A bela da tarde

A bela da tarde

Ficha técnica


País


Sinopse

Dona de casa burguesa e entediada, Sévérine busca diversão num bordel, onde passa a trabalhar secretamente à tarde. Até que um dos clientes fica obcecado por ela, colocando em risco sua vida dupla.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

28/11/2017

Quase meio século antes de Christian Grey proclamar à sua Anastasia Steele que ele tem gostos peculiares, Séverine Serizy (Catherine Deneuve) não precisou dizer isso a ninguém e colocou em prática seus gostos peculiares, passando as tardes num bordel de luxo em Paris. E ela pouco se lixou se alguém entenderia ou não. Luis Buñuel também. Realizado há mais de 50 anos atrás, A bela da tarde é desafiador e, ao mesmo tempo (ou por isso mesmo), sedutor.
 
Séverine, uma dona-de-casa burguesa e entediada, é uma espécie de Madame Bovary presa num purgatório entre o pós-Segunda Guerra e a Revolução Sexual, e com uma mente criativa, capaz de criar fantasias sexuais devassas (para a época, talvez nem tanto para hoje). Cansada de ficar apenas na imaginação, descobre que – quem diria? –  ainda existem bordeis em Paris – “não com a luz vermelha na porta, mas existem”, comenta um taxista após ouvir um diálogo entre a protagonista e uma amiga no banco de trás de seu carro. “É tudo questão de dinheiro”, completa ele.
 
A moça encontra um estabelecimento – bem mais discreto do que ela e o público poderiam imaginar: um espaçoso apartamento de classe média – e propõe à dona, Madame Anaïs (Geneviève Page), trabalhar todos os dias, mas até as 5 da tarde, daí seu nome de guerra.
 
O que se dá depois é a negociação do desejo e das expectativas e frustrações sexuais, não apenas dela, mas também de seus clientes. No que Buñuel e seu roteirista, Jean-Claude Carrière (trabalhando a partir de um romance de Joseph Kessel), estão interessados é exatamente nas negociações, na comodificação do desejo, no sexo transformado em mercadoria. Até aí, nada de novo, mas o cineasta espanhol tinha algumas cartas escondidas em suas mangas surrealistas.
 
Há uma discreta luta de classes travando-se na alcova de Madame Anaïs toda vez que entra em cena uma Séverine platinada, gélida e carissimamente vestida – o figurino da personagem é assinado por Yves Saint-Laurent, o que dá outra dimensão a tudo o que está acontecendo, especialmente quando ela está tirando a roupa. Quem está explorando quem? A mulher da alta classe é a escrava do desejo de qualquer homem que possa pagar por ela – e pelo bordel passam professores, empresários sem classe (mas com dinheiro) e estrangeiros. Mas também, sem que saibam, esses mesmos homens colocam em prática os desejos dela.
 
O filme foi feito nos anos de 1960, às portas da revolução sexual e da segunda onda do feminismo. Por isso, uma personagem tal como Séverine tinha mais poder do que somos capazes de figurar hoje em dia. Ela tomou sua sexualidade nas mãos, seus gostos peculiares, e foi resolvê-los por conta própria. Em casa, o marido, um médico educado e gentil, interpretado por Jean Sorel, desconhece a força vulcânica que tinha na cama ao lado da sua (eles dormiam em camas separadas).
 
Buñuel, por sua vez, nunca julga a personagem ou seu comportamento – pelo contrário. Ele nos convida a entrar nesse mundo de fantasia (tudo, absolutamente tudo, pode ser apenas o delírio da protagonista), no qual não existem amarras, nem preconceitos. Os clientes de Séverine nunca estão contentes com ela; o diretor se recusa a igualar beleza e aptidão sexual e a fetichizar os fetiches de sua protagonista. Ele, com sua personagem, mostra a possibilidade de alguém ser feliz e plena indo contra tudo o que é normativo da sociedade. Essa é a grande força de A bela da tarde que, em sua subversão, tem muito mais do que 50 tons de cinza – ou qualquer outra cor.

Alysson Oliveira


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