A Pequena Lili

Ficha técnica


País


Sinopse

Exibido em competição em Cannes/03, o roteiro é baseado na peça A Gaivota, de Tchecov, e conta a história de um jovem cineasta, sua decadente mãe e seus amigos, cujas vidas mudam com a presença de Lili, a namorada do rapaz.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

03/03/2005

A pior forma de provar que uma obra é atemporal é colocando-a no mundo contemporâneo. O fato de um livro ou uma peça ser atemporal não significa que a deslocando no tempo e espaço ela continuará a mesma. O cineasta francês Claude Miller (Betty Fischer e Outras Histórias) tenta provar que não é bem assim, quando leva a peça A Gaivota, de Anton Tchecov, que se passa na Rússia do século XIX para a França do século XX. Claro que o filme é extremamente sensual, desde suas primeiras cenas, mas quando aparecem personagens falando em celulares, usando vídeo digital e ouvindo hip hop parece que alguma coisa está errada.

A modernização e busca de uma linguagem cinematográfica autônoma, além de metalinguagem em excesso, aliás, são os pontos que mais contam contra o filme de Miller. Basta comparar A Pequena Lili com Tio Vânia em Nova York (1994), de Louis Malle, que é assumidamente um teatro filmado, e ainda assim, mais sofisticada e interessante do que esta versão de A Gaivota. Selecionado para a competição oficial do Festival de Cannes em 2003, A Pequena Lili recebeu críticas controversas e acabou não levando nenhum prêmio.

Miller e seu roteirista estreante Julien Boivent mantiveram a estrutura básica da peça, apenas amenizando o ato final e a solução – para uns é chocante e inesperada. Julien (Robinson Stévenin) é um jovem aspirante a cineasta, filho de uma atriz veterana e decadente, que pretende revolucionar o cinema. Mas até agora só produziu um curta chato e pretensioso que não agradou nem a sua mãe Mado (a atriz e diretora Nicole Garcia). A sua musa inspiradora é a bela e fogosa Lili (Ludivine Sagnier).

Dois terços do filme se passam na região rural da França e muito da história está concentrada na relação quase incestuosa de amor e ódio entre Julien e Mado. O filho, a quem ela não perde a chance de humilhar, é a prova viva de que ela envelhece a cada dia. Enquanto isso, começa a nascer um interesse mútuo entre Lili e Brice (Bernard Giraudeau), cineasta e namorado de Mado, responsável por seu último filme, que foi um fracasso. Cada um vê no outro passaporte para a fama e juventude perdida, respectivamente, mas pouco há de amor nessa relação.

O elenco de personagens tchekovianos é reduzido, muitas vezes, a mero acessório para que Miller foque-se em Lili. Quando o filme chega em sua última parte – e carrega nas tintas de A Noite Americana- o interesse já foi perdido, as confusas discussões de Brice e Julien, sobre cinema e a arte de fazer cinema, já foram esquecidas. E Miller acaba se traindo por sua metalinguagem excessiva – além de amenizar o que há de trágico em Tchecov, que ia da comédia à tragédia com naturalidade.

Miller parece querer discutir muitas coisas num combo só. São os problemas da criação artística, a identidade do e no cinema, as paixões que assolam as pessoas – tudo de uma vez só, fazendo a obra padecer de excesso de informação. No início do filme, quando Julien apresenta seu curta, Mado diz que ele não passa de um Bergman provinciano. Aqui, Miller erra, diminui a importância e a essência de Tchecov e acaba fazendo um Malle provinciano.

Alysson Oliveira


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