Os melhores anos de uma vida

Ficha técnica


País


Sinopse

Mais de 50 anos atrás, Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier viveram uma grande história de amor. Mas depois se separaram. Hoje, ele vive numa residência para idosos e uma das poucas memórias íntegras que tem é desse romance. Seu filho, Antoine, vai em busca de Anne para que o visite.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

18/03/2020

 Poucos filmes serviriam melhor para definir as diferenças entre público e crítica do que Um homem, uma mulher (1966), de Claude Lelouch. Para as plateias da época de seu lançamento, foi um dos filmes mais cultuados daquela geração, símbolo do que um romance ideal deveria ser - e tendo inclusive arrebatado a Palma de Ouro e o Oscar de filme estrangeiro simultaneamente. Para os críticos, especialmente os franceses, no entanto, a história de amor entre o piloto de corridas Jean-Louis Duroc (Jean-Louis Trintignant) e a roteirista Anne Gauthier (Anouk Aimée) não passava de uma xaropada. 
 
Independente disso, fato é que o filme sobreviveu como um dos maiores cults de todos os tempos, embalado pela música de Francis Lai e Pierre Barouh. E o bem-sucedido Lelouch voltou ao sucesso que deslanchou sua carreira duas vezes, a primeira em 1986 (Um homem, uma mulher - 20 anos depois), promovendo um reencontro na idade madura entre os dois ex-amantes - com outras vidas e parceiros - e, finalmente, agora, na terceira idade, em Os melhores anos de uma vida
 
Ninguém pode negar a competência de Lelouch em comunicar-se com um grande público, tocando em emoções que são patrimônio da vida de qualquer pessoa e contando, ainda por cima, com uma dupla de atores do quilate de Trintignant e Aimée. Dois grandes atores, nunca se pode negar honestidade à maneira como se entregam aos seus personagens, agora envelhecidos e ele, notadamente, alquebrado e com problemas de memória. 
 
Por isso, não há como não empatizar de imediato com a fragilidade dele, agora morando numa residência de idosos. Passa os dias bastante solitário, alheio à programação social com os outros residentes e imerso nas suas lembranças de Anne, uma história de amor interrompida. 
 
Ciente disso, seu filho, Antoine (Antoine Sire), vai em busca de Anne, agora vivendo na Normandia, à frente de uma lojinha, e perto de sua filha, Françoise (Souad Amidou), uma veterinária. Todos os quatro conviveram no passado, quando Jean-Louis e Anne eram dois viúvos criando sozinhos esses filhos, que estudavam num mesmo internato, em Deauville.
 
Como sempre, Lelouch gosta de criar paralelismos nas vidas de pais e filhos, um detalhe que, eventualmente, é um pouco irritante e banal. Por isso, é melhor ficar mesmo com o reencontro dos protagonistas nesta idade avançada que não os despojou de ternura, humor e desejo de aventura. Se há algo a elogiar na maneira como Lelouch os desenha é essa recusa à piedade com a velhice, respeitando a integridade que pessoa alguma perde ao longo da vida. Por isso, a cada conversa entre Jean-Louis e Anne - que a princípio não lhe revela quem é - há faíscas novas brotando de suas emoções, o que é reforçado por vermos na tela trechos do filme original de 1966, que inclusive podem apresentá-lo às plateias de hoje.
 
Num filme que revisita a nostalgia, não é pouco vislumbrar nos dois ex-amantes a disponibilidade de se falar e olhar sem amargura - mesmo que reste incerto o quanto o problema de memória de Jean-Louis o prejudica, ainda que não seja constante. Por isso, há realismo e dignidade neste reencontro, que o tempo permitiu que fosse encenado com os atores originais assumindo no corpo e no olhar os vestígios da beleza e da paixão dos dias passados. É este centro que permite ao filme resistir às múltiplas tentativas de Lelouch em recair numa certa pasteurização.

Neusa Barbosa


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança