45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Repescagem ocorre apenas na plataforma Mostra Play até 7/11

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa

Encerrando a 45ª Mostra, a tradicional repescagem reúne 131 títulos, exclusivamente na plataforma Mostra Play – para a qual é preciso um cadastro prévio para poder adquirir os ingressos (R$ 12,00) e assistir aos filmes.
 
Abaixo, alguns dos títulos disponíveis, resenhados pela equipe do Cineweb:
 
I Comete – Um Verão na Córsega
Ganhador do Prêmio Especial do Júri, no Festival de Roterdã, I Comete – Um Verão na Córsega é um filme em que o cenário é tão importante quanto qualquer outra coisa, e, não por acaso, já está no título. Escrito e dirigido pelo estreante Pascal Tagnati, o longa tem uma liberdade formal que causa certo estranhamento, especialmente com suas pouco mais de duas horas de duração.
 
Tagnati tem uma câmera que parece acompanhar quase que ao acaso moradores e moradoras de Tolla, uma região na ilha, banhada pelo sol, cujos moradores estão voltando das férias de verão. Combinando ficção e algo de documental, tem o roteiro creditado ao diretor e “à comunidade”, o que deixa claro que também muitos dos diálogos, falados em francês e corso, são improvisados.
 
Com longos planos e câmera quase sempre aberta, combina-se personagens e cenário, dando a sensação de um observador um tanto distante, que não interfere, apenas olha e registra. Assim, as cenas são longas e irregulares, algumas vezes perdendo o interesse lá pela metade. Outras, com potência e poesia, como Franje (Jean-Christophe Folly), jovem de ascendência africana, adotado por uma família local, interagindo com sua avó (Roselyne de Nobili), na primeira dessa série de cenas espalhadas pelo filme, em que ela fala sobre o passado, suas memórias e recordações, enquanto a luz ambiente, que entra pela janela, diminui com o cair do dia.
 
A longa duração do filme nunca é justificada, e uma série de acontecimentos banais e frágeis se alongam e dissipam parte da força que I Comete... teria se mais concentrado. A ambição é Tagnati é clara, a de fazer um retrato da condição humana a partir desse microcosmo, mas outros e outras cineastas fizeram isso melhor, sem precisar testar a paciência do público.  (Alysson Oliveira)
 
Coisas Verdadeiras
Possivelmente, há um filme bem melhor do que aquele que se vê na tela nas entrelinhas de Coisas Verdadeiras, drama da diretora Harry Wootliff sobre uma mulher presa a uma relação tóxica. O tema é urgente e necessário e o resultado final não é exatamente ruim, mas parece mais algo tentando se encontrar em forma de cinema.
 
Kate (Ruth Wilson) vive numa cidade costeira na Inglaterra e leva uma vida tediosa. Seu grande sonho é fugir para uma praia paradisíaca, mas está estagnada num cotidiano de rotina, uma espécie de conforto sufocante, mas ao qual ela se acostumou, até que conhece um homem (Tom Burke) que acabou de sair da prisão. Num primeiro contato, não dá muita atenção a ele, mas, não muito depois estão tendo uma relação sexual num estacionamento.
 
Uma euforia toma conta de Kate, que faz coisas que não faria antes, como matar o trabalho para ficar com seu amado, a quem passa chamar pelo codinome de Blond. A relação entre eles é claramente tóxica, e inclusive a personagem parece ciente disso, mas se mostra incapaz de iniciativa para fugir deste romance que mais faz mal do que bem a ela.
 
O roteiro, assinado pela diretora e Molly Davies, a partir de um romance de Deborah Kay Davies, fornece poucos elementos sobre o casal, na medida em que o elo se torna mais forte. São estranhas as escolhas feitas pela cineasta, todas muito claras. Não se trata de erros ou deslizes, são opções para contar uma história que a gente parece ver pelas arestas não aparadas.
 
Kate vai se perder, deixar de ser a mulher que sempre foi para se tornar alguém mais parecida com Blond, com opiniões e comentários derivados do que ele diz e faz. É um caminho que parece sem volta, por mais que fique claro que ela está se anulando. As pessoas tentam ajudar, mas ela não quer sair dessa nova zona de conforto doentia.
 
