10º Olhar de Cinema

Um conto de fadas russo e uma viagem sensorial pela Venezuela

Neusa Barbosa

O diretor colombiano Álvaro F. Pulpeiro realiza em Um Céu tão Nublado uma viagem sensorial pela Venezuela em crise, em 2020, com uma atenção voltada a personagens comuns. O russo Tzarevna Descamada, estreia da diretora Uldus Bakhtiozina, recorre a referências do folclore e contos de fada para retratar as experiências de autodescoberta de uma jovem. Também é o último dia para ver o palestino O Telhado, de Kamal Aljafari, e o brasileiro Capitu e o Capítulo, de Julio Bressane.
 
Um Céu Tão Nublado
Tirando seu título de uma referência a Nostromo, de Joseph Conrad, o diretor colombiano Álvaro Pulpeiro traça uma viagem sensorial e conceitual pela Venezuela. Dispensando entrevistas, realiza um documentário observacional que se entrega aos ritmos do tempo e dos personagens que a câmera captura, organizando um universo complexo e contraditório com o poderoso recurso do desenho sonoro do lituano Tomas Blazucas. 
 
Mesmo afastando-se de uma abordagem mais convencional, o filme incorpora fragmentos da realidade, reciclando-os em narrativas dentro da narrativa principal de forma a constituir uma espécie de caleidoscópio de um país imerso numa imensa crise. Filmando em 2020, numa época em que dois governos se declaravam no poder - o oficial, de Nicolás Maduro, e o autoproclamado, de Juan Guaidó, apoiado pelos EUA -, o documentário alinha trechos de noticiários radiofônicas, superpondo discursos que se antagonizam e que muito apropriadamente, ainda que por vias transversas, traduzem a instabilidade da situação.
 
Acompanhando cenas de emigrantes que atravessam a fronteira com o Brasil, em Maracaibo, e a perigosa vida de contrabandistas de gasolina, atravessando paisagens em que as torres de petróleo são uma referência onipresente, o filme incorpora ainda uma outra camada com uma narração em off, em tom literário, que também sugere outros sentimentos. 
 
Trata-se de um documentário que não pretende ter uma palavra final sobre o que é ou o que acontece na Venezuela, um país sobre o qual pesam tantos malentendidos e disputas ideológicas. Em Céu tão Nublado é o tipo do trajeto cinematográfico em que a Venezuela entra como itinerário mas não é o único nem o último destino. 
 
Mostra: Competitiva:
Sessão: Quarta (13) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Tzarevna Descamada
Parte da programação do Festival de Berlim 2021, esta curiosa comédia fantástica russa explora, através de arquétipos do folclore e dos contos de fada eslavos, o trajeto de uma jovem, Polina (Viktoria Assovskaya), na busca de seu próprio destino.
 
É o primeiro longa-metragem da diretora Uldus Bakhtiozina e ela usa muito de sua múltipla experiência como fotógrafa, figurinista e maquiadora para compor os cenários e figurinos da fantástica jornada de Polina. Esta trabalha num foodtruck que vende peixes - chamado “Era uma vez um peixe” - e está sofrendo de insônia, causada pela preocupação com o desaparecimento de seu irmão. Uma velha senhora excêntrica aparece por ali e lhe dá um chá para solucionar seu problema de sono, o que leva Polina a embarcar numa viagem onírica.
 
Polina entra num universo paralelo, comandado por mulheres de vestidos e maquiagens exóticas que devem guiá-la na busca da transformação numa “tzarevna”, uma filha de tzar, ou seja, uma princesa. Para isso, ela deve atravessar diversas etapas num caminho de auto-descoberta, aperfeiçoamento e ascensão que, em nenhum momento, inclui a procura de um príncipe encantado, superando o pressuposto machista de tantos contos de fadas tradicionais. Homens aparecem neste universo de maneira curiosa, rapazes todos vestidos com figurinos de carneirinhos, executando uma coreografia num teatro. 
 
Ambientados num antigo edifício, os cenários incluem diversos detalhes retrô com referências à era soviética, como máquinas e rádios, ampliando as metáforas políticas que o filme, mesmo fixando-se numa fantasia de tom leve, não ignora ou esconde. 
 
Em sua obra de estreia, a jovem diretora mantém seu foco com modéstia de objetivos mas notável segurança na composição, acertando num tom de fantasia cômico delicado e sugestivo.
 
