São Bernardo

São Bernardo

Ficha técnica


País


Sinopse

Paulo Honório é um mascate ambicioso que percorre o sertão de Alagoas. Sonha em ficar com a fazenda do endividado Luis Padilha. Ao conseguir realizar seu sonho, casa-se com uma professora. A sensibilidade e o humanismo dela entram em choque com a rudeza de Paulo Honório.


Extras

- Depoimentos de Caetano Veloso, Othon Bastos, Nildo Parente, Lauro Escorel e Eduardo Escorel.
- Trailer de S. Bernardo
- Galeria de fotos
- Restauração: antes e depois
- Filmografia
- Prêmios S. Bernardo
- Projeto Leon Hirszman - Créditos


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

11/02/2003

A palavra "capital" aparece de maneira insistente ao longo das quase duas horas de São Bernardo, adaptação de Leon Hirszman do romance homônimo de Graciliano Ramos. E não é por acaso, pois esse é o tema do filme: acumulação de capital. Primeiro de forma primitiva juntando dinheiro (“Dinheiro é dinheiro”, diz o protagonista), e tomando a propriedade que dá título ao filme de maneira pouco lícita depois de levar o atual dono, um herdeiro ingênuo, à falência.
 
Paulo Honório – interpretado com uma força contida por Othon Bastos – é um dos grandes personagens da literatura e do cinema nacional. Hirszman, que também assina o roteiro, não o poupa. “Você pensa que eu sou capitalista? Você está querendo me arrasar”, brada ele a Luís Padilha (Nildo Parente), enquanto o convence a se envolver em negócios que, mais tarde, trarão a derrocada ao rapaz e a perda da fazenda São Bernardo. O protagonista é um golpista, que sobe na vida sabendo administrar o grande fruto de seu golpe, que lhe rende, além de fortuna, prestígio.
 
A manutenção de seu dinheiro vem da exploração daqueles mais pobres ou mais ingênuos do que ele. É um processo lento, mas lucrativo, que o eleva à elite local, numa pequena cidade do interior de Alagoas. Depois do dinheiro e da propriedade, Paulo Honório se apossa da professora Madalena (Isabel Ribeiro, em uma das grandes interpretações do cinema nacional), jovem bela e melancólica que acaba aceitando casar com ele.
 
Não há qualquer vestígio de amor por parte do protagonista. Madalena também parece não estar iludida nesse sentido. Pensa na solidão, pensa no salário baixo como professora e isso talvez a induziu a se casar. Mas, ao contrário de Paulo Honório, ela não se interessa em acumular capital. Madalena, nas palavras dele, é uma comunista (“Eu construindo, ela desmanchando”), por conta de sua generosidade, sua preocupação com os desvalidos. Isso é uma afronta tão grande, que leva o marido à loucura. Tal qual um Dom Casmurro, ele acredita cegamente que está sendo traído, o que terá um desenlace trágico.
 
A tragédia está mais na perda de uma propriedade do que na perda de uma vida, essa é que a verdade. Paulo Honório tem seus brios feridos pela usurpação de um bem, essa é sua tragédia. E Hirszman constrói esse clímax num crescendo sutil ao som de uma trilha de Caetano Veloso, repleta de vozes e sons dissonantes. Já a fotografia, assinada por Lauro Escorel, é um primor. As cores destacam os tons telúricos, como marrons, vermelhos e ocres. É como se o solo de São Bernardo tingisse as imagens do filme, e isso nos lembra de mais uma coisa: o filme também é uma propriedade de Paulo Honório. A narrativa tem como abertura e encerramento ele conversando direto com o público – seu leitor – e escrevendo suas memórias.
 
Paulo Honório, como qualquer capitalista, vendeu sua alma ao dinheiro. Seu embate em sua narrativa, na tentativa de resgatar sua história, é convencer seu leitor/público de que ele não se desumanizou no processo de ascensão social. Faz-se de vítima (“Não esperava ser o explorador feroz em que me transformei”), lança de estratégias diversas na tentativa de convencimento. Mas, ao final, nem ele parece convencido de si mesmo, e percebe que é um preço alto que pagou por suas escolhas.

Alysson Oliveira


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