Deus é Brasileiro

Ficha técnica


País


Extras

Trailer de cinema
Entrevistas do diretor e do elenco
Making of
Comentários em áudio do diretor
Formato de tela: Widescreen anamórfico


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

29/01/2003

O homem foi criado à semelhança de Deus, repetem os religiosos desde que o mundo é mundo. E Ele é a cara do Antonio Fagundes, acredita piamente o diretor Cacá Diegues, que escalou o Criador em pessoa para estrelar seu novo filme, Deus é Brasileiro, a segunda estréia nacional do ano. Personificado no corpo de um dos maiores galãs da TV, esse Deus tupiniquim fala pela boca do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, autor do conto O Santo que Não Acreditava em Deus, que inspirou o filme.

Como ninguém tem dúvidas sobre a nacionalidade do Todo-Poderoso, nada mais natural que Ele se apresente com o rosto bronzeado e carregue sempre consigo um guarda-chuva para protegê-lo do sol implacável, que Ele mesmo criou e que no Brasil é maravilhosamente incandescente.

Ao humanizar a figura divina, Cacá alerta que não pretendeu fazer um filme religioso ou teológico, mas tratar o personagem como um grande herói da cultura ocidental. Para quem acredita que o Deus abrasileirado poderia ter um pouco do caráter do povo, algo como um Macunaíma superpoderoso, a visão de Cacá é oposta. Ele é mal-humorado, impaciente e até arrogante. O que não impede que o contato com o povo brasileiro dome esse caráter inflexível e até melhore seu humor.

O Deus de Cacá bota o pé nas estradas empoeiradas do Nordeste à procura de um santo substituto para que possa finalmente tirar umas merecidas férias. Já existe um candidato, um homem de alma generosa, Quinca das Mulas (Bruce Gomlevsky) que trabalhou em garimpos, ajudou favelados e agora vive entre os índios. O primeiro a encontrar Deus é Taoca (Wagner Moura), um trambiqueiro sempre em apuros por conta de suas impagáveis dívidas com o agiota Baudelé (Stepan Nercessian). Ele só acredita que está diante do Todo-Poderoso depois de comprovar seus poderes, com uma revoada de peixes que pulam do mar sobre sua canoa.

Taoca se auto-escala para a missão divina que ganhará uma nova companhia, Madá (Paloma Duarte), que se junta ao grupo com a esperança de viajar para São Paulo. Para cruzar o Nordeste em busca de Quinca, ela oferece carona num caminhão roubado. Naturalmente Deus se desaponta, mas acaba concordando em começar seu périplo à margem da lei.

O caminhão é logo abandonado e o grupo reinicia a viagem de carona, a pé, arranjando dinheiro com algumas mágicas providenciadas pelo Criador. Ele não concorda em fazer milagres, mas admite alguns truques para obter recursos para financiar o prosseguimento da missão.

Ao cruzar Alagoas, Pernambuco e Tocantins, onde admira sem nenhuma modéstia a paisagem que criou, Deus também se depara com a miséria que surrupia a dignidade de seus filhos. A câmera de Cacá capta a realidade dos moradores da favela Brasília Teimosa, no Recife, as mães que vendem seus filhos acreditando que eles possam ter uma vida melhor longe daquele ambiente degradado.

Se em Bye Bye Brasil, Cacá mostrava o sertão que se transfigurava com a chegada das antenas de TV, com a perda de sua identidade cultural, em Deus é Brasileiro o diretor constata que o Brasil globalizado lançou ao desamparo uma legião de brasileiros. Não é mais a caravana Rolidei que está na estrada, mas um grupo de brancaleones que nada pode fazer para mudar a situação. Quanto ao santo brasileiro procurado, o final é mais surpreendente do que parece e só poderia ter saído da cabeça de João Ubaldo Ribeiro.

Cineweb-31/1/2003.

Luiz Vita


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