Minha Vida Sem Mim

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Crítica Cineweb

10/05/2004

Enquanto luta para esconder da família o câncer que a consome, Ann (Sarah Polley) ouve de seu médico que "morrer não é tão fácil quanto parece". E não é mesmo. Principalmente quando se tem uma atitude egoísta em relação à morte próxima. Até então ela levava uma vida tanqüila ao lado das duas filhas, do marido que vive atrás de um emprego, morando em um trailer no quintal da mãe, e trabalhando à noite na universidade como faxineira. Quando a notícia da doença cai como uma bomba em sua vida, Ann decide fazer algumas coisas diferentes.

Se por um lado ainda quer continuar a mesma rotina, de outro sabe que é hora de acertar algumas contas com o passado e planejar como deverá ser a sua vida sem ela. A moça começa a levar uma espécie de vida dupla. Nesta existência escondida vai realizando pequenos desejos, experimentando coisas novas. Para não deixar de cumprir todas as metas, ela faz, literalmente, uma lista.

Como casou-se muito jovem, a moça de 23 anos nunca teve um outro namorado. Por isso uma das prioridades do restinho de vida que lhe resta, é ficar com outro homem. Mas apenas namorar ou ter um relacionamento íntimo não é suficiente. É preciso fazer com que ele se apaixone por ela. A vítima é Lee (Mark Ruffalo), um solitário que conhece na lavanderia. Ela tenta manter o controle emocional, mas os dois embarcam em uma paixão melancólica - principalmente por que sabe que os dias desse caso estão contados. Mas ela decide também fisgar o coração de outro homem.

Em sua lista de prioriades está arrumar uma nova esposa para seu marido, Don (Scott Speedman). É estranho pensar que alguém tão egoísta como Ann tenha um momento de tanto despreendimento. Mas talvez essa meta esteja mais ligada ao seu senso de controle das pessoas do que um momento de altruísmo.

Nesse sentido, a diretora e roteirista Isabel Coixet acaba caindo em armadilhas que ela mesma armou. A platéia fica dividida: torcer por Ann realizar seus desejos ou antipatizar com ela, por ser tão fria e egoísta. Não há uma resposta simples. Como a maioria das coisas na vida, há um duplo sentido nos atos de Ann. No entanto, a diretora acaba optando por uma solução manipuladora, que induz às lágrimas, ao invés de deixar que o público escolha por si mesmo. No entanto, não chega a ser tão piegas quanto Lado a Lado, por exemplo, no qual uma moribunda e consumida Susan Sarandon tinha de aceitar Julia Roberts como futura madrata de seus filhos.

A grande qualidade do filme é a interpretação de Sarah Polley, que consegue dar uma dimensão humana ao personagem - apesar de alguns deslizes do roteiro. Sua Ann é uma pessoa que inspira tanta confiança, que a toda hora tem alguém se abrindo com ela. Mas, ao mesmo tempo, ela não consegue abrir seu coração com ninguém. Mark Ruffalo também tem uma presença marcante no papel de Lee, um sujeito que já rodou meio mundo mas ainda não conseguiu encontrar o seu lugar.

Não por acaso há um toque almodovariano light no filme. A produção executiva é dos irmãos Pedro e Augustín Almodóvar. Além disso, a madrasta em potencial é Leonor Watling, vista por aqui pela última vez como a bailarina comatosa de Fale Com Ela. Mas, claro, Coixet não é Almodóvar. O que em um filme dele seria algo denso, mas com uma certa ternura, nas mãos da diretora acaba certinho e explicadinho demais, como que justificando cada escolha da personagem - como se não bastasse o fato de estar com os dias contados.

No final das contas, Minha Vida Sem Mim é um filme emotivo, com boas doses de sinceridade e algumas pitadas de manipulação. Parece que, infelizmente, Coixet não acreditou em seu material como poderia ou deveria. Sem as suas claras opções para despertar as mais tristes emoções da platéia, o filme poderia ter sido uma pequena obra-prima.

Alysson Oliveira


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