10º Olhar de Cinema

Entre a distopia futurista e o documentário de emergência

Neusa Barbosa

A fantasia futurista Carro-Rei, de Renata Pinheiro, multipremiada em Gramado 2021, e o documentário Por trás da muralha de tijolos vermelhos, realizado por um coletivo anônimo de Hong Kong, retratando os intensos protestos estudantis daquele país em 2019, contra uma nova lei de segurança nacional, são duas das sugestões da programação do festival, que prossegue até quinta (14).
 
Carro-rei
Diretora de arte de mão cheia e diretora de filmes como o premiado curta Superbarroco e os longas Amor, Plástico e Barulho e Açúcar, a pernambucana Renata Pinheiro investe com tudo na fábula futurista em Carro-Rei. Foi o grande vencedor em Gramado, levando quatro prêmios: melhor filme, trilha sonora, desenho de som e direção de arte. 
 
No cenário de uma Caruaru em que parece haver mais automóveis e motos do que gente, Renata cria um filme com um conceito estético bem-amarrado, com vários detalhes futuristas determinando o tom da história. Criando uma parábola política para um país obcecado por carros como símbolo de poder e ascensão social, ela centra seu foco na família formada por Marineide (Ane Oliveira), seu marido e o filho, Ninho. Vivendo na mesma casa, está o irmão de Marineide, Zé Macaco (Matheus Nachtergaele), mecânico de automóveis.
 
A morte de Marineide num acidente provoca a ruptura do núcleo familiar, com a expulsão de Zé pelo cunhado para o ferro-velho no limite da cidade. Agora adulto, Ninho (Luciano Pedro Jr.) rompe com o pai, dono da frota de táxis Carroaru Táxis, para estudar Agroecologia. 
 
Reaproximados, tio e sobrinho empenham-se na reforma do carro destroçado no acidente que matou Marineide, simbolizando não só a própria reconstrução de seu vínculo do passado, como projetando uma perspectiva intrigante. O carro, afinal, demonstra inteligência, pode falar e conversa especialmente com Ninho, que tem essa capacidade de comunicação com a máquina desde pequeno.
 
O roteiro, assinado por Renata, Sérgio Oliveira e Léo Pyrata, imagina desdobramentos que remetem ora a Stanley Kubrick - na presença de uma máquina inteligente e potencialmente perversa, como o computador Hal, de 2001 - Uma Odisséia no Espaço - como à anarquia de Léos Carax. E assim Carro-Rei constitui um verdadeiro objeto não-identificado em sua fusão de fábula e comentário político-ecológico que situa uma possibilidade de resistência às máquinas modificadas e inteligentes num aditivo retirado da agricultura orgânica.
 
Não falta também o erotismo humano/máquina, materializado pelas participações da performer Mercedes (Jules Elting), em sequências de uma bizarra beleza. 
 
Mostra: Olhares Brasil
Sessões: Domingo (10) e quinta (14) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Por trás da muralha de tijolos vermelhos
Dirigido por um coletivo anônimo, intitulado Documentaristas de Hong Kong, o filme traz a marca da urgência em cada imagem, captada ao longo de duas semanas de protestos antigovernamentais em que estudantes da Universidade Politécnica de Hong Kong tomaram suas instalações, em novembro de 2019, levando a uma espécie de reedição do Maio de 1968 da França, em outro contexto.
Manifestações de rua já ocorriam desde junho daquele ano, em função de uma nova lei de segurança nacional imposta ao território semiautônomo da China. Diante da repressão intensa, com 6.000 presos e um número incerto de mortos - o filme aponta falsas alegações de suicídio -, milhares de estudantes resolveram fazer da universidade o seu bunker, decididos a não sair dali, mesmo diante do intenso cerco policial.
 
Uma revolta deste porte, vista por dentro, ganha uma energia e volatilidade extremas, com cenas captadas, não raro, no meio de conflitos com a polícia de choque - que descarrega bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e cassetetes nos estudantes que consegue capturar. Mesmo a imprensa, identificada por coletes amarelos, frequentemente é atingida também, como fica registrado na cobertura feita ao vivo pela internet.
A disposição guerreira dos jovens, que não têm uma liderança central, é evidente por gritos de guerra como “Honcongueanos, vingança!” ou pelas pichações das paredes, onde se lê “Chinazi, você vai colher o que plantou” e “Acabem com a polícia de Hong Kong”. Mas é claro também que se trata de uma batalha desigual, independentemente dos capacetes e proteções improvisadas de que os estudantes dispõem.
 
Ao longo dos dias, tornam-se cada vez mais prementes a o cansaço, a falta de sono, de mantimentos, a preocupação com os feridos, minando a resistência de um movimento que se mostrava disposto a ir até o fim, até a morte, como dizem vários.. Entre eles, vários estudantes de ensino médio, menores de idade, que vieram juntar-se à mobilização, a primeira de suas vidas.
 
Acompanhados do lado de fora por estas imagens espalhadas pelas redes, estes estudantes atraem apoios e tentativas de ajuda - como de um grupo de diretores de ensino médio, que vêm resgatar seus alunos, os menores de idade, e tentar mediar uma solução.
 
Sem pretensão a oferecer contexto ou narrativa, o filme vale pelo registro de um momento crítico na história daquele país. Depois de 13 dias, a polícia levantou o cerco. O resultado da repressão, no entanto, foi alto: 1377 presos e mais de 300 menores fichados. 
 
O documentário foi exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA) e no Cinéma du Réel.
 
Mostra: Exibições Especiais
Sessão: Terça (12) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00

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