Ainda falta ao filme delinear melhor essa personagem. Uma atriz excelente como Wilson sozinha não é capaz de construir uma Kate convincente, ela precisa de ajuda da história e da direção. Nem sempre fica claro o que motiva essa mulher a se entregar dessa forma a um homem que faz tanto mal a ela. Coisas Verdadeiras ressente-se exatamente daquilo que está em seu título: elementos de deem substância à personagem e a tornem verossímil. (Alysson Oliveira)
 
A garota e a aranha
O fime suíço é sobre mudanças – reais e metafóricas –, centrando-se numa jovem que troca de apartamento, deixando para trás a colega com quem o dividia. Mara (Henriette Confurius), a que fica, sente-se perdida, não sabe mais o que fazer sozinha, nem como aproveitar seu tempo. Embora não seja explícito, é possível perceber que ela e Lisa (Liliane Amuat) tinham um envolvimento muito mais profundo – possivelmente romântico – do que amizade.
 
Os gêmeos Ramon e Silvan Zürcher assinam o roteiro e a direção desse filme todo calcado em estranhamentos e na pegajosa canção Voyage, Voyage, clássico pop francês dos anos de 1980. Trata-se do segundo exemplar de uma trilogia sobre a solidão humana. No anterior, de 2013, chamado A Gatinha Esquisita, investigava-se a dinâmica de uma família alemã enfurnada num apartamento. Torna-se evidente que a geografia da habitação é um tema caro à dupla de diretores – assim como a presença de animais no título de seus filmes – , pois aqui o cenário é tão importante quanto as personagens.
 
A Garota e A Aranha é um filme enigmático, que vai encontrar pelo caminho defensores apaixonados, mas, certamente, não é para grandes públicos. Mara é o centro da história, com um olhar perdido que domina tudo, inclusive a narrativa, que se apóia em sua tentativa de se reencontrar no mundo depois dessa grande transformação em sua vida. Este também é um longa sobre a inevitável passagem do tempo e as também inevitáveis, transformações que o acompanham.
 
Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, Mara terá de lidar com a separação da amiga, aprendendo a viver com isso. Antes disso, no entanto, a mudança de Lisa parece nunca ter fim. As idas e vindas, encontros e desencontros entre as duas geram uma espécie de tensão que se dissipa facilmente. Há realmente uma aranha no filme, como uma personagem secundária que tudo observa e é tratada como mais uma moradora do apartamento, sem causar qualquer medo ou aflição.
 
Ao fim, o filme dos irmãos Zürcher é aberto a diversas interpretações. É o tipo de obra que se encaixa em praticamente tudo o que o público quiser, o que pode ser também um tanto frustrante. (Alysson Oliveira)
 
Armugan
Aqui está um filme que causa reações fortes: é ame-o ou deixe-o. Pouco provável que suscite algo entre os dois extremos, ou se embarca na jornada dele ou não. É bem verdade que o roteirista e diretor espanhol Jo Sol faz poucas concessões, a começar pela potente fotografia em preto-e-branco, assinada por Daniel Vergara, e também o ritmo contemplativo, da montagem de Afra Rigamonti. Mas é um filme repleto de recompensas para quem se deixar levar por ele.
 
Armugan (Íñigo Martínez Sagastizábal) viaja nas costas de Anchel, (Gonzalo Cunill), seu único amigo. O cenário é um vale na região dos Pirineus, que separa a Península Ibérica do restante da Europa, e o protagonista tem uma profissão peculiar sobre a qual não se fala, mas está relacionada à morte e à vida, em certa medida. Ele é uma espécie de ante-morte, capaz de reverter situações iminentes.
 
Uma desconhecida (Nùria Lloansi) os procura pedindo ajuda: seu filho pequeno está muito doente e poderá morrer a qualquer momento e ela pede sua intervenção. Armugan e Angel começam a discutir a questão, e isso caminha para um embate sobre visões de mundo e da vida e da morte.
 
