A Professora de Piano

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Crítica Cineweb

28/01/2003

Quando venceu três troféus no Festival de Cannes/2001, este drama do austríaco Michael Haneke com certeza não despertou unanimidade. Além de um bastante polêmico Grande Prêmio do Júri, foram atribuídos troféus de melhor interpretação aos dois protagonistas, a atriz Isabelle Huppert e o ator Benoît Magimel. Apenas o de Mme. Huppert pareceu inconteste, especialmente diante da falta de concorrência à altura entre os títulos daquela competição.

Mesmo levando em conta todos os predicados da que é hoje a grande dame do cinema francês, restou a dúvida se ela não estaria se repetindo em papéis sombrios como este, em que interpreta a professora de piano Erika Kohut. Verdadeira coleção de perversões sexuais enfeixadas numa personalidade reprimida, ela combina uma carreira bem-sucedida como mestra num conservatório com a incapacidade de manter um único relacionamento normal em qualquer nível - seja com a mãe (Annie Girardot), seja com os alunos, mantidos à distância por um rigor que muito freqüentemente incide na crueldade.

Mesmo assim, ou pelo gosto do desafio diante de uma mulher aparentemente tão inacessível, Erika começa a sofrer o insistente assédio de um candidato a aluno, Walter Klemmer (Benoît Magimel). Uma insistência que, afinal, é premiada com a proposição de um jogo sadomasoquista. Erika não se compraz em nenhuma modalidade de sexo convencional. Sua vida secreta inclui incursões por peep shows, voyeurismo e sessões de automutilação.

Quando a professora lhe propõe unilateralmente os termos de uma relação doentia, o desejo de Walter se retrai. É então Erika que começa a caçá-lo, descendo todos os degraus da humilhação num crescendo que atinge a histeria. É nessa trajetória que o filme revela sua inconsistência dramática. Adaptando livro do escritor Elfriede Jelinek, o cineasta e também roteirista Haneke não demonstra nenhuma compaixão por sua talentosa intérprete, a ponto de se admirar a sua coragem ao ter se submetido aos rituais a que se assiste em cena. Mas, fora o prestigiado prêmio de Cannes, terá valido a pena?

De algum modo, o calvário emocional da protagonista nunca parece inteiramente convincente - e isto decorre da maneira como seu personagem foi construído no roteiro. Por isso, apesar da entrega da intérprete, não há como esconder sua psicologia rasa - tanto mais imperdoável quando se atenta que o currículo do diretor registra um diploma nesta área, além de filosofia e teatro. Muito pior do que esta fragilidade, que impede que o personagem se torne inteiramente humano aos olhos do espectador, é também um traço de misoginia. Nesta história, todas as mulheres, sem exceção, são vítimas maniqueístas, viciadas na própria dor e perversas - a ponto de um personagem vulgar como o do mauricinho Walter chegar a parecer digno, por comparação. Como bem observou a crítica inglesa Barbara Ellen, no jornal The Times, este é um filme em que as mulheres estão sempre erradas. E nunca nenhuma delas é compreendida.

Quanto ao diretor, de quem já se conhece no Brasil Violência Gratuita e Código Desconhecido, a esta altura já é possível desconfiar desta sua insistência num certo tipo de controvérsia especializada em cutucar com vara curta o limite do espectador. Talvez por ter estudado psicologia ele guarde um interesse maior em casos patológicos. Se como cientista isto parece natural, como cineasta já está cheirando a redundância.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 04/09/2011 - 00h35 - Por Otávio Eu gosto muito do Haneke, especialmente por "A Fita Branca" e "Caché", ainda que também tenha achado interessante - embora bastante desconfortável, claramente proposital - o "Violência Gratuita" (a primeira versão).

    (Abaixo tem "spoiler". Quem não viu o filme ainda não leia)

    Por gostar dele, fui ver "A Professora de Piano". Confesso que boa parte do filme me atraiu bastante: até certo momento, me lembrou "Cisne Negro" (filme mais recente, mas que eu vi antes), por causa da mãe invasiva, da autoflagelação da protagonista, para a qual o prazer e a culpa andam lado a lado (talvez por isso Érika seja sadomasoquista). A arte produzida pelas protagonistas destes filmes soa como algo totalmente "técnico" (não obstante em "Cisne Negro" isso fizesse da protagonista uma "artista incompleta", um detalhe fundamental para o filme).

    Pois bem, exatamente no momento em que a Érika "começa a caçá-lo", o filme me lembrou demais "Violência Gratuíta": o almofadinha bonzinho sacou todos os requintes de crueldade "guardados no bolso" e ela começou a passar aperto na mão dele. Confesso que me frustrei nesta parte, mas não sei dizer com segurança qual foi o motivo.

    Ao final do filme ela se flagelou após ser ignorada pelo almofadinha. Minha leitura foi a de que o cara a fazia sair do marasmo da vida dela, mesmo que fosse fazendo-a sofrer. Talvez seja uma crítica à "classe média alta erudita" que ele retrata no filme e da qual ela faz parte... A mulher não tem direito ao prazer e apanhar do marido é a "emoção" da vida dela. Uma classe machista e de poses. Não sei, não sei se estou indo longe demais nas divagações.
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