Manchester à beira-mar

Ficha técnica


País


Sinopse

Anos depois de ter abandonado sua terra natal, após uma tragédia, Lee Chandler recebe noticias que o levam a ter que voltar. Novamente em sua cidade, ele reencontra pessoas do passado e encara de novo uma dor insuportável.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

11/01/2017

Dentro de uma indústria tão altamente padronizada quanto Hollywood, todo ano há pelo menos um filme que sai da fórmula. Ou seja, que destoa das expectativas e das estruturas normalmente seguidas no gênero a que pertence. Em 2016, este filme foi o drama Manchester à beira-mar, em que especialmente o ator Casey Affleck tornou-se praticamente uma unanimidade nas premiações de 2017, conquistando o Oscar, o Globo de Ouro, o National Board of Review, associações de críticos de diversos estados norte-americanos e diversos festivais.
 
Por isso, o filme é também a consagração de seu diretor e roteirista, Kenneth Lonergan – embora Lonergan esteja longe de ser um principiante ou um desconhecido. Aos 54 anos, o novaiorquino venceu o Oscar de melhor roteiro original em sua terceira indicação, depois de já ter sido lembrado por Gangues de Nova York (2003), de Martin Scorsese, e Conte Comigo (2000), que ele também dirigiu. 
 
Ambientado numa cidade litorânea de Massachussets, perto de Boston, o drama se desenrola em torno de crises de identidade masculina, ancoradas no universo da família Chandler. Neste círculo, foi sempre muito forte a ligação entre os irmãos Joe (Kyle Chandler) e Lee (Casey Affleck), uma irmandade que incorpora também o filho de Joe, Patrick (quando menino, Ben O’Brien), especialmente porque a mãe do garoto, Elise (Gretchen Mol), é uma alcoólatra.
 
Há um corte no tempo e encontra-se Lee um pouco mais velho, trabalhando como zelador e faz-tudo para um conjunto de prédios em outra cidade. Ele é um solitário, que vive resolvendo os pequenos problemas dos condôminos, aparentemente sem ligações de amizade com ninguém. Parece um homem anestesiado contra sentimentos de qualquer espécie, num isolamento de que a grossa neve da paisagem parece funcionar como metáfora.
 
Um telefonema, avisando-o da morte do irmão, tira-o desta apatia funcional. E Lee parte de volta para Manchester, de encontro a fantasmas formidáveis, de que o filme só dará conta dentro de algum tempo.
 
A maneira como se oculta, temporariamente, a razão dos traumas de Lee, que motivaram sua partida da cidade, é um dos recursos usados pelo diretor para administrar as emoções de sua história, que ele pretende sutilmente revelados, sem transbordamento – até para manter um equilíbrio, já que estas emoções são de intensidade considerável.
 
A opção de Lonergan é manter as dores de Lee represadas, como ele escolheu. Por isso, a princípio, o espectador permanece intrigado pelo comportamento quase catatônico deste homem ainda jovem, até diante da morte do irmão – que, claramente, foi seu maior amigo e protetor, como revelam os flashbacks dos dois a bordo de um barco.
 
O testamento do irmão coloca um desafio para Lee, já que este o designou como guardião de seu filho, Patrick (agora interpretado por Lucas Hedges), ainda menor, uma função que o obrigaria a voltar para Manchester. Ou levar o garoto embora com ele para outro lugar, ao que o rapaz resiste asperamente, criando um conflito aparentemente insolúvel.
 
Na outra ponta deste mundo masculino, duas figuras femininas se destacam: Elise, a mãe de Patrick, que deixou a bebida para tornar-se uma protestante devota, a partir de um novo casamento, com Jeffrey (Matthew Broderick); e Randi (Michelle Williams), a ex-mulher de Lee, com quem ele divide a imensa, insanável dor que atormenta seus dias.
 
Em poucas cenas, Michelle Williams ocupa uma porção significativa deste centro emocional do filme, já que é simplesmente a única pessoa com quem Lee compartilha uma parte de seu imenso fardo de culpa – e há pelo menos um diálogo entre os dois, depois de um encontro casual na rua, que é de uma emocionalidade devastadora, sem deixar de ser delicada.
 
Nada, aliás, em Manchester à beira-mar é derramado ou excessivo – basta a realidade da tragédia na vida de Lee e Randi. É aí que Lonergan exerce sua afinação de dramaturgo que também é, desfiando com sutileza o impasse de seu protagonista, sem visar sua redenção. Foi por isso, portanto, que o filme chamou tanta atenção, por lidar com o drama esgueirando-se dos excessos melodramáticos. Não é pequena façanha, quando se conhecem os exageros da média da produção dramática mainstream de Hollywood, viciada em extrair lágrimas aos baldes em situações escancaradas, reiterações e trilha sonora sempre no máximo volume.
 
Nada disso acontece neste filme, o que não quer dizer que ele seja perfeito ou mesmo que represente a rigor uma inovação. Na verdade, Manchester à beira-mar é um filme correto, bem-realizado e sutil. Apenas aconteceu que Lonergan nadou contra a corrente e se deu bem. Nem escândalos extrafilme, como as acusações de assédio de duas mulheres contra Casey Affleck na filmagem de um trabalho anterior – resolvidas em acordos extrajudiciais confidenciais – conseguiram empanar o brilho do desempenho do filme até aqui.

Neusa Barbosa


Trailer


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