Com uma trama assim, o roteirista e diretor Sol está claramente interessado em questões espirituais e filosóficas, em diálogos pontuados por longos silêncios, num filme com toques de surrealismo e personagens peculiares, a começar pelo próprio Armugan, um homem com limitações físicas – inclusive dificuldades de fala, mas com profundo conhecimento sobre a humanidade.
 
Uma questão central, embora nunca seja identificada assim, é a eutanásia, abordada como um ato complexo e repleto de facetas. Uma delas é a do egoísmo de se manter viva uma pessoa cuja vida e força já se esvaíram. A morte, em alguns casos, diz o filme, pode ser libertadora, poupando dores e sofrimentos. (Alysson Oliveira)
 
Os Inventados
Dirigido pelo trio Leo Basilico, Nicolás Longinotti e Pablo Rodríguez Pandolfi, o filme argentino começa com uma energia e promessa que não se cumprem ao longo de seus 91 minutos. Seu protagonista é Lucas (Juan Grandinetti), um jovem ator cuja carreira não decolou. Ex-astro mirim, agora trabalha numa empresa de telemarketing.
 
Entre um teste e outro, ele aceita participar de um workshop no qual, durante quatro dias, cinco pessoas isoladas numa casa de campo entrarão num personagem e não deverão sair dele. O experimento tem cara, jeito e cheiro de reality show, embora não esteja sendo transmitido para lugar algum.
 
O trio que assina a direção também é responsável pelo roteiro, que assume ares inesperados de suspense, com Lucas e seus colegas de confinamento interagindo até situações-limite.  Os Inventados é um filme que não vai muito longe, transita entre falar das dificuldades de atores para encontrar emprego a uma mimetização das disputas na esfera do trabalho. Os diretores não parecem muito seguros do que querem dizer sobre cada coisa, e o longa se perde, parecido com Lucas no começo, bastante sem rumo. (Alysson Oliveira)
 
Um Forte Clarão
Há um conflito central neste que é o longa de estreia da espanhola Ainhoa Rodríguez, que venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Málaga e foi apresentado em Roterdã: as pulsões entre a vida e a morte. Assinando também o roteiro, a diretora situa sua narrativa em Estremadura, próxima à fronteira entra Espanha e Portugal, durante o período de Páscoa, uma celebração, simbolicamente, da vida. Porém, o pequeno povoado parece definhar a cada dia.
 
Rodríguez conta que o filme nasceu da necessidade que tem de trabalhar em uma cidade pequena com atrizes e atores naturais. “Tudo vivido, seus rostos, suas emoções, seu passado, seu presente, seus sonhos e tudo mais, é uma forma fascinante de tecer uma história de mãos dadas e, aos poucos, em uma pequena cidade onde eu morava e onde queria virar quase minha Cinecittá particular. Ao mesmo tempo, há aquela coisa misteriosa dos autores de sentirem-se ancorados à terra, neste caso a Tierra de Barros, de onde vem a minha família paterna e de onde venho.”
 
A paisagem parece devastada, digna de um filme apocalíptico, não havendo qualquer sensação de renascimento. A impressão é de um sentido de luto eterno. O longa passeia, por assim dizer, pela vida e casas de moradores e moradoras que, em momentos que transitam entre o onírico e o surreal, descortinam suas vidas. Interessa a Rodríguez, em especial, a vida das mulheres.
 
A diretora explica que seu longa “reflete um pedaço da vida durante um período anterior e durante a Semana Santa numa pequena localidade de Tierra de Barros, e verdadeiramente bebe da vida cotidiana, do documentário, da sua vida, do seu dia a dia. Mas também na vida numa pequena localidade estão os elementos da fé, elementos da fabulação para encontrar um sentido nos grandes mistérios da vida, explicar o que nos rodeia, a morte, Deus, o mundo. Não só as crenças católicas mas esotéricas e também fantásticas da infância, tudo também faz parte do cotidiano destes povos e, digamos, também o absurdo e o humor negro.”
 