Mostra: Novos Olhares
Sessão: Quinta (14) - o filme fica disponível 24 horas no site do festivalIngresso: R$ 5,00
 
 
ÚLTIMO DIA
 
O telhado
Parte de uma oportuna retrospectiva do diretor palestino Kamal Aljafari (foto ao lado) que, em títulos como este, examina as dores e contradições da identidade de seu povo. Realizado entre 2004 e 2006, o filme mergulha no ambiente familiar do diretor, primeiramente em Ramle, onde ele nasceu, terra de seu pai, depois em Jaffa, terra de sua mãe.
 
As trágicas memórias de 1948, quando foi estabelecido o Estado de Israel e milhares de palestinos foram expulsos de suas casas, ainda estão muito vivas, presentes em relatos como o da avó do diretor, que viveu os acontecimentos na pele. A velha senhora lembra que os britânicos, até ali detentores do mandato sobre o território, trouxeram os judeus de várias partes do mundo e partiram. Segundo ela, os novos habitantes atiravam nos palestinos, por isso tantos fugiram. Jaffa tinha 120.000 habitantes então, ficaram somente 3.000. A família dela se dividiu e ela nunca mais reviu os irmãos, que morreram longe dali, exilados em países como o Líbano.
 
O próprio título do filme remete a este estado de precariedade permanente dos palestinos que ficaram, como os pais do diretor. Eles moram numa casa que não era a deles e cujo dono partiu, deixando inacabado o andar de cima - que é usado como um terraço improvisado. Vale a pena terminar a casa que não nos pertence? Esta é a pergunta que percorre o filme, que examina a rotina desta família que se adaptou a um permanente estado de emergência, vistos como cidadãos de segunda classe em Israel. A violência do estabelecimento deste estado é apagada sistematicamente - de que é prova eloquente a gravação turística que apresenta histórias sobre Jaffa e Telaviv aos visitantes. 
 
Faz parte da experiência das novas gerações a passagem pela prisão. O próprio Aljafari recorda com a irmã seu próprio encarceramento, em 1989, época da primeira Intifada, por seis meses e meio. A experiência lhe garantiu conhecer amigos de toda uma vida, como Nabieh Awada, hoje morador em Beirute. No entanto, eles não podem ver-se pessoalmente, já que seus passaportes não lhes garantem entrada nos mesmos países. Tudo o que lhes resta são calorosas conversas ao telefone, que mantêm acesas as esperanças. Esperança, afinal, é tudo o que define um palestino.
 
Também estão disponíveis no canal do Youtube do festival os curtas do diretor, como o saboroso Visite o Iraque (2003), que explora os mistérios da antiga sede da Iraqi Airways em Genebra. 
 
Mostra: Foco
Sessão: Segunda (11/10) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Capitu e o Capítulo
Um fio da trama de Dom Casmurro, clássico de 1899 de Machado de Assis, é o pretexto para que o veterano diretor carioca Julio Bressane coloque em funcionamento os mecanismos de seu cinema de invenção e reinvenção, neste filme que foi exibido no Festival de Roterdã. 
 
Colocando em cena tanto o próprio Machado (Enrique Díaz) para explorar nuances em torno da figura do narrador, quanto personagens, como Capitu (Mariana Ximenes), Bentinho (Vladimir Brichta), Sancha (Djin Sganzerla) e Escobar (Saulo Rodrigues), o cineasta cria esquetes que colocam em foco o desejo, o confronto, a hipocrisia e tantas outras nuances do romance, sem uma preocupação de compor uma adaptação fiel.
 
Antes, mediante o usual cuidado com a direção de arte, criam-se molduras para que estes personagens encenem ideias, conceitos e emoções que o diretor quer abordar. Não escapa à atenção que os figurinos femininos parecem mais atuais do que os masculinos - estes, mais fieis aos padrões de vestimenta do século XIX, o que sem dúvida acena para a dissonância entre a ousadia das mulheres e a acomodação dos homens, particularmente diante do desejo. 
 
O que permanece mais interessante no cinema de Bressane depois de todos estes anos em atividade é sua capacidade de manter-se fiel a si mesmo, compondo filmes que são, por si mesmos, experimentos e provocações à inteligência do espectador, desafiando-o a seguir as pistas com as quais seu intelecto e sensibilidade mais sintonizar. Conta, para isso, com a adesão de seus intérpretes à sua particular espécie de dispositivo, onde cabe sempre a beleza da arte e da música ao redor deles. 
 
Mostra: Exibições Especiais
Sessão: Segunda (11/10) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança