A Comédia do Poder

Ficha técnica


País


Sinopse

Jeanne Charmant-Killman (Isabelle Huppert) é uma juíza muito eficiente, que está comandando a investigação de casos de empresários corruptos - e mandando alguns poderosos para a cadeia. Vitoriosa no trabalho, ela começa a enfrentar problemas no casamento.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

02/08/2007

Tem tudo para agradar aos brasileiros o ímpeto vingador da juíza Jeanne Charmant-Killman (Isabelle Huppert), encarregada de comandar o inquérito que investiga um grosso escândalo financeiro, envolvendo uma grande companhia e alguns funcionários do alto escalão do governo. Um caso verídico aliás, ocorrido na França dos anos 90, tendo de um lado a companhia petrolífera Elf Aquitaine e, do outro, a juíza Eva Joly – que inegavelmente é a inspiração desta protagonista.

Figurinha miúda mas de energia exemplar, Jeanne leva a sério seu papel. Esmiúça todos os detalhes escabrosos da trama e não hesita em mandar prender, algemado e numa cela sem qualquer amenidade, o poderoso presidente da empresa implicada, Humeau (François Berléand). Nessa seqüência, o veterano diretor Claude Chabrol ganha a cumplicidade do espectador cansado das impunidades dos figurões como este, que não cansa de repetir: “Você sabe quem eu sou?”. Com isso, o diretor inicia um jogo sutil para descarnar as nuances em torno de poderes grandes ou pequenos.

O sucesso profissional da juíza ganha as páginas dos jornais, tornando-a queridinha da mídia e celebridade instantânea. Um feito que ela, vinda de uma família humilde, saboreia como a última etapa de sua ascensão social, que começou no casamento com Philippe (Robin Renucci) – de quem ela herdou o sobrenome pomposo e agora se ressente do segundo plano que ocupa.

A irresistível ascensão de Jeanne incomoda os figurões de sempre, que não tardam a encaminhar suas queixas aos canais competentes, os superiores da incansável juíza. A primeira manobra é colocar no caminho dela uma assistente, outra juíza (Maryline Canto), contando que a rivalidade entre as duas mulheres fale mais alto do que o profissionalismo.

Quando o golpe baixo se mostra ineficaz, porque detetado a tempo, o jogo fica mais pesado e assustador para Jeanne. O filme vai longe o bastante para acompanhar o reverso da medalha. O poder inebria também aqueles que foram colocados para vigiar seus desmandos.

Críticos ávidos de colar classificações em Chabrol costumam descrevê-lo como um Hitchcock francês. Embora ocasionalmente o diretor, que já assinou quase 70 filmes para cinema ou para TV, dedique-se eventualmente a tramas policiais bastante suculentas – caso de A Teia de Chocolate (2000)-, a definição não dá conta de sua ironia e estilo.

Em A Comédia do Poder, Chabrol faz um exercício profundo quase como o dos clássicos romancistas de seu país sobre a ambigüidade, o cinismo e a fragilidade da vida. Escorado pela sétima vez pelo talento de Isabelle Huppert, cria com a parceria dela uma heroína sólida. Permitindo-se pequenas vaidades como as luvinhas e a bolsa vermelhas e as saborosas conversas na cozinha com seu sobrinho quarentão (Thomas Chabrol), vislumbra-se o outro lado do coração de Jeanne.

Não há porém nenhuma pretensão de um discurso edificante ou definitivo. A maestria de Chabrol está em manter esse olhar ao mesmo tempo curioso e zombeteiro sobre as pessoas e as coisas. Um divertissement, sim, mas com temperos refinados e no ponto.

Neusa Barbosa


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