Ao lado do diretor de fotografia Willy Jáuregui, a cineasta conta que teve de filmar com meios limitados e trazer muito da realidade para Um forte clarão. “Depois foi finalizada a construção junto com José Panadero, colorista e operador de vfx. A ideia era deixar aquela fotografia um tanto dessaturada, empoeirada, como aquela cidade que se ancorou no tempo em uma época que passou. E também passou um pouco de poeira e permaneceu ali, ancorados nas suas tradições como uma bela e dura resistência, ao mesmo tempo que se encerram em tomadas de sequência fixa, que os encerram no lugar onde pertencem a uma das origens, uma alma que devem preservar mas, ao mesmo tempo, que os faz de alguma forma não saírem de lá.”
 
A diretora se define como uma kamikaze, pois começou a rodar seu primeiro longa, no qual também é creditada como produtora, sem o orçamento completo. “O principal desafio era fazer um filme o mais livre possível, porque é livre em sua totalidade. Uma produção independente faz com que você também tenha que se estruturar. Era difícil para um produtor, desde o início, confiar em um determinado método, que é construir um filme ao mesmo tempo que já estava trabalhando nele com o resto da equipe, sem um roteiro finalizado antes de começar a filmar.”
 
O “forte clarão” do título é uma profecia enunciada por uma personagem, ainda no começo do filme, que diz que o local irá desaparecer depois desse fenômeno e perder a memória. Assim, a narrativa toda se dá no compasso dessa espera da vinda do fim. Se ele virá é uma questão – mas também se sabe que um fim não é necessariamente o encerramento de tudo, mas a transformação, um novo ciclo, tal como a Páscoa que tanto marca esse longa. (Alysson Oliveira)
 
Pedregulhos
Escrito e dirigido por P.S. Vinothraj, o filme indiano está na contramão do cinema mais conhecido de seu país, marcado por extravagâncias longas e repletas de cantorias e danças. Com pouco mais de uma hora e uma estética minimalista, esse drama se dá na contenção, com uma narrativa potente e uma estética marcante. Ao centro, uma criança dividida depois da separação dos pais.
 
Ganapathy (Karuththadaiyan) é um alcóolatra abusivo que batia na mulher e maltratava o filho. Ela o abandonou e se mudou para outro vilarejo com sua família. Isso não o impede de usar o menino, Velu (Chella Pandi), para tentar trazer a mulher de volta. O filme já começa com ele alcoolizado indo buscar o garoto na escola e gritando com ele.
 
Chegando na casa onde ela estava, descobre que a mulher voltou para Tamil Nadu, onde moravam. Sem dinheiro para o ônibus, pai e filho precisam voltar para casa, caminhando por cerca de 13 Km, depois que Velu, revoltado com o comportamento do pai, rasga as passagens.
 
Falando pouquíssimas palavras ao longo do filme, o menino é seu centro. Os olhos grandes e expressivos de Pandi dizem muito sobre o que ele aprende a respeito do mundo, de sua sociedade e do patriarcado, embora, obviamente, ele nem fosse capaz de elaborar isso. Em sua jornada, a dupla encontra outras personagens, o que permite ao longa ampliar seu escopo. A entrada e saída de novas figuras ao longo de Pedregulhos é feita de maneira bastante orgânica na narrativa escrita por Vinothraj, que traça um retrato bastante honesto e impressionante de pessoas vivendo em situações de degradação pela pobreza.
 
Aos brasileiros, a viagem de Ganapathy e Velu trará algo de Vidas Secas, com sua história de miséria e resiliência diante das circunstâncias. Assim como no filme brasileiro, em Pedregulhos não há nenhum espetacularização da miséria, pelo contrário, é uma denúncia e um retrato de um país que pouco olha para suas classes mais pobres. O minimalismo adotado por Vinothraj é bastante condizente com a história que conta, na qual não há espaço para nada supérfluo. (Alysson Oliveira)
 
Higiene Social
Pretensão é uma palavra-chave no filme do canadense Denis Côté, pois o longa pode parecer pretensioso para alguns, quando, na verdade, a questão central é satirizar filmes pretensiosos. É uma linha tênue, nem sempre muito clara, por isso também não há de se culpar quem não compra a história nestes termos. Conhecido por longas como Antologia da Cidade Fantasma e Vic + Flor viram um urso, o cineasta pode parecer também estar se aproveitando da pandemia – distanciamento entre personagens é outro ponto aqui –, mas, a bem da verdade, o filme foi concebido bem antes da Covid-19.
 
