10º Olhar de Cinema

O íntimo e o social em dois filmes de diretoras da América do Sul

Neusa Barbosa

Dois diários intimistas, o colombiano A calmaria depois da tempestade, de Mercedes Gaviria Jaramillo, e o argentino Estilhaços, de Natalia Garayalde, revelam jovens diretoras encarando as próprias raízes familiares numa busca de identidade. E hoje é a última chance para ver o palestino Porto da Memória e o honconguês Por trás da muralha de tijolos vermelhos.
 
A calmaria depois da tempestade
 
Filha do diretor colombiano Victor Gaviria, conhecido por A vendedora de rosas (1995), a jovem cineasta Mercedes Gaviria encara esta ascendência e as memórias familiares para traçar seu próprio caminho profissional neste filme profundamente intimista.
 
Procurando afastar-se deste peso familiar, Mercedes foi estudar cinema em Buenos Aires, trabalhando como mixadora de som antes de fazer uma viagem de volta à sua cidade natal, Medellín, no momento em que seu pai, que não filmava há 18 anos, prepara-se para uma nova produção, A Filha do Animal.
 
Mesclando antigos filmes caseiros da família, conversas com sua mãe e avó e também uma espécie de making of muito pessoal da filmagem do novo trabalho do pai, Mercedes compõe um filme de uma complexidade que se afirma com delicadeza nos detalhes, alcançando sentidos que se expandem em imagens que, visivelmente, não tiveram um roteiro tão pré-ordenado, encontrando seu fio condutor na medida em que os acontecimentos se desenvolvem. 
 
Um valor à parte é observar Victor Gaviria em ação em seu cinema de urgência, utilizando atores não profissionais e preocupado com a ética de suas imagens. Retratando a história verídica de um homem ultraviolento, a partir das memórias de sua mulher, Margarita Gómez, o cineasta teme deixar o filme sucumbir a uma espécie de fascínio a essa mesma violência que ele procura denunciar. 
 
O filme foi exibido nos festivais Visions du Réel e de Giffoni.
 
Mostra: Outros Olhares
Sessão: Quinta (14) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Estilhaços
Premiado em diversos festivais em 2020, como o de Mar del Plata e o Visions du Réel, o documentário da argentina Natalia Garayalde mergulha em filmes caseiros dos anos 1990, feitos em grande parte por ela e seus irmãos, para revelar não só memórias familiares como indícios de um episódio dramático ocorrido em sua cidade, Rio Tercero, na província de Córdoba.
 
Em novembro de 1995, houve uma explosão na fábrica local de munições, despejando cerca de 20.000 bombas sobre a cidade. O episódio causou oficialmente 7 mortes e uma destruição imensa das casas dos habitantes. A família Garayalde morava a menos de 1 km da fábrica militar.
 
As imagens feitas logo após a explosão pelo pai da diretora registram o desespero que tomava conta das ruas, com pessoas e cães correndo sem rumo. Ninguém sabia o que estava acontecendo, num cenário de caos e destruição sem precedentes no pequeno município de 40.000 habitantes.
 
O presidente era Carlos Menem e há registro de sua passagem pela cidade - este, de noticiários -, ao lado do governador local, ambos assegurando que se tratava de um acidente, não de um atentado, como se chegou a aventar. Mas há por trás do incidente mais dúvidas do que os mandatários querem admitir. Anos depois, haveria uma investigação sobre o envolvimento do presidente no contrabando de munições argentinas para a Croácia, um dos países envolvidos na sangrenta guerra dos Bálcãs.
 
O pessoal e o social unem-se também nos casos de câncer que assolam a cidade, inclusive a família Garayalde. Na cidade de Rio Tercero, havia também diversas fábricas de produtos químicos, como glifosato, cloro e fosgênio, que eram responsáveis por grande parte dos empregos da população mas certamente tiveram seu efeito sobre a saúde dos moradores - inclusive a explosão pode ter tido seu peso como agravante neste aspecto.
 
Mostra: Competitiva
O filme não será mais exibido na programação
 
ÚLTIMO DIA
 
Porto da Memória
Neste filme de 2009, exibido no festival Cinéma du Réel, o cineasta palestino Kamal Aljafari exercita seu estilo muito peculiar de fusão de documentário e ficção para mais uma vez examinar questões ligadas à identidade de seu povo.
 
