Amélia

Ficha técnica


País


Sinopse

Diva absoluta, a atriz francesa Sarah Bernhardt vem apresentar-se no Brasil, em 1905. Sem falar português, ela é entregue à fiel camareira Amélia, mas vários incidentes levarão ao seu choque com as profundas contradições do país.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

13/03/2003

A escolha do nome do famoso samba de Ataulfo Alves e Mário Lago, símbolo da submissão feminina, pode ser até uma provocação da inquieta diretora Ana Carolina. Mas ela não assume. Fica bem claro, porém, que a Amélia do filme, vivida por Marília Pêra, não se inspira mesmo na dócil personagem da canção. Muito menos a verdadeira protagonista da história, a atriz francesa Sarah Bernhardt.

Desde o início, não há a menor dúvida de que a história nada tem a ver com a biografia real da diva, que reinou na Comédie Française na virada do século e morreu em 1923. Não sem antes passar rapidamente pelo Brasil, em 1905, numa turnê que lhe deixaria uma marca das mais trágicas. Por causa de uma queda do palco, Sarah fraturou uma das pernas, que acabou tendo de amputar, dez anos depois. Compreensivelmente, a diva não tinha motivos para gostar do Brasil, que procurou até banir de sua biografia.

O incidente, em todo caso, é apenas um pretexto para Ana Carolina desenvolver um roteiro que cutuca com vara curta algumas das mais agudas contradições do Brasil - como o choque das culturas européia e africana. E Béatrice Agenin, também uma veterana dos papéis clássicos da Comédie Française, consegue incutir intensa energia a esta Sarah imaginária, que ela interpreta no tom pretendido pela diretora, fragilizada diante de uma crise artística, profissional e pessoal, num país onde não compreende a língua e muito menos os costumes.

Neste Novo Mundo, a intérprete de Sarah deveria ser sua fiel camareira, Amélia (Marília Pêra). Mas ela morre de febre amarela assim que chega ao Rio de Janeiro. Sarah, então, vai relacionar-se com o Brasil através de três costureiras, duas irmãs de Amélia, Francisca (Míriam Muniz) e Osvalda (Camila Amado), e uma afilhada delas, Maria Luiza (a estreante Alice Borges, filha do ator Antônio Pedro).

O contato não poderia ser mais desigual. Afinal, trata-se de um choque da Europa sofisticada com um Brasil inculto e recém-saído da escravidão. Como o antropólogo Claude Lévi-Strauss, a princípio Sarah odeia os trópicos e acha incômoda até sua exuberância de sons, cheiros e cores, bem como o que ela define como "essa obrigação de ser feliz". Com as costureiras, então, ela não se entende mesmo. A diva fala em francês, elas berram em português caipira de Cambuquira. A Belle Époque e o Brasil agrário não parecem ter o mesmo denominador comum, o que é traduzido numa cena intensa, em que a francesa e Francisca duelam no teatro com floretes de esgrima.

Duas outras seqüências registram o conflito entre a civilização que acredita ser seu dever avançar e o atavismo que julga ser sua obrigação resistir. Uma delas é a do banho, que vira uma enorme brincadeira entre a madame francesa e as camponesas, tudo isso filtrado numa luz belíssima, trabalho do diretor de fotografia argentino Rodolfo Sanchez (que já trabalhou com Ana Carolina em Das Tripas Coração e Sonho de Valsa). A outra é a do piquenique, em que Sarah coloca nas mãos das matutas os pratos de porcelana, guardanapos de linho e talheres que acredita que já aprenderam a usar. Quando elas preferem destrinchar com as mãos os refinados manjares do camarim, madame não oculta o seu horror.

A seqüência final exprime a visão ácida de Ana Carolina em relação à assimilação vivida pela atriz, que incorporou ao seu repertório uma declamação do poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias. No universo de Ana Carolina, continua não existindo espaço para conciliação nem final feliz. Por isso, seu filme mostra tanto vigor e possibilidades de novas leituras, por mais que, em certos momentos, se sinta que foi longe demais uma abordagem sempre à beira de um ataque de nervos.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 11/11/2012 - 11h45 - Por Cristina Ritter Martins Já tinha assistido este filme duas vezes, mas como já comecei a assistir e ele já tinha iniciado não entendi muito bem.Entretanto já tinha adorado.
    Ontem consegui assistir na íntegra. E estou mais encantada ainda.
    Todo o elenco é espetacular!
    Mas me impressionou especialmente a atriz Miriam Muniz.
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