O rigor formal se apresenta logo no primeiro segmento, no qual uma câmera estática estabelece uma geografia na tela, com dois terços desta coberta pelo céu e o restante, por um gramado. Em cada um dos extremos, um personagem, e outro, ao centro, mas mais afastado, bem ao fundo. Antonin (Maxim Gaudette) discute com sua irmã Solveig (Larissa Corriveau). O figurino causa um estranhamento, combinando roupas de época com outras mais modernas.
 
Ao longo de outras sete vinhetas, Antonin estará ao lado (embora distante) de outras personagens, em ambientes rurais, discutindo sobre sua vida e as decepções que causa aos demais. Entre elas, estão sua mulher Eglantine (Evelyne Rompré), numa roupa do século XVIII; Cassiopée (Eve Duranceau), sua amante; uma burocrata (Kathleen Fortin); e Aurore (Eleonore Loiselle), esta num figurino completamente contemporâneo usando jeans.
 
Aos poucos, as conversas revelam suas questões reais. Eglantine, por exemplo, abandonou o marido, teve um amante, mas está disposta a voltar, se ele mudar. Já a burocrata cobra impostos atrasados, enquanto Aurore quer reaver seu carro, que o protagonista roubou. Ela é a personagem mais misteriosa aqui, pois, antes da cena com Antonin, ela aparece em alguns momentos do filme vagando pela floresta.
 
Higiene Social brinca com a questão da distância física entre os personagens para materializar a distância emocional, psíquica e até intelectual entre eles. Mas uma obra de arte e suas interpretações são sempre fruto de um momento histórico, por isso é impossível não ver o longa como também um comentário sobre a pandemia e seus efeitos, quando os distanciamentos apertaram ou afrouxaram laços de amizade e amor. (Alysson Oliveira)
 
Jane por Charlotte
Atriz conhecida por trabalhos com Lars von Trier, como Anticristo e Melancolia, Charlotte Gainsbourg expõe uma face mais pessoal com esta estreia na direção, em que realiza um documentário profundamente intimista com sua mãe, a cantora e atriz Jane Birkin.
 
Visivelmente, Charlotte lança-se a este encontro com a mãe sem um plano muito rígido, deixando rolar conversas em que as duas falam de um certo pudor uma diante da outra, de memórias de infância e sensações diante do fato de serem ambas filhas do meio.
 
Jane é uma presença espontânea e cativante sempre e desvela-se sem nenhuma preocupação em fazer pose ou disfarçar suas dúvidas e até culpas. Charlotte entra na mesma vibração, reforçando o toque familiar com a presença de uma de suas próprias filhas, Jo.
 
Os cenários incluem desde shows no Japão e Nova York, onde Jane canta com uma eventual participação de Charlotte no último, e também na ampla casa da cantora - marcada por uma assumida desordem permanente, já que Jane admite que nunca consegue jogar nada fora.
 
Uma visita emocional é à antiga casa onde a cantora morou por 12 anos com Serge Gainsbourg, cantor e compositor pai de Charlotte, que a filha transformou num museu e guarda ainda objetos pessoais de ambas - como vidros de perfume de Jane e retratos delas. 
 
Memórias de Kate Barry, a filha mais velha de Jane, que morreu em 2013, também vêm à tona de uma forma natural, respeitando o ritmo da protagonista diante da evidente dificuldade diante do assunto..
 
