10º Olhar de Cinema

Memórias de deslocamento e afirmação feminina

Neusa Barbosa

Diretora cameronesa radicada na Bélgica, Rosine Mbakam – realizadora de No Salão Jolie (2018) - compõe um alentado perfil de uma compatriota também expatriada, Delphine, e seu dramático percurso para sobreviver à pobreza e à violência de gênero em As Preces de Delphine. Hoje é também o último dia para ver os documentários Um Céu Tão Nublado, filmado na Venezuela, e Nunca Mais Serei a Mesma, sobre a luta de mulheres em quatro países latino-americanos. 
 
As preces de Delphine
Trata-se de um relato dilacerante em primeira pessoa de Delphine, imigrante cameronesa radicada na Bélgica e sobrevivente de uma longa jornada de pobreza, abusos e privações.
 
Diante da diretora Rosine Mbakam - que realizou No Salão Jolie (2018), outro alentado retrato de imigrantes africanas na Europa -, Delphine abre seu coração, passando de uma língua a outra (inglês, francês, pidgin), para relatar uma dramática saga que começa com a morte precoce de sua mãe, o descaso do pai pobre e ignorante, um estupro aos 13 anos seguido de gravidez e o recurso à prostituição como único meio de sobrevivência.
 
Apesar de todos os traumas, Delphine quer contar sua história e tem um magnetismo e energia admiráveis para compartilhá-la num fluxo verbal torrencial e emocionado. Com uma dramaticidade toda própria, ela recorda suas escolhas, algumas das quais lamenta. O próprio casamento de conveniência com um belga idoso, com quem teve um outro filho, é uma relação sem amor e cheia de conflitos culturais. Ela recorda que um dia amou alguém, um francês, que vinha e voltava a Camarões. Mas um dia ele sumiu por quatro anos. Quando finalmente voltou, querendo levá-la consigo, ela já estava casada e grávida.
 
Num quarto amontoado de objetos e lembranças de todo esse percurso acidentado - como o retrato da mãe na parede -, Delphine encontra tempo para rezar, pedindo a Deus que a ajude a encontrar um trabalho, uma emancipação que a tire desse impasse e lhe permita um novo rumo. Ela tem apenas 30 anos mas já viveu muitas vidas. 
 
A própria diretora, cameronesa radicada na Bélgica, encerra o filme com uma emocionada narração em off, em que pontua que as duas nunca teriam se conhecido no país natal, visto que vêm de ambientes sociais diferentes. Na Europa, no entanto, foram irmanadas na redução racista de serem classificadas como africanas e negras, encontrando um território comum de irmandade que permite à diretora levantar o véu de invisibilidade que recobre tantas histórias como esta, que continuam a acontecer em tantos lugares do mundo.
 
Mostra: Outros Olhares
Não há mais sessões do filme
 
ÚLTIMO DIA
 
Um Céu Tão Nublado
Tirando seu título de uma referência a Nostromo, de Joseph Conrad, o diretor colombiano Álvaro Pulpeiro traça uma viagem sensorial e conceitual pela Venezuela. Dispensando entrevistas, realiza um documentário observacional que se entrega ao ritmo do tempo e dos personagens que a câmera captura, organizando um universo complexo e contraditório com o poderoso recurso do desenho sonoro do lituano Tomas Blazucas. 
 
Afastando-se de uma abordagem convencional, o filme incorpora fragmentos da realidade, reciclando-os em discursos dentro da narrativa principal de forma a constituir uma espécie de caleidoscópio de um país imerso numa imensa crise. Filmando em 2020, numa época em que dois governos se declaravam no poder - o oficial, de Nicolás Maduro, e o autoproclamado, de Juan Guaidó, apoiado pelos EUA -, o documentário alinha trechos de noticiários radiofônicos, sobrepondo discursos que se antagonizam e que muito apropriadamente, ainda que por vias transversas, traduzem a instabilidade da situação.
 
Acompanhando cenas de emigrantes que atravessam a fronteira com o Brasil, em Maracaibo, e a perigosa vida de contrabandistas de gasolina, atravessando paisagens em que as torres de petróleo são uma referência onipresente, o filme incorpora ainda outra camada com uma narração em off, em tom literário, que também sugere outros sentimentos. 
 
Trata-se de um documentário que não pretende ter uma palavra final sobre o que é ou o que acontece na Venezuela, um país sobre o qual pesam tantos malentendidos e disputas ideológicas. Um Céu tão Nublado é o tipo do trajeto cinematográfico em que a Venezuela entra como itinerário mas não é o único nem o último destino. 
 
Mostra: Competitiva:
Sessão: Quarta (13) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Nunca mais serei a mesma
A questão da violência de gênero na América Latina ganha um alentado retrato neste filme da brasileira Alice Lanari (codiretora de outro documentário de percurso latinoamericano, América Armada). Ela agora acompanha casos no México, Honduras, Brasil e Argentina, criando a indispensável conexão entre contextos familiares, sociais e políticos do continente de maneira ao mesmo tempo sólida e intimista.
 
O tom íntimo emerge de histórias contadas na primeira pessoa, todas urgentes. O segmento mexicano começa com uma família visitando uma sepultura, que evoca o assassinato de uma filha, Fátima, de 12 anos, por três homens. Lutando sem descanso por sua condenação, Lorena, a mãe, seu marido e os outros filhos sofreram ameaças e mesmo um ataque a tiros que os leva a, hoje, terem que mudar continuamente de endereço, sofrendo todos os efeitos psicológicos e econômicos desta situação de alto risco, num país em que a justiça está longe de dar conta do morticínio causado por gangues e também policiais.
 
A jovem hondurenha Suamy conta que não teve nunca o direito de ter vida de criança. Muito cedo, ela teve de rapidamente tornar-se adulta para fazer frente à pobreza e ao assédio de bandidos, que extorquem mesmo pessoas de precária situação econômica - ela e a mãe são lavadeiras. Suamy é um retrato vívido dessas multidões de imigrantes que se deslocam continuamente pela fronteira da Guatemala e do México, buscando entrar de algum modo nos EUA - uma experiência perigosíssima que ela e sua família tentaram, como ela relembra num doloroso relato.
 
A argentina Cecília faz parte do infelizmente enorme contingente de mulheres vítimas da violência doméstica, trazendo no corpo as marcas do pesadelo - numa ocasião, ela teve todos os ossos do rosto quebrados. Mas o foco está justamente na maneira como ela construiu uma rota de saída para uma história de vida que inclui também incesto, tornando-se uma referência num grupo de apoio de Buenos Aires, Las Juncas. As conversas das mulheres no grupo são, afinal, uma poderosa síntese sobre o significado desta reconstrução pessoal a partir do acolhimento e da sororidade.
 
No Brasil, a experiência da carioca Ana Paula está focada no inevitável convívio com o racismo e o machismo estruturais do país. Dona de um pequeno salão de cabeleireira e morando com a mãe e o filho adolescente, que ela cria sozinha, ela tenta injetar novos valores neste menino, para que ele não se torne mais um homem que abandona a família - como seu pai e seu ex-companheiro. Novamente, não se dá ênfase ao vitimismo. Os relatos de Ana e suas clientes são muito mais exemplos de posturas de afirmação.
 
Mostra: Outros Olhares
Sessão. Quarta (13) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00

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