Veneno da Madrugada

Ficha técnica


País


Sinopse

Numa cidade sem nome, chove sem parar há vários dias. Um crime passional acabou de acontecer, acirrando os ânimos já naturalmente tensos num lugar marcado pela guerra entre famílias poderosas. O prefeito (Leonardo Medeiros) anda enlouquecido também por uma forte dor de dentes.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

06/03/2006

Tem impacto, garra, som e fúria este novo filme de Ruy Guerra. Aos 74 anos, Guerra, um dos mais nobres veteranos do cinema brasileiro, poderia muito bem acomodar-se na cadeira de pioneiro do Cinema Novo que conquistou com o visceral Os Cafajestes (1962), ou na glória de vencedor, por duas vezes, de prêmios no Festival de Berlim, melhor direção em 1964 por Os Fuzis e Prêmio Especial do Júri em 1978, com A Queda. Mas não faz isso. Prefere sempre empunhar a rebeldia de quem acredita que o cinema não é uma arte comportada ou dócil e sim feita para agitar as retinas e as consciências.

No Festival de Brasília 2005, onde o filme venceu, injustamente, apenas dois troféus técnicos – melhor direção de arte e fotografia -, Veneno da Madrugada dividiu opiniões e colheu quase tantas vaias quanto aplausos da aguerrida platéia jovem daquele festival. O próprio Ruy não terá procurado, certamente, a unanimidade nesta adaptação literária, mais uma vez do amigo Gabriel García Márquez, com a qual tomou todas as liberdades, tornando a obra totalmente sua. Realizou um filme onde é visível o controle da direção nos mínimos detalhes e que obtém o melhor resultado na tela de uma recriação a partir de García Márquez, das quatro que empreendeu. Aqui, ele adapta a novela A Má Hora. Antes, havia filmado do autor Erêndira (1983), A Bela Palomera (1988) e a série para a TV cubana Me Alquilo para Soñar (1992).

Mais do que realismo mágico, o clima da história é de tenso absurdo. Acompanha-se 24 horas na vida de uma pequena cidade, onde não pára de chover e os conflitos entre as famílias mais poderosas e o alcaide (Leonardo Medeiros) estão em ponto de explosão. O alcaide tem sua própria agenda secreta de vingança contra os últimos remanescentes da família Assis, a viúva (Juliana Carneiro da Cunha) e seu filho Roberto (Emílio de Mello).

Uma série de subtramas acirra os ódios e as paixões entre os personagens, num clima de guerra de todos contra todos alimentado, ainda, pelas misteriosas cartas reveladoras de segredos inconvenientes – embora todo mundo os conheça – que de repente começam a ser afixadas nas portas das casas, na calada da noite. Uma das reservas de sanidade neste ambiente desvairado é o padre (Fábio Sabbag) – mas sua intervenção não tem o poder de mudar a mentalidade local, numa metáfora de como a cultura e mesmo a religião não conseguem transformar profundamente a natureza humana.

A qualidade técnica da produção é um capítulo à parte, começar pela edição de som de José Moreau Louzeiro, Cláudio Valderato e Simone Petrillo – o som é fundamental na atmosfera, constituindo quase um outro personagem. A fotografia de Walter Carvalho realiza pequenos milagres no escuro, contribuindo para um certo quê expressionista que atravessa toda a história. Direção de arte (Marcos Flaksman) e montagem (Mair Tavares) fecham a esplêndida moldura do filme, uma das obras mais maduras e fundamentais do moderno cinema brasileiro. Ruy Guerra continua em forma.

Neusa Barbosa


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