A preocupação com a morte - Jane tem lutado há anos contra a leucemia - percorre também algumas das falas. E a narração final em off de Charlotte é uma delicada declaração de seus sentimentos diante da fragilidade da vida. 
Este não é, certamente, um documentário de grandes revelações ou impacto, apenas o registro suave de alguns momentos entre mãe e filha que por acaso são duas artistas importantes. Mas o afeto que perpassa tudo compensa as hesitações da narrativa, que é bastante sincera. (Neusa Barbosa)
 
Imaculada
No material de imprensa do longa, sua roteirista e codiretora, Monica Stan, conta que partiu de uma experiência própria para escrever o filme. Aos 18 anos, foi internada pelos pais numa clínica de reabilitação para tratar o vício em heroína. A protagonista é Daria (Ana Dumitrascu, aqui com os longos cabelos loiros e uma impressionante semelhança física com Suzane von Richthofen), uma jovem ingênua que acaba se viciando para acompanhar o namorado.
 
Com pouco mais de 18 anos, Daria é internada pelos pais quando o vício é descoberto, depois da prisão do companheiro. Na primeira cena, quando ela é admitida na clínica, o filme já estabelece seu tom e personagem. Ela admite que começou a usar por influência dele, para acompanhá-lo, e nem percebe o quanto foi usada por ele para traficar drogas. Ingênua e, às vezes, tola, logo de cara fica evidente a personalidade passiva dela.
 
Na clínica, sem qualquer contato com o mundo externo, ela pensa e fala muito sobre esse namorado que nunca vemos, mas que é uma forte influência sobre ela. O ambiente é assustador e parece mais uma prisão limpinha. Há, entre os personagens, aquelas mesmas dinâmicas de poder e amizade que se vê em filmes de presídio. Daria, a mais nova a chegar, torna-se objeto de desejo de todos os homens ali, mas ela se mantém fiel ao namorado, o que inspira admiração dos outros.
 
Daria cai nas graças de Spartac (Vasile Pavel), uma espécie de líder que, depois de certa negociação, aceita levar uma espécie de romance platônico com ela, um “namoro” no qual apenas conversam e trocam carinhos ingênuos. A protagonista parece não ter consciência de seu poder de sedução, mas vale-se dele quase que por inércia, usando-o para conseguir privilégios dos outros colegas.
 
A falta de iniciativa da personagem torna o filme exasperante em alguns momentos, mas esse comportamento é bastante verossímil. Daria conta com a interpretação precisa de Dumitrascu, que traz honestidade a uma figura que poderia ser caricata e superficial. A estreante Stan e o codiretor George Chiper, que também assina a fotografia, optam por tons neutros, marcados pelas paredes claras e roupas bege dos internos. Tudo isso numa oposição a uma cena pós-créditos, marcada por coloridos e música pop, que estabelecem uma espécie de dialética entre dois momentos na vida da personagem. (Alysson Oliveira)
 
Madeira e água
Vivendo em Hong Kong entre 2017 e 2020, o cineasta alemão Jonas Bak sentia-se sem saber o que estava fazendo na cidade. Ao mesmo tempo, sua mãe, vivendo sozinha na Alemanha, estava se aposentando. “Eu percebi que tinha a minha história e também a história dela, e eu poderia combinar as duas”, diz em entrevista ao Cineweb. Em Madeira e Água, a protagonista (Anke Bak) decide viajar para a Ásia e visitar o filho que não vê há alguns anos. Enquanto espera a volta dele, que está numa viagem de negócios, ela passeia numa cidade tomada por protestos e descobre um novo mundo se abrindo para ela.
 
O diretor conta que trabalhou com seu material de uma forma bastante livre e também pessoal. “Quando você faz um filme assim, fica difícil distinguir a barreira entre a ficção e o documentário. Eu não pensava nisso com rigor, deixava o filme fluir. A trama era mínima, deixávamos que a atmosfera a guiasse.”
 
