10º Olhar de Cinema

Vestígios da Palestina, um perfume de "Dom Casmurro"

Neusa Barbosa

Documentário palestino O Telhado integra uma retrospectiva do diretor Jamal Aljafari e retrata dilemas da identidade de seu povo através do retrato de sua própria família. E o veterano diretor Julio Bressane inspira-se em Dom Casmurro, de Machado de Assis, para criar mais uma de suas obras de invenção em Capitu e o Capítulo
 
O telhado
Parte de uma oportuna retrospectiva do diretor palestino Kamal Aljafari que, em títulos como este, examina as dores e contradições da identidade de seu povo. Realizado entre 2004 e 2006, o filme mergulha no ambiente familiar do diretor, primeiramente em Ramle, onde ele nasceu, terra de seu pai, depois em Jaffa, terra de sua mãe.
 
As trágicas memórias de 1948, quando foi estabelecido o Estado de Israel e milhares de palestinos foram expulsos de suas casas, ainda estão muito vivas, presentes em relatos como o da avó do diretor, que viveu os acontecimentos na pele. A velha senhora lembra que os britânicos, até ali detentores do mandato sobre o território, trouxeram os judeus de várias partes do mundo e partiram. Segundo ela, os novos habitantes atiravam nos palestinos, por isso tantos fugiram. Jaffa tinha 120.000 habitantes então, ficaram somente 3.000. A família dela se dividiu e ela nunca mais reviu os irmãos, que morreram longe dali, exilados em países como o Líbano.
 
O próprio título do filme remete a este estado de precariedade permanente dos palestinos que ficaram, como os pais do diretor. Eles moram numa casa que não era a deles e cujo dono partiu, deixando inacabado o andar de cima - que é usado como um terraço improvisado. Vale a pena terminar a casa que não nos pertence? Esta é a pergunta que percorre o filme, que examina a rotina desta família que se adaptou a um permanente estado de emergência, vistos como cidadãos de segunda classe em Israel. A violência do estabelecimento deste estado é apagada sistematicamente - de que é prova eloquente a gravação turística que apresenta histórias sobre Jaffa e Telaviv aos visitantes. 
 
Faz parte da experiência das novas gerações a passagem pela prisão. O próprio Aljafari recorda com a irmã seu próprio encarceramento, em 1989, época da primeira Intifada, por seis meses e meio. A experiência lhe garantiu conhecer amigos de toda uma vida, como Nabieh Awada, hoje morador em Beirute. No entanto, eles não podem ver-se pessoalmente, já que seus passaportes não lhes garantem entrada nos mesmos países. Tudo o que lhes resta são calorosas conversas ao telefone, que mantêm acesas as esperanças. Esperança, afinal, é tudo o que define um palestino.
 
Também estão disponíveis no canal do Youtube do festival os curtas do diretor, como o saboroso Visite o Iraque (2003), que explora os mistérios da antiga sede da Iraqi Airways em Genebra. 
 
Mostra: Foco
Sessão: Segunda (11/10) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Capitu e o Capítulo
Um fio da trama de Dom Casmurro, clássico de 1899 de Machado de Assis, é o pretexto para que o veterano diretor carioca Julio Bressane coloque em funcionamento os mecanismos de seu cinema de invenção e reinvenção, neste filme que foi exibido no Festival de Roterdã. 
 
Colocando em cena tanto o próprio Machado (Enrique Díaz) para explorar nuances em torno da figura do narrador, quanto personagens, como Capitu (Mariana Ximenes), Bentinho (Vladimir Brichta), Sancha (Djin Sganzerla) e Escobar (Saulo Rodrigues), o cineasta cria esquetes que colocam em foco o desejo, o confronto, a hipocrisia e tantas outras nuances do romance, sem uma preocupação de compor uma adaptação fiel.
 
Antes, mediante o usual cuidado com a direção de arte, criam-se molduras para que estes personagens encenem ideias, conceitos e emoções que o diretor quer abordar. Não escapa à atenção que os figurinos femininos parecem mais atuais do que os masculinos - estes, mais fieis aos padrões de vestimenta do século XIX, o que sem dúvida acena para a dissonância entre a ousadia das mulheres e a acomodação dos homens, particularmente diante do desejo. 
 
O que permanece mais interessante no cinema de Bressane depois de todos estes anos em atividade é sua capacidade de manter-se fiel a si mesmo, compondo filmes que são, por si mesmos, experimentos e provocações à inteligência do espectador, desafiando-o a seguir as pistas com as quais seu intelecto e sensibilidade mais sintonizar. Conta, para isso, com a adesão de seus intérpretes à sua particular espécie de dispositivo, onde cabe sempre a beleza da arte e da música ao redor deles. 
 
Mostra: Exibições Especiais
Sessão: Segunda (11/10) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00

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