Uma mulher alta

Ficha técnica


País


Sinopse

No final da II Guerra, Yia trabalha como enfermeira num hospital de Leinngrado, lotado de feridos de combate, e cuida de seu filho pequeno, Pashka. A volta repentina de sua amiga Masha traz à tona segredos do passado e escolhas difíceis.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

05/12/2019

A fotografia em tons verdes e vermelhos (de Kseniya Sereda) envolve calorosamente as duas protagonistas deste poderoso e premiado drama russo, Iya (Viktoria Miroshhnichenko) e Masha (Vasilisa Perelygina), duas jovens mulheres atravessadas pela crueza da II Guerra Mundial na devastada Leningrado de 1945. 
 
Como em seu longa de estreia, Tesnota (2017), neste Uma Mulher Alta, prêmio de direção e FIPRESCI no Un Certain Regard de Cannes, o jovem diretor Kantemir Balagov esgrime com segurança as fibras de suas personagens, notável e espantosamente, quando se pensa na potência do resultado, interpretadas por duas estreantes. O filme foi também o representante russo a uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro, sendo selecionado na pré-lista da categoria. 
 
Yia é quem primeiro conduz o espectador para o centro de uma vida cotidiana avassaladora, destituída de qualquer conforto. É enfermeira de um hospital militar lotado de feridos e mutilados da guerra, já perto do fim, ela mesmo exibindo os sinais de uma síndrome, que é resultado de uma concussão sofrida num bombardeio. Louríssima, cílios quase brancos e muito alta, ela circula entre os corredores atulhados de pacientes quase como uma aparição, uma força angelical flutuando entre a desolação e a precariedade - da qual ela parece ser um contraponto, em sua disponibilidade quase infantil, que a torna a preferida do diretor do hospital, Nikolay Ivanovich (Andrey Bykov), um resignado negociador dos parcos recursos à mão e uma figura paternal para Yia.
 
Se o cotidiano de Yia no hospital é exigente, sua rotina doméstica não é mais suave - ela tem em casa um filho pequeno, Pashka (Timofey Glaskov), que é uma fonte permanente de ternura, mas também de exigência de atenção.
Balagov é um diretor astuto para compor atmosferas e instruir pouco a pouco seus espectadores sobre as camadas de sua história, delineando cenas visualmente muito ricas, que informam muito mais sobre o clima da época do que qualquer diálogo ou explicação. A força do vínculo entre Yia e Pashka, bem como sua ambiguidade, salta na tela de repente, com um poder de choque, ainda que nada seja muito enfático. A economia narrativa deste jovem diretor é um achado, ainda mais neste filme.
 
Quando estamos totalmente envolvidos com as dramáticas e pungentes contradições de Yia, eis que aparece sua amiga Masha, com seus cabelos vermelhos mudando a temperatura ao alterar as certezas aventadas até aqui. O contraste da vital e determinada Masha com a tímida Yia sacode a história em direções imprevistas, rumo a escolhas difíceis. 
 
Não há um nervo, uma veia, um músculo de nenhum coração que possa resistir aos sucessivos abalos em que esta história dilacerante, inspirada no livro A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch, é capaz de lançar seus observadores atentos. As dinâmicas entre Yia e Masha, reagindo também em relação a outros personagens em seu caminho - como o soldado mutilado Stepan (Konstantin Balakirev) e o pretendente de Masha, Sasha (Igor Shirokov) -, incorporam o furor daquelas vidas maceradas por uma guerra que não deixou ilesos, física e emocionalmente, nenhum deles. 
 
Na composição sólida destas relações, Balagov tece o retrato de uma humanidade à prova em tempos sombrios, com uma precisão dramática que segue a inspiração dos grandes diretores de seu país, como seu mestre, Aleksandr Sokúrov, mas deixa entrever sua própria e promissora individualidade.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 17/12/2019 - 19h11 - Por Fernando Monte,iro Pashka não é filho de yia. Se a situação é de fome não aparenta porque Shasha a resolve facilmente.É A falha do roteiro.p5
  • 18/12/2019 - 11h16 - Por Neusa Barbosa Caro Fernando:
    não comentei sobre Pashka para não dar spoiler; no seu devido tempo, se saberá de quem o menino é filho.
    Acho que aparenta, sim, ser uma situação de fome. Tanto que, no começo, o médico do hospital dá a Yia a comida que sobrou de um paciente que morreu. Toda a comida é bem racionada.
    Sasha resolve isso porque tem contatos na elite, né?
    Não acho que tenha falha no roteiro.

    Mas obrigado por suas opiniões, escreva sempre.

    abs

    Neusa Barbosa
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