Anke já tinha alguma experiência como atriz quando aceitou fazer o filme, que conta ter sido uma escolha natural colocá-la no papel da mãe que espera o filho voltar de viagem. “Achei que, por estar vivendo sozinha e se aposentando, colocá-la nesse papel seria uma maneira de ela pensar o seu próprio futuro. Eu estava preocupado com ela, com o vazio que viria com a aposentadoria. Eu vejo o cinema como uma espécie de terapia, tanto para quem faz quanto para quem assiste.” Anke conta também que, depois de Madeira e Água estar pronto, admitiu que as filmagens a ajudaram muito a lidar com o momento.
 
Bak já conhecia bem Hong Kong, pela sua experiência de morar lá, antes de rodar seu longa, que também é visto por ele como um diário de viagem que mostra as primeiras conexões com a cidade. “Como passei tanto tempo lá, tentei encontrar coisas e lugares que me interessavam, e assim achar o meu próprio lugar lá. Minha ideia era de que minha mãe também achasse seus próprios lugares.”
 
Enquanto filmava em Hong Kong, os Bak se depararam com uma série de protestos nas ruas. Isso foi “estressante, mas também uma experiência bela e transformadora”. Não havia como deixar isso de fora de Madeira e Água. “Não tinha como ignorar milhares de pessoas nas ruas lutando por direitos básicos. Acho que essa energia se impregnou no filme, e o moldou de certa forma. Estávamos filmando num lugar que nunca mais seria o mesmo depois daquele momento, e Hong Kong nos deu isso para o filme. Espero que tenhamos dado algo em troca para a cidade também”. (Alysson Oliveira)
 
Eu quero falar sobre Duras
Em dezembro de 1982, Yann Andréa (Swann Arlaud), companheiro de Marguerite Duras há dois anos, convoca a jornalista Michèle Manceaux (Emmanuelle Devos), amiga da célebre escritora, para uma série de entrevistas gravadas. Havia provavelmente intenções literárias por trás das conversas mas o fato é que as fitas gravadas permaneceram inéditas e com a jornalista até sua morte, em 2015. Yann nunca as resgatou. Coube à sua irmã, Pascale Lemée, recuperá-las e esta é a base deste curioso filme da veterana diretora Claire Simon.
 
Em depoimentos que muitas vezes parecem sessões de psicanálise, Yann, que mantinha uma relação tempestuosa com Duras e não apenas pela grande diferença de idade - era 38 anos mais jovem do que ela -, abre seu coração com uma franqueza impressionante. Não se esquiva de nenhum tema polêmico, de nenhum sentimento pouco edificante, seu ou de Marguerite. Expõe detalhadamente as afinidades e os conflitos que uniam e separavam os dois, que ficaram juntos 16 anos, até a morte da escritora, em 1996.
 
A jornalista é uma hábil ouvinte mas, de tempos em tempos, coloca perguntas que podem aprofundar o tom da narrativa íntima de que compartilha. Oscilando em closes entre Yann e Michèle, a câmera pousa delicada neles, como uma borboleta, como não querendo quebrar o encanto do momento que os dois dividem - sem dar atenção às tentativas eventuais de Marguerite, no andar abaixo, de interromper a conversa soando a campainha ou telefonando. Yann, por sua vez, leva a sério os horários desta entrevista, que ele decidiu assim, tentando impor algum limite a uma relação não raro sufocante em sua intensidade.
 
Um recurso interessante no filme é usar somente imagens documentais de Duras, de uma maneira que dialoga perfeitamente com a narrativa realizada por seu amante - introduzindo, por exemplo, cenas de India Song (1975), filme que ela dirigiu e que proporcionou, num debate após uma de suas sessões, o início do relacionamento entre os dois.  A história desta aproximação inusitada de duas criaturas de gerações diferentes e que viviam longe entra densa no relato, que cresce em intensidade apostando, acima de tudo, na força da palavra. Que foi, afinal, o que aproximou Yann e Marguerite, primeiro por meio de cartas dele, enviadas por cinco anos sem que ela respondesse e antes que, finalmente, ela concordasse em encontrá-lo, Se há um acerto no filme é ter encontrado o tom certo para respeitar esse estranho encantamento hipnótico que a palavra encontra, acima de tudo, na literatura. (Neusa Barbosa)
 
Lua Azul
Ainda criança, a cineasta e atriz Alina Grigore mudou-se de Bucareste, capital da Romênia, para uma cidade no interior do país. Teve um choque: “Percebi que, ao contrário do que acontecia em minha família, educação não era uma prioridade para as crianças – especialmente para as meninas. Anos depois, notei que as coisas não haviam mudado”, conta em entrevista ao Cineweb. Essa constatação serviu de ponto de partida para seu primeiro longa como diretora, Lua Azul.
 
