10º Olhar de Cinema

Trajetos de identidade e afirmação na Palestina e na América Latina


Em Porto da Memória, o cineasta palestino Kamal Aljafari faz uma radiografia da cidade de Jaffa, uma cobiçada extensão de Telaviv onde se tenta expulsar os antigos moradores locais. Em Nunca mais serei a mesma, a diretora brasileira Alice Lanari percorre quatro países da América Latina, focalizando o enfrentamento da violência de gênero.
 
Porto da Memória
Neste filme de 2009, exibido no festival Cinéma du Réel, o cineasta palestino Kamal Aljafari exercita seu estilo muito peculiar de fusão de documentário e ficção para mais uma vez examinar questões ligadas à identidade de seu povo.
 
Seu epicentro é Jaffa, antes de 1948 uma grande e vivaz cidade palestina, hoje uma extensão da capital israelense, Telaviv, e objeto de uma feroz especulação imobiliária, que coloca em funcionamento novos mecanismos de expulsão para as populações mais antigas que restaram ali.
 
O filme é composto de uma série de episódios, o mais dramático tendo ao centro a família materna do diretor. Eles reencenam a situação de terem questionada a propriedade de sua casa - alegam que a tomaram - e o advogado há quem há anos entregaram os documentos que comprovam sua compra não sabe onde eles se encontram. De todo modo, eles não podem prescindir de seus serviços e, independente do que aconteça, vai cobrar por eles.
 
Outras pessoas da área também estão ameaçadas de despejo, simbolizando uma situação de precariedade que contamina todos os aspectos da vida daquele bairro. O tio do diretor, Salim, anda por ruas vazias, repletas de casas antigas, abandonadas, em que há eventualmente sinais de vida. Ele mesmo deixa comida diariamente numa delas, chamando por um morador invisível que resiste entre essas ruínas.
 
Uma mulher que sai para alimentar os gatos de rua e os homens num bar que assistem a um filme com Chuck Norris dão a medida de outro aspecto desta vida em constante compasso de espera, em que estes cidadãos se encolhem por trás de seus redutos nunca garantidos, sempre ameaçados de deslocamento, de uma iminência de exílio que é, talvez, o sentimento mais autêntico que resta aos palestinos. 
 
Mostra: Foco
Sessão: terça (12) -  o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Nunca mais serei a mesma
A questão da violência de gênero na América Latina ganha um alentado retrato neste filme da brasileira Alice Lanari (codiretora de outro documentário de percurso latinoamericano, América Armada). Ela agora acompanha casos no México, Honduras, Brasil e Argentina, criando a indispensável conexão entre contextos familiares, sociais e políticos do continente de uma maneira ao mesmo tempo sólida e intimista.
 
O tom íntimo emerge de histórias que são contadas na primeira pessoa, todas urgentes. O caso mexicano começa com uma família visitando uma sepultura, que evoca o assassinato de uma filha, Fátima, de 12 anos, por três homens. Lutando sem descanso por sua condenação, Lorena, sua mãe, o marido e os outros filhos sofreram ameaças e mesmo um ataque a tiros que os leva a, hoje, terem que mudar continuamente de endereço, sofrendo todos os efeitos psicológicos e econômicos desta situação de alto risco num país em que a justiça está longe de dar conta do morticínio causado por gangues e também policiais.
 
A jovem hondurenha Suamy conta que não teve nunca o direito de ter vida de criança. Logo cedo, ela teve de rapidamente tornar-se adulta para fazer frente à pobreza e ao assédio de bandidos, que extorquem mesmo pessoas de precária situação econômica - ela e a mãe são lavadeiras. Suamy é um retrato vívido dessas multidões de imigrantes que se deslocam continuamente pela fronteira da Guatemala e do México, buscando entrar de algum modo nos EUA - uma experiência perigosíssima que ela e sua família tentaram, como ela relembra num doloroso relato.
 
A argentina Cecília faz parte do infelizmente enorme contingente de mulheres vítimas da violência doméstica, trazendo no corpo as marcas do pesadelo - numa ocasião, ela teve todos os ossos do rosto quebrados. Mas o foco está justamente na maneira como ela construiu uma rota de saída para uma história de vida que inclui também incesto, tornando-se uma referência num grupo de apoio de Buenos Aires, Las Juncas. As conversas das mulheres no grupo são, afinal, uma poderosa síntese sobre o significado desta reconstrução pessoal a partir do acolhimento e da sororidade.
 
No Brasil, a experiência da carioca Ana Paula está focada no inevitável convívio com o racismo e o machismo estruturais do país. Dona de um pequeno salão de cabeleireira e morando com a mãe e o filho adolescente, que ela cria sozinha, ela tenta injetar novos valores neste menino, para que ele não se torne mais um homem que abandona a família - como foram seu pai e seu ex-companheiro. Novamente, não se dá ênfase ao vitimismo. Os relatos de Ana e suas clientes são, muito mais, exemplos de posturas de afirmação.
 
Mostra: Outros Olhares
Sessão. Quarta (13) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00

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