Trago Comigo

Ficha técnica


País


Sinopse

Diretor de teatro, que foi preso político na ditadura militar, Telmo vê reemergirem lembranças sufocadas quando é entrevistado para um documentário. Ele resolve aceitar o convite para dirigir uma peça que trata desse passado em que se misturam utopias, guerrilha, repressão e morte.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

25/05/2016

Trago Comigo, de Tata Amaral, é um filme que vem novamente lembrar que o Brasil é um país que tem um encontro marcado consigo mesmo que teima em adiar. Se em obra anterior da diretora, Hoje (2011), igualmente abordando a herança da ditadura militar, o tema era reparação, em Trago Comigo é o resgate da memória e a tentativa de compartilhá-la com gerações que não viveram a repressão em 1964.
 
Filhote de uma minissérie de 2009, roteirizada por Thiago Dottori, a narrativa se desenvolve com um equilíbrio singular e cresce amparada numa das melhores interpretações da carreira de Carlos Alberto Riccelli. Não só a idade e o rosto do ator servem perfeitamente ao protagonista, o diretor de teatro e ex-militante da guerrilha Telmo Marinikov – sua voz rouca, por um fio, é a melhor forma de expressar a extrema dificuldade de mergulhar na própria memória e arrancar dela aquilo que tão dolorosamente enterrou no fundo dela. A procura de suas lembranças é também o reencontro desta própria voz, em sua integridade.
 
O nome calado no fundo do peito é de Lia – uma militante com quem Telmo dividiu uma história dramática e um romance interrompido. Um nome nunca mais pronunciado e que salta de repente numa entrevista, dada por Telmo, sobre os anos de chumbo. Mas quem era Lia? O que foi feito dela ? Ele mesmo parece não lembrar mais. A amnésia, às vezes, é a única forma de sobreviver.
 
O arcabouço do filme é aparentemente simples: convidado pelo velho amigo Lopes (Emílio Di Biasi) para montar uma peça que ajude a reabrir um velho teatro, Telmo acaba decidindo criar um espetáculo em que resgata sua história pessoal de militância clandestina, prisão e tortura. Vale-se, para isso, de um elenco jovem, do qual figura sua namorada Mônica (Georgina Castro) e um famoso ator de novelas, Miguel Jarra (Felipe Rocha).
 
A história se recria em pedaços, à medida que Telmo redescobre suas memórias, interagindo com os atores que, por nunca terem vivido o mesmo passado, questionam tudo. Este diálogo, não raro áspero, é uma das melhores escolhas do filme, permitindo colocar em cena um conflito de gerações muito instigante. Os jovens atores discutem se era ético assaltar e sequestrar em nome de ideologias políticas e também o quanto os movimentos guerrilheiros passavam ao largo das camadas sociais mais pobres, colocando a nu contradições que alimentam um debate político muito vivo e pulsante, em correspondência direta com alguns dos impasses do Brasil de hoje.
 
O recurso da peça que se constrói nesses conflitos entre gerações, explorando sentimentos e feridas para expor verdades que permitam ir em frente é o grande êxito de Trago Comigo – que também intercala a ficção com depoimentos reais de ex-prisioneiros políticos, como a família Teles, vítima de tortura e que liderou ação contra o falecido coronel Brilhante Ustra. Lado a lado, ficção e documentário costuram o retrato de um país que tem uma necessidade premente de uma reconstituição política, ética, emocional. Trago Comigo é uma das muitas armas miúdas talvez, mas implacáveis, para afrontar esse imperdoável esquecimento da herança maldita da ditadura de 1964, que alimenta a presente ameaça a uma democracia plena e integral.

Neusa Barbosa


Trailer


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