“Comecei a pensar num filme que mostrasse relacionamentos e a diferença entre o ponto de vista de uma mulher que quer ter educação formal, e o de um homem que é mais próximo de suas raízes e da família, não necessariamente de valores cristãos, mas aqueles muito mais conservadores.” A partir disso, nasce o filme, em que a protagonista, Irina (Ioana Chitu), tenta chegar ao ensino superior e fugir da opressão que enfrenta no vilarejo onde mora.
 
Com a história dessa jovem, Grigore entra numa outra zona de conflito: o abuso sexual. Há um encontro sexual ambíguo no filme, cujo desenrolar está bastante ligado a questões urgentes do nosso tempo, como os movimentos sociais pela igualdade de gênero. “Comecei a trabalhar nesse filme muitos anos atrás. Não tinha ideia de que o mundo caminharia nessa direção. O Me Too não era uma realidade para mim. Só fui perceber como o filme era próximo disso quando comecei a dar entrevistas, ler as críticas. E, durante a montagem, provavelmente porque sou uma mulher, Lua Azul tomou um caminho que analisava psicologicamente a jornada de Irina, mesmo que inicialmente eu tenha pensado nas duas perspectivas, masculina e feminina.”
 
Entre suas influências, a cineasta, que também assina o roteiro, cita o dramaturgo e contista russo Anton Chekhov. “Interessa para mim, em especial, a maneira como ele constrói personagens. Isso é algo que me anima, algo que eu gostaria de seguir fazendo. Acredito que seja a razão por que faço filmes. Gosto de pesquisar sobre personagens em todos os lugares e isso também acaba refletindo na maneira como trabalho com meus atores. Gosto de construirmos juntos o passado dessas personagens, criar as memórias, compreender as motivações.” (Alysson Oliveira)
 
Os intranquilos
Damien Bonnard está excepcional como o pai bipolar, cujo comportamento desestrutura toda a família, em Os Intranquilos, do belga Joachim Lafosse. Desde a primeira cena, percebe-se que esse homem, também chamado Damien, toma atitudes que colocam em risco a mulher, Leïla (Leïla Bekhti), e o filho pequeno Amine (Gabriel Merz Chammah), com quem está passeando numa lancha. A certa altura, ele resolve voltar a nado para a praia e deixa a embarcação sob os cuidados do garoto.
 
O longa parece narrado pelo ponto de vista do menino, cheio de incredulidade e incompreensão do que está acontecendo ao seu redor. O pai é um pintor de comportamento marcado por altos e baixos emocionais. Inspirado no pai do diretor, um fotógrafo com bipolaridade, Lafosse traz a história de uma infância marcada pelas atitudes paternas e episódios como quando Damien invade a escola, num estado claramente alterado, para distribuir bolinhos a todas as crianças.
 
Um sentimento de intranquilidade ronda todo o filme, enquanto Laïla tenta manter as coisas sob controle, mas que cada vez mais escapam entre seus dedos. O filme circula acontecimentos e só apenas perto do final trará um diagnóstico, embora desde muito cedo fique claro o que está acontecendo na mente de Damien.
 
Os intranquilos lida com a bipolaridade de maneira sóbria e bastante humana, sem transformar a dor num espetáculo que culminaria numa grande catarse na qual personagens e público aprenderiam algo valioso e profundo sobre a existência humana. Lafosse evita esse olhar hollywoodiano, investigando as relações e laços diante dessa neurodiversidade. Possivelmente, pela própria experiência com o pai, o diretor sabe como fazer uma abordagem sincera e também respeitosa. (Alysson Oliveira)

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