Espelho Mágico

Ficha técnica


País


Sinopse

Alfreda (Leonor Silveira) é uma mulher bela e rica. Casada e sem filhos, tem uma única obsessão: ver a Virgem Maria. Um jovem (Ricardo Trêpa) recém-saído da prisão vem trabalhar em sua casa e planeja forjar uma farsa para satisfazer ao sonho da patroa.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

05/09/2006

Na rica mansão em que se desenrola a história, não há sinais ostensivos de modernidade. Não há computadores nem aparelhos de DVD à vista. Só os luxuosos carros na entrada, lá fora – um Jaguar, um Aston Martin – situam o século XXI.

Lá dentro, indagações metafísicas e religiosas perturbam a paz dos silenciosos corredores, delimitados por móveis sóbrios, que parecem ter pertencido a várias gerações. A dona da casa, a rica senhora Alfreda (Leonor Silveira), tem apenas uma única obsessão, mas nada simples: ver a Virgem Maria.

No pequeno círculo de que se compõe sua convivência, não falta quem alimente a obsessão de Alfreda. O marido, Bahia (Duarte de Almeida), com quem vive um casamento sem filhos e aparentemente sem sexo, não se opõe. Muito menos o padre Clodel (Lima Duarte, pela segunda vez num filme do diretor português) e o teólogo inglês professor Heschel (Michel Piccoli), que estimula na dona da casa a crença de que Maria e Jesus teriam pertencido à aristocracia de seu tempo.

Esse microcosmo aristocrático e como que suspenso no tempo – porque para os ricos, o tempo parece passar muito devagar, como se o possuíssem – é invadido por um cínico contraponto a partir da chegada de Luciano (Ricardo Trêpa). Recém-saído da prisão – por envolvimento com tráfico de drogas -, o jovem é trazido por seu irmão (David Cardoso) para trabalhar a serviço de Alfreda. As conversas entre Luciano e Alfreda traduzem com eloqüência exemplar - fruto da cristalina adaptação de Manoel de Oliveira do livro A Alma dos Ricos, de Agustina Bessa-Luís, e da câmera segura de Renato Berta – o choque entre dois mundos sob o mesmo teto. De um lado, está a simplória e um tanto bruta lógica das ruas trazida por Luciano, que não vê como possa sustentar-se uma idéia tão descabida no espírito da bela patroa. Do outro, a firme persistência de Alfreda no seu sonho, um dos poucos que o seu dinheiro não pode comprar.

Outro ex-presidiário, Filipe Quinta (Luís Miguel Cintra), igualmente freqüenta a mansão, afinando o piano do dono, cujo hobby é dar aulas de música. É de Filipe a idéia, combinada com Luciano, de forjar a aparição da Virgem para Alfreda. Uma operação para a qual será indispensável a participação de uma jovem disposta à farsa (Leonor Baldaque).

Nessa interdependência entre classes sociais antagônicas o filme planta uma de suas várias chaves de discussão. Outra está igualmente na maneira como as mulheres se inserem na realidade, diferentemente dos homens. Uma fala de Alfreda a Luciano coloca esta diferença com um romantismo que a muitos parecerá arcaico: “As mulheres acham sempre que algo maravilhoso vai lhes acontecer e que as promessas serão cumpridas. Homens como você só acreditam no que vocês mesmos inventam”.

Um filme de Manoel de Oliveira é sempre isso – um banho de conteúdo, um mergulho na história, um recorte de culturas, uma sinfonia de atuações (e não é por acaso que seus elencos se repetem com tanta freqüência). Por trás de tudo, há igualmente um diálogo intenso sobre o tempo – afinal, o cineasta atingiu já seus 97 anos, bagagem não lhe falta. O tempo do filme mesmo corre por trilhos bem diferentes do que costuma o cinema moderno. Oliveira é um cidadão de outra época que nos dá o privilégio de compartilhar a sua densa história pessoal conosco.

Neusa Barbosa


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