Cine PE 2021

O resgate do afeto em dois filmes da competição do Cine PE

Neusa Barbosa, do Recife

O tema do resgate da humanidade e da empatia esteve presente nos dois longas da competição da segunda noite do Cine PE, que alinharam, mais uma vez, um documentário, Ainda Estou Vivo (SP), e uma ficção, Deserto Particular (PR) - este último, tendo aqui em Recife uma pré-estreia, já que começa a circular hoje (25/11) em cinemas no Brasil. 
À esquerda, Pedro Fasanaro, ator de "Deserto Particular", ao lado de André Bonfim, diretor de "Ainda estou vivo"
 
Representante brasileiro na disputa de uma vaga nas indicações ao Oscar, Deserto Particular, de Aly Muritiba, já premiado em festivais como Veneza e Mix Brasil, desbrava o território de norte a sul do país, literal e emocionalmente, recontando a trajetória singular que une um policial de Curitiba (Antonio Saboia) e dois amigos moradores de Sobradinho, na Bahia (Pedro Fasanaro e Thomas Aquino). 
 
Como já fizera em seu longa de estreia, Para minha amada morta (2015), Muritiba desdobra as camadas do coração de seus personagens, revelando as raivas e afetos que unem e separam pessoas de experiências muito diferentes, desafiando-os a itinerários de superação - não só de preconceitos, como das amarras de um romantismo idealizado e precário. Ao fazê-lo com tanta intensidade e delicadeza, o diretor baiano radicado no Paraná mostra-se capaz de atingir uma conexão particular com o público, como o que na noite desta quarta (24/11) se emocionou com o filme na sessão no Teatro do Parque de Recife.
 
Preparação de elenco
Presente à coletiva de imprensa, o ator Pedro Fasanaro, intérprete do personagem Robson, destacou que a intensidade atingida pelo filme decorreu do processo de preparação de elenco. Ele e Antonio Saboia, por exemplo, demoraram a ter um encontro pessoal, ficando cada um numa sala, com o celular no ouvido, trocando mensagens. Como define Fasanaro, “criando o desejo de conhecer um ao outro”. Quando finalmente se encontram, é na cena em que dançam, uma das sequências essenciais da história. 
 
O ator revelou também a importância de o diretor “ter uma escuta muito boa”. E acrescentou: “Tenho muitas coisas em comum com o personagem, sou uma pessoa não-binária. O Aly não tem essa vivência, então a gente conversava muito para que o filme não se tornasse pesado nem agressivo”.
 
Outra coisa que ele tem em comum com Robson é o fato de morar com a avó - no filme, uma personagem interpretada pela veterana atriz paraibana Zezita Matos, que Fasanaro admirava há muito tempo. Para Fasanaro, atuar neste filme lhe trouxe experiências únicas também pelo fato de dividir a cena com atores como ela, Thomás Aquino e Flávio Bauraqui - dois intérpretes que, como ele descreve, “atuam como se nada”, uma energia que o ajudou no processo de “construção de memórias”, que ele acredita ter sido a chave do clima emocional atingido pelo filme.
 
Humanizar os detentos
Vem de Rondônia a notícia de um projeto original de ressocialização de presidiários que recorre a massoterapia, psicodrama, reiki, meditação e arteterapia, retratado no documentário Ainda Estou Vivo, de André Bonfim (SP). O projeto, que já dura 16 anos, capitaneado pela ONG ACUDA (Associação Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e do Egresso), expõe algumas das profundas contradições de um país em que é mais fácil, porque de apelo popular e midiático, a aprovação da construção de um novo presídio de segurança máxima do que a garantia da expansão de iniciativas humanizadoras da população carcerária.
 
Caminhando no fio da navalha num assunto polêmico, em que visões punitivistas costumam contaminar análises racionais, o documentarista evita idealizar seus personagens, preferindo expor seus enormes conflitos e o desconforto de sua situação. Vários deles são pais, preocupam-se com o futuro dos filhos e temem pela descontinuidade do projeto, que os tira durante a semana da rotina da prisão, à qual voltam diariamente, à noite e nos fins de semana, tendo de conviver com todos os problemas habituais - superlotação, barulho, insegurança. O diretor destacou, na coletiva de imprensa, que seu maior objetivo foi humanizar os detentos. “A desumanização do outro é que permite a necropolítica. Por isso dedicamos tanta atenção a abordar a questão do corpo, para dar contorno a sentimentos e histórias de vida”.
 
Último dia da competição
A competição do festival encerra-se na noite desta quinta, a partir das 19h com os dois últimos longas, o documentário Os ossos da saudade, de Marcos Pimentel (MG), e a ficção Lima Barreto no terceiro dia, de Luiz Antônio Pilar (RJ). Na noite de sexta, serão divulgados os premiados da edição e exibido o filme de encerramento, Recife Assombrado, de Adriano Portela (PE).

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