ZeroZeroZero

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Ficha técnica


País


Sinopse

Tentando manter seu poder, don Minu, chefe da máfia calabresa, encomenda um grande carregamento de cocaína no México. Este deve ser transportado pela empresa da família Linwood, nos EUA. Mas uma série de traições e reviravoltas afetam o transporte, semeando um rastro de sangue pelo caminho.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

15/04/2020

Tudo o que o escritor e jornalista napolitano Roberto Saviano toca é garantia de urgência e  pulsão. Foi assim com Gomorra, o livro que inspirou o filme homônimo de 2008 de Matteo Garrone e, de quebra, foi o responsável por uma sentença de morte lançada contra o escritor pela Camorra, que não gostou de tão visceralmente ver expostas as suas entranhas. Desde 2006, Saviano vive escondido, mudando constantemente de endereço e sempre escoltado por policiais.  
 
Impregnado deste conhecimento de causa que o coloca em perigo constante, ele não pára de escrever. Em 2013, lançou outro livro, Zerozerozero, em que a máfia, desta vez a calabresa Ndrangheta, é um dos principais componentes. O livro foi adaptado numa potente série da Amazon com o mesmo nome, da qual Saviano é um dos produtores executivos.
 
Criada a partir do livro por Leonardo Fasoli, Mauricio Katz e Stefano Sollima - este, o diretor de Gomorra: la serie (2014) -, a nova série apresenta uma alta qualidade de produção, com locações na Calábria (Itália), Nova Orleans (EUA), Monterrey (México), Casablanca (Marrocos) e Dacar (Senegal) e um elenco internacional verdadeiramente notável. Destacam-se nomes como Gabriel Byrne, Andrea Riseborough, Dane DeHaan, Adriano Chiaramida, Giuseppe De Domenico, Harold Torres e Tcheky Karyo. 
 
Ao longo de oito eletrizantes episódios, acompanha-se os destinos de um carregamento de 5000 kg de cocaína pura (a referência do título "zerzerozero" é sobre esta pureza), distribuídos no fundo de latas de pimentas. Com o lucro do lote, don Minu (Adriano Chiaramida), o velho chefão da Ndrangheta, pensa em saciar a ambição de seus comandados jovens, todos disputando seu lugar, inclusive e com não menos fúria, seu próprio neto, Stefano (Giuseppe De Domenico). 
 
Do outro lado do oceano, em Monterrey, a encomenda calabresa movimenta os produtores e vendedores. E também um dúbio sargento, Manuel León (Harold Torres), das Forças Especiais do exército mexicano - cujas lealdades oscilam entre uma agenda própria e uma confusa fé numa igreja pentecostal.
 
Entre produtores e compradores, gira ainda um outro elo, o dos brokers, que fazem o transporte da mercadoria com fachada legal. No caso, uma outra família, os Linwood de New Orleans, liderada pelo patriarca Edward (Gabriel Byrne) e sua filha mais velha, Emma (Andrea Riseborough). O filho mais novo, Chris (Dane DeHaan), afetado pelos primeiros sinais da doença de Huntington, é mantido longe dos negócios mas isso vai mudar radicalmente ao longo do caminho.
O grande atrativo da série é como se jogam as cartadas do transporte da disputada carga, num trajeto que é entrecortado por traições, trocas de lealdade e todos os tipos de imprevistos, também ao sabor da idiossincrasias dos locais que ela atravessa. Esta oscilação de tempos e lugares é mantida com ritmo afiado pelos três diretores da série, o citado Sollima (que dirige dois episódios), Janus Metz (três episódios) e o argentino Pablo Trapero (outros três).
 
Fiel ao universo realista de Saviano, não há nenhum cenário de mocinhos versus bandidos. Muito menos, há herois à vista. A série retrata este comércio ilegal como um jogo arriscado que movimenta muitas engrenagens e muitos milhões no mundo - e as autoridades nos seus caminhos são sempre subornáveis, desde que se conheça os canais apropriados. Nem por isso deixa-se de delinear uma série de personagens muito interessantes, caso dos irmãos Linwood, que mantèm um vínculo complexo e encarnam alguns dos momentos mais intimistas da trama. Emma, aliás, é uma rara personagem feminina de peso numa história em que, pelos ambientes em que transita, há um domínio masculino evidente. E Andrea Riseborough dá conta do recado lindamente - ela é magnética, calculista, fria, determinada, implacável e afetuosa ao mesmo tempo, constituindo uma das figuras centrais da história. 
 
Numa outra chave familiar, don Minu é um dos personagens mais complexos. Penetrar suas motivações, bem como seu código de honra muito particular, é uma das jornadas mais fascinantes aqui.O mesmo não ocorre com o segmento mexicano, em que o sargento León, começa promissor, afinal fecha-se numa nota mais unilateral e sinistra - em que pese que seu exército de jovens milicianos é um dos detalhes mais arrepiantes de toda a série, especialmente para países com tantas semelhanças com a situação social do México, como o Brasil.
 
Aproveitando bem o tempo largo para desenvolver uma história desta complexidade, em oito episódios de uma hora, em média, a série penetra a essência de suas situações e garante várias e boas reviravoltas - que se costuma explicar com alguns alentados flashbacks, disparados nos momentos precisos. 
 
Evidentemente, há um alto grau de violência em inúmeras sequências, mas nada que não se justifique neste contexto. Não houve abuso, nem vontade de chocar.

Neusa Barbosa


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