Entre os Muros da Escola

Ficha técnica


País


Sinopse

O professor e escritor François Bégaudeau interpreta uma versão de si mesmo nessa premiada adaptação de seu livro, sobre sua experiência numa escola marcada por diferenças étnicas e culturais, onde impera a tensão entre os alunos.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

12/03/2009

A escola como caixa de ressonância da sociedade civil, como instância em que todos os grupos étnicos e sociais se misturam, na tentativa de encontrar um denominador comum de cultura e convivência cívica. Tudo isso e muito mais flui do impressionante e cálido Entre os Muros, o filme de Laurent Cantet que encerrou o jejum francês de Palmas de Ouro em 2008, depois de 21 anos em branco no Festival de Cannes. A última premiação nacional ali havia sido em 1987, com Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat.

Mas, se o filme de Pialat foi vaiado em sua própria terra, o de Cantet, ao contrário, veio encontrando acolhida fraterna por onde passou, começando por Cannes. Curiosamente, liberais e conservadores endossaram seu retrato, que desafia a fronteira entre ficção e documentário, mas se afirma como ficção. Os primeiros, por entender que seu filme dá visibilidade à inteligência e iniciativa dos adolescentes, evitando tratá-los como idiotas. Os segundos interpretam que o filme faz uma defesa implícita da afirmação da autoridade na escola.

É possível fazer estas e muitas outras leituras da história, que retrata uma escola pública secundária numa periferia de Paris, apoiada num roteiro desenvolvido a partir do livro homônimo e lançado no Brasil do professor François Bégaudeau. O próprio Bégaudeau, aliás, interpreta o papel do professor, cercado de alunos também reais, todos eles reinterpretando situações efetivamente vividas por todos, ainda que parcialmente, em salas de aula.

Esse sabor de vida real conduz o filme numa respiração enérgica e autêntica, que dá credibilidade aos dilemas do professor quando enfrenta uma classe cheia de alunos de 14 e 15 anos, das mais diversas etnias, cores, religiões e condições econômicas e ainda acelerados pelo natural turbilhão hormonal de sua idade.

Sintomaticamente, François leciona francês, ou seja, uma matéria essencial a que todos possam comunicar-se e exercer sua cidadania. A mesma língua é, ou deve ser, o denominador comum, o marco zero. A linguagem mesma, porém, termina detonando um conflito profundo, envolvendo o professor e uma de suas alunas mais rebeldes, Esmeralda (Esmeralda Ouertani) – a quem, num determinado momento, ele termina dizendo que se comporta como uma “pétasse” (vagabunda).

Situações como essa, além da mais dramática, envolvendo um conselho de classe na escola para decidir a expulsão do agressivo Souleymane (Souleymane Franck Keita), povoam Entre os Muros da Escola, deixando clara uma guerra pelos corações e mentes, pela cidadania e a democracia, pela descoberta de novas formas de diálogo, expressão e participação cultural, social e política, ocorrendo neste momento na França. Uma França que se descobre pós-iluminista, não mais apenas branca e tendo de lidar com essa fascinante e complexa herança multicultural que impregna a identidade nacional.

Como a educação é, entre outras coisas, a busca de uma instância civilizatória que una as diferenças sob uma forma de convivência, o filme de Cantet, diretor dos seminais A Agenda (2001) e Sanguinaires – A Ilha do Fim do Milênio (1997), tem muito a dizer a outros países também, inclusive o Brasil. As diferenças aqui podem ser outras, mas são igualmente dramáticas. Muitos professores brasileiros, aliás, deverão sentir-se na pele de François, com seu esforço, dilemas e contradições. Que atire a primeira pedra quem nunca perderia a cabeça em situações como as que ele enfrenta.

Neusa Barbosa


Trailer


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