Comandante

Ficha técnica

  • Nome: Comandante
  • Nome Original: Comandante
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: EUA
  • Ano de produção: 2003
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 99 min
  • Classificação: Livre
  • Direção: Oliver Stone
  • Elenco:

País


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

31/03/2003

Bem de acordo com a personalidade de seus dois protagonistas, o diretor americano Oliver Stone e seu entrevistado, o líder cubano Fidel Castro, a fita começa com uma negociação política: cada um deles pode gritar "corta" a qualquer momento, encerrando a filmagem. A partir daí, nenhum momento mostrado na tela encerra qualquer tensão visível. Apesar das muitas perguntas incômodas de Stone, realizando aqui seu primeiro documentário, Fidel nunca perdeu a esportiva, nem interrompeu a câmera.

A essa altura da vida, parece mesmo praticamente impossível surpreender o presidente cubano com qualquer coisa. Ele já viu e ouviu de tudo, nestes 44 anos em que ocupa o poder na ilha de Cuba, depois de liderar uma vitoriosa revolução, ao lado de Che Guevara, em 1959. Envergando como sempre seu traje militar verde-oliva, rijo e lúcido aos 75 anos, ele não se esquivou de nenhum assunto, fosse a crise da baía dos Porcos, a morte de John Kennedy, religião, tortura, psiquiatria, Richard Nixon, Nikita Kruchev, Viagra ou sua própria sucessão.

Com senso de humor sempre afiado, Fidel comenta que não fazer a barba economizou-lhe "meses de vida". Revela, também, que nunca pensou em ir a um psiquiatra - pergunta de Stone - porque sempre apostou na própria autoconfiança. Um exemplo clássico seria ele mesmo ter insistido com o pai que o enviasse ao internato - e isso quando tinha apenas seis anos de idade. Mostrou ao câmera (um deles é Rodrigo Prieto, responsável pela fotografia de Amores Brutos) sua "pista de caminhada" - o espaço em volta da sala de reuniões de seu próprio palácio. Ele não pratica nenhum outro esporte. "Sou um prisioneiro, esta é minha cela", dramatiza. Evita o máximo que pode o serviço administrativo em função daquilo que considera mais importante para governar - conversar com as pessoas, uma tarefa para a qual ele parece ter nascido, como provam seus discursos, que costumam durar horas.

Servindo de guia a Stone, ele circula nas ruas entre multidões com desenvoltura, sendo constantemente abraçado por muitos - jovens, mulheres, estudantes. Nenhum grande esquema visível de proteção parece cercá-lo - apenas um ou dois seguranças e mais nada. Dentro do carro, Stone vasculha os bancos e encontra uma caixa de balas e uma arma automática - e o líder admite que ainda sabe usá-la.

Ao lado de alguém como o diretor americano, tão obcecado por teorias conspiratórias em seu próprio país, cedo ou tarde o assunto do assassinato de John F. Kennedy teria que vir à tona. Fidel destaca que nunca acreditou na tese do atirador solitário (a versão oficial, na investigação que responsabilizou apenas Lee Oswald). Mesmo falando no governante que desencadeou o plano de invasão da baía dos Porcos, em 1962, que teve como conseqüência o bloqueio americano até hoje vigente contra a sua ilha, Fidel é surpreendentemente generoso com Kennedy: "Ele era um presidente novo no poder quando aquilo tudo aconteceu. Herdou pronto um plano de invasão de Eisenhower". Já com Richard Nixon, despeja sua fúria: "Era um hipócrita, vaidoso e de mente estreita". Não poupou, também, críticas aos seus antigos aliados soviéticos, que considerou "erráticos" e "pouco conhecedores da América Latina".

No campo dos temas polêmicos, Fidel desmentiu várias das acusações feitas ao seu governo. Negou que Cuba algum dia tenha fornecido conselheiros políticos ao Vietnã, disse que "jamais se recorreu à tortura" em Cuba contra os presos políticos e afirmou que considera o sistema eleitoral em seu país melhor do que o de muitos outros lugares do mundo. Indagado se não se considera um ditador, disse: "Eu sou um ditador de mim mesmo, um escravo do povo, como Evita Perón".

Avaliando o legado de sua revolução, destaca os avanços educacionais, revelando que no país há hoje cerca de 700.000 universitários (quando chegou ao poder, eram cerca de 40.000). Indo um tanto longe demais nesse orgulho do progresso educacional, afirma: "Até as nossas prostitutas são universitárias". Deixa ideal para que Stone pergunte sobre a prostituição em Cuba. Sem perder as estribeiras, Castro comenta: "Elas eram 100.000 no governo de Fulgêncio Batista [que ele derrubou em 59]. Hoje, são muito poucas". Além disso, confessa que há alguns setores em que acredita que resta muito a fazer: a equanimidade racial é um deles.

Embora fale muito de política, esta não é a sua única preocupação. Fidel é capaz de elaborar longos raciocínios sobre os riscos ambientais que corre o planeta. "A espécie humana pode extinguir-se", observa. Mesmo vivendo num país afetado pelo bloqueio americano há tanto tempo, ele se mantém bastante atualizado com lançamentos de Hollywood. Em sua sala de vídeo no palácio, já assistiu Titanic e Gladiador. Mas deixa claro que suas grandes paixões cinematográficas ficaram no passado: Charles Chaplin - cujos filmes revela que "poderia assistir milhares de vezes" - Sophia Loren e Brigitte Bardot.

Além das imagens recentes, feitas em três dias em fevereiro de 2002 - mais de trinta horas de entrevistas ao todo -, o filme contém excelente material de arquivo, mostrando a tomada do poder em Cuba, imagens de Che Guevara, Evita Perón, e longos discursos do "comandante" em várias épocas.

É improvável, ainda mais num momento em que a guerra no Iraque acirra a sensibilidade contra alguém que simboliza tanto a resistência antiamericana como Fidel, que o filme seja lançado nos cinemas americanos. Produzido pelo canal HBO ( que o exibirá em maio de 2003 nos EUA), majoritariamente com dinheiro de produtores espanhóis, Comandante circulou em festivais como Sundance e Chicago, além do de Berlim. Mas já foi vendido para a Inglaterra, França e Japão.

Cineweb-31/3/2003

Neusa Barbosa


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