Casanova de Fellini

Ficha técnica


País


Sinopse

Fellini recria livremente as memórias de Giacomo Casanova, apresentando-o como uma figura aventureira mais levada pelos convites e circunstâncais do que pela própria paixão, impregnado por uma personalidade melancólica e entediada.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

26/02/2004

Nem sempre lembrado como uma das obras-primas fellinianas - apesar de sê-lo -, este décimo-sexto filme de Federico Fellini (1920-1993) encarna de maneira exemplar o método de trabalho do incomparável mestre de Rimini. Tal como um acrobata viciado na sensação de perigo do salto sem rede, Fellini assinou o contrato para filmar sem ter lido o livro que adaptaria, no caso, as memórias de Giacomo Casanova, veneziano que foi um dos mais famosos conquistadores de todos os tempos. Não era a primeira vez que Fellini o fazia. Repetia a experiência ao filmar Satyricon (1969), só depois do contrato assinado abrindo as páginas da obra de Petrônio.

Em Casanova, houve motivos para que sua adrenalina se acelerasse ainda mais do que em Satyricon. Como ele mesmo relatou (no livro Fazer um Filme), a leitura dos vários volumes de A História de Minha Vida, de Casanova, não lhe despertou a mesma paixão à primeira vista de Satiricon, privando-o, portanto, da centelha de inspiração que deflagrava seu delirante processo criativo.

Este distanciamento do material que devia imperiosamente filmar causou-lhe desespero. Da soma destas sensações negativas surgiu, contraditoriamente (ao menos, para os mortais comuns, mas não para Fellini), o fio da meada. O Giacomo Casanova de Fellini é, portanto, uma recriação fantasmagórica, mais do que a celebração do bon vivant incansável sugerida pelo mito. Do bloqueio de idéias inicial, Fellini tirou a inspiração para criar uma elaborada estética do vazio que era, a seu ver, o contexto do personagem. Daí nascem a sua diferença e unicidade, que justifica completamente o título - este é o Casanova de Fellini e de ninguém mais. Traçado em largas pinceladas, como uma tela expressionista, sem medo dos excessos nem das oscilações drásticas de tom.

Não que Fellini negue a carnalidade que é, afinal, a razão de ser e de viver de Casanova (Donald Sutherland). Ele inicia seu percurso numa aventura com uma escultural jovem freira, Madalena (Margareth Clementi), que o convida para uma noite de paixão num castelo, onde serão observados pelo amante da moça, o embaixador francês. A devassidão custa a Casanova cair nas mãos da Inquisição, que o condena a longa temporada no temido cárcere da Ponte dos Suspiros. Mas prisão alguma tem força para conter por muito tempo Casanova, que ainda tem pela frente uma temporada francesa, como hóspede da mística marquesa d´Urfé (Cicely Browne), depois uma paixão desatinada por Henriette (Tina Aumont), uma tentativa de suicídio e um final de vida solitário, como bibliotecário do conde de Waldenstein.

Fellini traça o perfil de Casanova como um peregrino desenraizado, conduzido pelos convites recebidos daqueles que acreditam em sua mística muito mais do que ele mesmo. Se ele entra num concurso de orgias ou atende aos caprichos de nobres entediados, é mais pelo apelo externo do que por impulso interior. Fellini escava a aparência festeira de Casanova, desconfiando de sua proverbial alegria, e revela-lhe uma inesperada melancolia e profundidade, um tédio da vida, um flerte com a morte, um lamento pela frieza glacial que envolve suas relações - mesmo com a própria mãe (Mari Marquet), cujo desprezo por ele é de gelar os ossos.

Pensando em Pinóquio - como revelou o próprio Fellini - o diretor criou uma metáfora de Casanova como um boneco atado ao próprio destino e manipulado pelos cordões da vontade alheia. E, finalmente, aprisionado no limbo das próprias lembranças, como um fantasma de si mesmo. A analogia do mecanicismo de suas relações encontra símbolos eloqüentes no pássaro metálico que utiliza em seus encontros amorosos e, especialmente, na boneca (Adele Angela Lojodice) com a qual baila nas seqüências finais. Poucas vezes a integridade da visão do diretor foi levada tão longe e com tanta perícia, valorizada, além do mais pelo esplendor desta cópia nova.

Neusa Barbosa


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