Cine PE 2021

Um olhar para a identidade entre países e o resgate de Lima Barreto

Neusa Barbosa, do Recife

Encerrando a exibição dos longas concorrentes, o Cine PE apresentou na noite de quinta (25/11) dois filmes que investigam identidade e negritude numa linguagem que coloca a arte em primeiro plano - o documentário Os ossos da saudade, de Marcos Pimentel (MG) [foto abaixo], e a ficção Lima Barreto no Terceiro Dia, de Luiz Antônio Pilar (RJ) [na foto, o diretor com as atrizes Maria Clara Vicente e Cristiane Amorim]. Na noite desta sexta, serão divulgadas as premiações, no belíssimo Teatro do Parque, um espaço centenário no centro do Recife, recentemente restaurado. Serão entregues não só os prêmios desta edição, mas também aqueles concedidos no ano passado, que não puderam ser entregues pessoalmente por conta da pandemia (em 2020, o festival aconteceu online).
 
Intercalando personagens com trajetórias entre o Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde e Portugal, Os ossos da saudade explora os meandros de temas tão vastos e abstratos como pertencimento, nacionalidade, raízes, perdas e exílio, a partir da fotografia de Matheus da Rocha Pereira - que equilibra tomadas do mar e dos animais de suas profundezas com sequências dos personagens em cenários não raro exóticos e inusitados. Como construções imensas e abandonadas, guardando sinais de projetos e grandezas perdidos do período colonial nos países africanos, praias, cânions e outros lugares que criam equivalentes estéticos às próprias noções de construção e desconstrução presentes nos relatos. 
 
O brasileiro Rodrigo, radicado em Portugal, a angolana Huíla, que estudou no Brasil, a capoeirista Joana, paraense de Belém que passou a vida entre o Brasil e Moçambique, a mineira Rosânia, também moradora em Moçambique, o cabo-verdiano Zé Melo, que passou a adolescência e a juventude no Brasil, e a guineense Adelmisa, que vive no Brasil, são os personagens entre dois países que compartilham suas vivências e memórias num filme de denso tecido poético que, finalmente, sintetiza seu projeto numa única pergunta: afinal, o que é “casa”?  
 
Por conta dessas escolhas da direção, de não tomar caminhos óbvios ao abordar estes temas, ao assistir estas imagens pode-se às vezes até perguntar-se a respeito do que trata, afinal, Os ossos da saudade. E nessa expansão de conceitos é que está seu grande acerto.
 
Lima Barreto
Partindo da peça teatral homônima, escrita em 2013 por Luiz Alberto de Abreu, Lima Barreto ao terceiro dia, de Luiz Antonio Pilar - diretor da peça no teatro - explora de maneira criativa aspectos dramáticos da vida do jornalista e escritor carioca (1881-1922). O roteiro é de Abreu e Pilar.
 
Luis Miranda interpreta o escritor na maturidade, em 1919, quando ele foi mais uma vez internado num hospital psiquiátrico, depois de um surto psicótico. Tal como na peça, a narrativa se desenvolve em três planos: o momento real, no hospital, em que Lima divide uma cela com outro paciente, Felipe (Eduardo Silva); o momento da memória, ocupado pelo escritor aos 30 anos (aqui vivido por Sidney Santiago Kwanza), lutando para concluir o romance O Triste fim de Policarpo Quaresma; e o momento da imaginação, em que atuam personagens deste livro, como Policarpo (Orã Figueiredo), sua irmã Adelaide (Gisele Fróes), sua amiga Vitória (Cristiane Amorim) e a jovem filha desta, Ismênia (Maria Clara Vicente).
 
A ambição deste projeto é compatível com a intenção da peça e do filme, que discutem com muitas nuances a figura contraditória e trágica do talentoso escritor, um homem profundamente crítico das instituições de seu tempo, resgatando com a devida complexidade uma figura da maior importância da literatura brasileira que ainda não ocupa o espaço devido aos seus méritos - mesmo passados quase 100 anos de sua morte. O que, sem dúvida, tem muito a ver com sua origem popular e sua negritude.
 
Luis Miranda faz um verdadeiro tour de force com este personagem profundamente amargurado e dividido que, mesmo acometido de surtos, não deixa de manifestar em vários momentos uma lucidez afiada e amarga - que ele também brande em suas conversas com seu eu jovem e também como Policarpo Quaresma, sem dúvida o alter ego de uma das fases de sua vida. 
 
A passagem do teatro para o cinema apresenta desafios, como a linguagem mais sofisticada, que a montagem de André Pacheco e Luiz Antonio Pilar procuram atenuar, bem como a bela fotografia de Daniel Leite - que cria os climas e as passagens entre os planos reais e imaginários da história. Eventualmente, há alguns problemas de ritmo e diferença de tons de interpretação, mas nada que destitua o filme de seu grande interesse.

Fotos: Neusa Barbosa

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