O chão sob meus pés

Ficha técnica


País


Sinopse

Lola é a caçula de duas irmãs órfãs e a responsável legal pela irmã mais velha, Coony, que sofre de esquizofrenia. Solitária e determinada, Lola é uma executiva de sucesso, quase sem vida pessoal e que esconde a existência de Conny, mesmo de Elise, a chefe com quem ela tem um caso.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

16/03/2020

Lançando um olhar sobre solidão, trabalho vicioso e doença mental, o drama austríaco O Chão sob meus pés, de Maria Kreutzer, transforma-se numa história capaz de explorar o próprio sentido existencial num mundo de mulheres às voltas com seus respectivos dilemas. O núcleo está nas irmãs Lola (Valerie Pachner) e Conny (Pia Hierzegger), cuja história familiar fraturada forjou relações afetivas truncadas.
 
Lola é a caçula, uma enérgica consultora de negócios, com a carreira em plena ascensão. Reservada ao extremo, ela esconde no local de trabalho a existência dessa irmã mais velha, há anos acometida pela esquizofrenia, com surtos e internações intermitentes. Paralelamente, Lola mantém um relacionamento com sua chefe, Elise (Mavie Hörbiger), mergulhando num ambiente executivo voraz, em que a vida pessoal é completamente absorvida no trabalho, sem muitas chances de distração.
 
O único escape de Lola é a academia, onde o ritmo frenético com que ela se entrega ao manejo da bicicleta e dos aparelhos dá a medida de um corpo que só parece encontrar seu equilíbrio em alguma forma de excesso, de situação-limite. Não há lugar para brincadeiras, relaxamento, tudo é uma missão com sua pró-atividade obsessiva e olho firme nos concorrentes.
 
Esse corte que Lola faz na própria vida, em que a irmã não cabe, é uma metáfora do próprio trabalho dela, especializada em consultorias de reestruturação e downsizing empresarial, termos que buscam mascarar do que se trata realmente: enxugamento de custos mediante a eliminação de empregos. Pessoas, nesse modo de conduzir o mundo econômico, tornam-se supérfluas com muita facilidade, e a própria Lola não enxerga o quanto tudo isso implica numa desumanização, de parte a parte.
 
O tom geral do filme de Marie Kreutzer é contido. Ela extrai intensidade de situações sem recorrer a extremos, como, por exemplo, na sequência sutil em que retrata a situação familiar das irmãs numa visita à casa delas, onde os objetos em desalinho falam por si de um desarranjo e mal-estar que gritam em silêncio.
 
A interpretação segura das atrizes ampara a condução da história para dentro de suas emoções em turbilhão com muita honestidade. Por outro lado, talvez não fosse necessário entrar tanto em algumas situações profissionais de Lola para retratar a impiedade e a manipulação indissociáveis de seu mundo corporativo. Neste sentido, é importante a presença de Conny que, de dentro de sua perturbação, é capaz de apontar a fratura básica de uma sociedade doentia - a incapacidade de lidar com as emoções. 
 
Mesmo as tórridas cenas de sexo entre Lola e Elise não raro parecem performances atléticas sob cujas brechas a intimidade autêntica escapa. É como se estas mulheres, inteligentes e poderosas, fossem revestidas de um verniz que só a muito custo e uma grande dor Lola, finalmente terá que encarar. 
 
De várias maneiras, o filme mantém conexões com o alemão Toni Erdmann, da diretora Maren Ade, igualmente protagonizado por uma executiva (Sandra Hüller) às voltas com sua incapacidade de lidar com a própria história familiar e os afetos - só que, neste caso, havia inúmeras janelas de humor e ironia que, no caso de O Chão sob meus Pés, não são exploradas.
 
O Chão sob meus Pés concorreu no Festival de Berlim 2019, em que obteve prêmios para suas intérpretes. Vista antes em Egon Schiele - Morte e Donzela e Uma Vida Oculta, Valerie Pachner venceu premiações no Festival de Guadalajara e no German Screen Actors Awards. Pia Hierzegger, por sua vez, levou o troféu de melhor coadjuvante no Austrian Film Awards.

Neusa Barbosa


Trailer


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