As Novas Roupas do Imperador

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País


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Crítica Cineweb

11/02/2003

O ponto de partida desta história é um imaginativa fantasia: e se o imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821) não tivesse morrido no exílio da ilha de Santa Helena? Quer dizer, se não fosse realmente ele o homem que morreu usando seu nome e suas roupas? Essa é a linha do romance The Death of Napoleon, de Simon Leys, que serve como argumento deste filme, particularmente iluminado pela interpretação do protagonista Ian Holm , um ator capaz de abraçar os papéis mais diversificados com o mesmo brilho, e visto recentemente como o hobbit Bilbo Baggins de O Senhor dos Anéis.

O hábito com certeza faz o monge. É por isso que ninguém nota quando o camponês e bêbado Eugene Lenormand (Ian Holm) troca de roupa e de lugar com Napoleão (Holm, de novo) secretamente, na ilha de Santa Helena, onde o imperador francês, derrotado em batalha e caído em desgraça, vive exilado e prisioneiro dos ingleses. O ano é 1821 e Napoleão não agüenta mais nem a comida inglesa nem a distância do poder. Arma, assim, a tramóia de colocar um sósia em seu lugar, com a ajuda de seus mais fiéis servidores, enquanto ele mesmo foge a bordo de um navio. Mais provações o esperam nessa fuga. Primeiro, tem de encarar a dura rotina da lavagem do convés, como qualquer tripulante de segunda classe, e sem poder reclamar, para não entregar o disfarce. Quando o navio chega ao destino, tem uma decepção muito maior: ele desembarca não em Paris, como esperava, mas em Antuérpia.

A partir daí, prossegue numa perigosa viagem por terra, na qual atravessa a Bélgica e tem a infelicidade de parar em Waterloo - justamente o local de sua derrota final para os britânicos, em 1815. Ali, é confrontado com lendas a seu respeito que ele nem mesmo pode dar-se ao luxo de desmentir e com o duvidoso privilégio de poder comprar suvenires dele mesmo. Mesmo assim, consegue reatar contato com o movimento de oficiais que busca recolocá-lo no poder e segue para Paris, para encontrar um certo Truchaut.

Chegando à casa do militar, porém, tudo o que acha é seu enterro - o homem acaba de morrer. Sua arruinada viúva, Pumpkin (Iben Hjejle, de Alta Fidelidade), não parece nada disposta a abrigar o desconhecido, ainda mais que ela não está ao par dos planos da conspiração. Tantos contratempos comprometem a saúde do imperador e ele cai de cama, sendo tratado pelo médico, dr. Lambert (Tim McInnerny), que está apaixonado pela viúva.

Uma vez recuperado, Napoleão, sempre usando o nome de Eugene Lenormand, passa por um período de adaptação à realidade imediata, enquanto espera que novos contatos coloquem sua volta ao trono em movimento. Integra-se na vida da viúva e presta-lhe um favor enorme ao redimensionar o seu negócio de venda de melões dentro de uma visão de estrategista militar, o que permite uma rápida multiplicação dos lucros. Há prosperidade e ternura na casa da viúva, que começa a apaixonar-se pelo visitante, para desgosto do médico.

Enquanto isso, na ilha de Santa Helena, o sósia do imperador rompe o acordo feito com os servidores de Napoleão. Isto é, recusa-se a revelar aos ingleses sua verdadeira identidade, para não largar a boa vida, com comida e bebida à vontade. Ao não fazê-lo, impede o plano que permitiria a Napoleão, em Paris, proclamar sua existência.

O imperador será confrontado, portanto, com a possibilidade real de nunca mais voltar ao trono. Mesmo que ele revele quem é, quem acreditará nele? O momento em que tem a real dimensão dessa possibilidade é quando visita com o médico um manicômio repleto de pacientes que acreditam piamente serem Napoleão. A máxima sobre a qual construiu toda a sua vida - conquistar ou perecer - parece não ser tão útil agora. Mas Napoleão pode muito bem ter aprendido o valor da conquista de um lado mais delicado de sua própria humanidade.

Cineweb-14/2/2003

Neusa Barbosa


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