

Ficha técnica


País


Sinopse

Vendido ainda garoto a um fora-da-lei, o australiano Ned Kelly acaba tornando-se líder de uma gangue que assaltava os ricos, usando vestidos femininos, desafiando as autoridades nos anos de 1870.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

10/06/2020

O sangue não jorra em A verdadeira história da gangue de Ned Kelly. Ele esguicha quase que delicadamente no rosto do assassino – o que se torna praticamente um símbolo de poder, a vitória numa disputa de narrativas. E narrativa aqui pode ser uma questão central. Ned Kelly é uma figura mítica que viveu na Austrália do século XIX, roubando dos ricos.  Sua trajetória é controversa, mas rendeu filmes, livros, peças de teatro e até videogames.
 
O australiano Justin Kurzel – de Macbeth – pode ter sido o responsável pelo filme definitivo sobre o fora-da-lei mais famoso de seu país, mas, mais do que falar de Kelly e sua gangue, aqui investiga o etos da sua nação, em sua consolidação como país em busca de independência. De origem irlandesa, Ned (na infância interpretado por Orlando Schwerdt) cresce num lar onde a mãe (a excelente Essie Davis) é obrigada a, discretamente, se prostituir para sobreviver. O cliente mais costumeiro é o sargento O'Neill (Charlie Hunnam).
 
O garoto acaba vendido para outro fora-da-lei (Russell Crowe), que iniciará uma espécie de educação sentimental sobre como ser um bandido. Quando Ned surge como jovem adulto na tela (George MacKay), ele está praticamente formado. O filme acompanhará a constituição de sua gangue, que atacava usando vestidos femininos.
 
O roteiro de Shaun Grant é baseado no romance premiado de Peter Carey que, deliberadamente, combina fatos e ficção. Como muito é incerto sobre a vida do personagem, a palavra “verdadeira” do título (do filme e do romance) é uma piscadela de cinismo para a maleabilidade da construção da narrativa histórica. O narrador (não-confiável) é o próprio protagonista, escrevendo uma carta para sua filha, que nunca pode conhecer.
 
A relação de Ned Kelly com o cinema é antiga, sendo que o primeiro longa da história, um filme de 1906 com 60 minutos, é sobre ele. Nos anos de 1970, Mick Jagger viveu o personagem também. Se essa foi uma tentativa de fazer um filme rock’n roll, Kurzel fez um western-punk iluminado com luzes estroboscópicas. A fotografia de Ari Wegner valoriza tanto a paisagem australiana como a iluminação artificial de interiores e exteriores, criando um pesadelo febril e inquieto.
 
A verdadeira história da gangue de Ned Kelly é um filme nervoso, que dificilmente falará com um público muito amplo. Mas quem estiver aberto às imagens e à narrativa de Kurzel, encontrará algo desafiador e instigante, sobre um bando de ladrões que no fundo são rebeldes contra a coroa inglesa. Eles se intitulam “Os Filhos de Sieve” (uma denominação criada por Carey). O embate final parece surgir direto daquele de Macbeth, e, mesmo sendo uma história conhecida, é acrescido de vigor, pulsação, em tons escuros entrecortados por prateados, do efeito estroboscópico, quase cegando-nos momentaneamente.
 
O filme é exatamente sobre escrever sua própria história, uma do passado que mira no futuro. Um comentário de um personagem secundário, no prólogo, mostra o quanto a história do bandido sobreviveu ao tempo, elevando sua categoria ao posto de herói; Kurzel recontou uma história antiga com um frescor impetuoso que deve incomodar e fascinar na mesma medida

Alysson Oliveira


Trailer


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