Armadilha do Destino

Armadilha do Destino

Ficha técnica


País


Sinopse

Dois criminosos em fuga invadem um castelo na costa inglesa e fazem o casal proprietário de reféns. Enquanto esperam o seu chefe, mantêm um tenso jogo de intimidação com os donos da casa.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

15/03/2004

Um dos dois filmes feitos por Roman Polanski na Inglaterra - o outro é Repulsa ao Sexo (1965) - antes de partir para Hollywood, Armadilha do Destino é um típico filme dos anos 1960. Tem a marca do diretor franco-polonês, ou seja, uma história intrigante, margeando diversos gêneros, repleta de situações inusitadas em que literalmente tudo podia acontecer. O filme, aliás, venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim 1966 e o prêmio da crítica no Festival de Veneza do mesmo ano.
 
Como em Repulsa ao Sexo e em sua magistral estreia em longas,  A Faca na Água (1962) - ainda filmado na Polônia, onde Polanski se formou - , este longa contém, na fotografia em preto-e-branco (de Gill Taylor), um de seus elementos noir. Os dois primeiros personagens da história são gângsters em fuga que terminam refugiando-se num ermo castelo, habitado apenas por um casal, numa ilha batida pelos ventos e marés.
 
Alinhada à vocação policial do roteiro original, assinado por Polanski e seu habitual parceiro, Gérard Brach, infiltra-se um consistente humor negro, outra marca registrada de Polanski, que comanda o tom da história. Os bandidos, Richard (Lionel Stander) e Alfie (Jack MacGowran), afinal, são tremendamente desastrados, ambos baleados numa operação que deu errado e aparentemente muito secundários na hierarquia da gangue. Nem por isso, deixam de ser ameaçadores, especialmente Richard, ao dominar o cotidiano do casal dono do castelo, George (Donald Pleasence) e Teresa (Françoise Dorléac). 
 
A maestria do diretor em criar climas inesperados começa nas escolhas sobre como introduz a estes personagens e seu caráter através das próprias imagens, das situações que entregam o que eles são, sem firulas, sem excessos - embora o filme possa parecer eventualmente longo às apressadas plateias atuais.
 
De todo modo, o casal também tem seus subterfúgios para compor-se com Richard, que pediu ajuda ao seu chefe e deve esperar que chegue alguém com um novo carro. Teresa procura usar a sua sensualidade, com a qual controla este marido inseguro, fragilizado, em que Pleasence sai do molde de atuação pelo qual se tornou mais conhecido, como o vilão Blofeld, da franquia 007
 
Como em tantos outros filmes de sua carreira, Polanski interessa-se pela loucura, extraindo-a de situações do cotidiano, do comportamento de pessoas comuns submetidas a situações-limite. Nada melhor para criar uma notável variedade de incidentes neste confinamento forçado entre o casal e os marginais, num castelo que guarda uma lenda - ali teria sido escrito o clássico Rob Roy, por sir Walter Scott - e que não é tão inacessível quanto parece a princípio. Afinal, sempre chegam algumas visitas, o que dá margem aos roteiristas para imaginarem uma série de cenas que desmascaram o ridículo das convenções que regem a vida dos mais abastados. Assim, uma ácida luta de classes infiltra-se no tour de force entre o ladrão pé-de-chinelo e o casal rico e visivelmente desocupado, desfrutando de uma possível herança.
 
Neste papel feminino central, a atriz francesa Françoise Dorléac - irmã mais velha de Catherine Deneuve e que morreu tragicamente um ano depois do filme - interpreta com picardia alguém que representa a promessa de caos. Ela não se preocupa nem um pouco em ser uma dona-de-casa, deixando em desordem todos os objetos pelos aposentos do castelo, onde a única alimentação parece ser ovos, resultado da criação de galinhas que ela estabeleceu na antiga garagem do lugar. Bela e lânguida, ela flerta com todos os homens à sua volta, diante da pasmaceira do marido, parecendo manter com ele e com todas as coisas uma relação temporária e funcional, como uma garota travessa sempre disposta a partir para sua próxima aventura.
 
Jacqueline Bisset faz uma ponta como uma dessas visitas inesperadas que vêm mudar o clima de uma história que promete sangue e violência, mas nunca perde de vista a preocupação em ser sutil, ainda que em algum momento só se possa esperar ouvir o som de tiros.  

Neusa Barbosa


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