Seu epicentro é Jaffa, antes de 1948 uma grande e vivaz cidade palestina, hoje uma extensão da capital israelense, Telaviv, e objeto de uma feroz especulação imobiliária, que coloca em funcionamento novos mecanismos de expulsão das populações mais antigas que restaram ali.
 
O filme é composto de uma série de episódios, o mais dramático tendo ao centro a família materna do diretor. Eles reencenam a situação de terem questionada a propriedade de sua casa - alegam que a tomaram - e o advogado há quem há anos entregaram os documentos que comprovam sua compra não sabe onde eles se encontram. De todo modo, eles não podem prescindir de seus serviços e, independente do que aconteça, vão ser cobrados por eles.
 
Outras pessoas da área também estão ameaçadas de despejo, simbolizando a situação de precariedade que contamina todos os aspectos da vida daquele bairro. O tio do diretor, Salim, anda por ruas vazias, repletas de casas antigas, abandonadas, em que há eventualmente sinais de vida. Ele mesmo deixa comida diariamente numa delas, chamando por um morador invisível que resiste entre essas ruínas.
 
Uma mulher que sai para alimentar os gatos de rua e os homens num bar que assistem a um filme com Chuck Norris dão a medida de outro aspecto desta vida em constante compasso de espera, em que estes cidadãos se encolhem dentro de seus redutos nunca garantidos, sempre ameaçados de deslocamento, de uma iminência de exílio que é, talvez, o sentimento mais autêntico que resta aos palestinos. 
 
Mostra: Foco
Sessão: terça (12) -  o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Por trás da muralha de tijolos vermelhos
Dirigido por um coletivo anônimo, intitulado Documentaristas de Hong Kong, o filme traz a marca da urgência em cada imagem, captada ao longo de duas semanas de protestos antigovernamentais em que estudantes da Universidade Politécnica de Hong Kong tomaram suas instalações, em novembro de 2019, levando a uma espécie de reedição do Maio de 1968 da França, em outro contexto.
Manifestações de rua já ocorriam desde junho daquele ano, em função de uma nova lei de segurança nacional imposta ao território semiautônomo da China. Diante da repressão intensa, com 6.000 presos e um número incerto de mortos - o filme menciona falsas alegações de suicídio -, milhares de estudantes resolveram fazer da universidade o seu bunker, decididos a não sair dali, mesmo diante do intenso cerco policial.
 
Uma revolta deste porte, vista por dentro, ganha uma energia e volatilidade extremas, com cenas captadas, não raro, no meio de conflitos com a polícia de choque - que descarrega bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e cassetetes nos estudantes que consegue capturar. Mesmo a imprensa, identificada por coletes amarelos, frequentemente é atingida também, como fica registrado na cobertura feita ao vivo pela internet.
 
A disposição guerreira dos jovens, que não têm uma liderança central, é evidente por gritos de guerra como “Honcongueanos, vingança!” ou pelas pichações das paredes, onde se lê “Chinazi, você vai colher o que plantou” e “Acabem com a polícia de Hong Kong”. Mas é claro também que se trata de uma batalha desigual, independentemente dos capacetes e proteções improvisadas de que os estudantes dispõem.
 
Ao longo dos dias, tornam-se cada vez mais prementes o cansaço, a falta de sono, de mantimentos, a preocupação com os feridos, minando a resistência de um movimento que se mostrava disposto a ir até o fim, até a morte, como dizem vários.. Entre eles, estudantes de ensino médio, menores de idade, que vieram juntar-se à mobilização, a primeira de suas vidas.
 
Acompanhados do lado de fora por estas imagens espalhadas pelas redes, estes estudantes atraem apoios e tentativas de ajuda - como de um grupo de diretores de ensino médio, que vêm resgatar seus alunos menores de idade e tentar mediar uma solução.
 
Sem pretensão a oferecer contexto ou narrativa, o filme vale pelo registro de um momento crítico na história daquele país. Depois de 13 dias, a polícia levantou o cerco. O resultado da repressão, no entanto, foi alto: 1377 presos e mais de 300 menores fichados. 
 
O documentário foi exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (IDFA) e no Cinéma du Réel.
 
Mostra: Exibições Especiais
Sessão: Terça (12) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança