10º Olhar de Cinema

Olhar de Cinema encerra décima edição com documentário "Nós"

Neusa Barbosa

Encerra-se na noite desta quinta (14-10) a décima edição do Festival Olhar de Cinema que, pelo segundo ano consecutivo, foi transmitido totalmente online, exibindo mais de 70 filmes.
 
A premiação será divulgada no canal do Youtube do festival a partir das 19h. Às 20h, começa o filme de encerramento, o documentário Nós, da diretora baiana Letícia Simões.
 
Diretora de documentários que injetam um tom intimista em sua tessitura, caso de Casa (2019) e O Chalé é uma Ilha Batida de Vento e Chuva (2017), Letícia assina aqui seu primeiro filme internacional. À procura de pessoas que não se identificam com o lugar onde nasceram - caso dela própria, uma soteropolitana que não gosta de Salvador -, a diretora coloca um anúncio em Berlim. Encontra ali diversos artistas que, por uma razão ou outra, se tornaram nômades, encontrando em países diferentes dos seus novos caminhos e identidades.
 
Um destes personagens é o cearense Karim Aïnouz, um cineasta nascido em Fortaleza (CE), filho de um argelino e uma brasileira, que percorreu o Rio de Janeiro, São Paulo, Londres até finalmente radicar-se em Berlim. Outros são Envers Melis, por raízes familiares oscilando entre a Itália e o Chile até escolher Berlim. Ele é poeta e diz que “espera que a cidade lhe fale”.Tsead Bruinja, da Holanda, cresceu falando fúsio e transmite à sua literatura a filosofia de escrever sobre o que se vive, mesmo que isso não mude o mundo.
 
Outros três artistas nômades de Berlim são a instrumentista Eva Kess, alemã que viveu algum tempo no Brasil, resistiu à pressão dos pais para ser bailarina clássica e optou pela música ao descobrir o violoncelo. Nitcheva Osanna é da Córsega e é outra escritora do filme que viveu um tempo no Equador depois de quase morar na Bahia. Finalmente, Pêdra Costa, cantora e bailarina que não se define nem como homem nem como mulher, mudou-se para Berlim depois de sofrer uma agressão no Rio. 
 
A diretora costura estas histórias a partir dos relatos e também de observações pessoais, traçando um caleidoscópio humano que rejeita as prisões de nacionalidades estritas recorrendo inclusive a uma frase de Walter Benjamin: “Identidades são resultados de catástrofes”.
 
ÚLTIMO DIA
 
A calmaria depois da tempestade
 
Filha do diretor colombiano Victor Gaviria, conhecido por A vendedora de rosas (1995), a jovem cineasta Mercedes Gaviria encara as memórias familiares para traçar seu próprio caminho profissional neste filme profundamente intimista.
 
Procurando afastar-se do      peso familiar, Mercedes foi estudar cinema em Buenos Aires, trabalhando como mixadora de som antes de fazer uma viagem de volta à sua cidade natal, Medellín, no momento em que seu pai, que não filmava há 18 anos, prepara-se para uma nova produção, A Filha do Animal.
 
Mesclando antigos filmes caseiros da família, conversas com sua mãe e avó e também uma espécie de making of muito pessoal da filmagem do novo trabalho do pai, Mercedes compõe um filme de uma complexidade que se afirma com delicadeza nos detalhes. Assim, alcança sentidos que se expandem em imagens que, visivelmente, não tiveram um roteiro tão pré-ordenado, encontrando seu fio condutor na medida em que os acontecimentos se desenvolvem. 
 
Um valor à parte é observar Victor Gaviria em ação em seu cinema de urgência, utilizando atores não profissionais e preocupado com a ética de suas imagens. Retratando a história verídica de um homem ultraviolento, a partir das memórias de sua mulher, Margarita Gómez, o cineasta teme deixar o filme sucumbir a uma espécie de fascínio a essa mesma violência que ele procura denunciar. 
 
O filme foi exibido nos festivais Visions du Réel e de Giffoni.
 
Mostra: Outros Olhares
Sessão: Quinta (14) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00
 
Tzarevna Descamada
Parte da programação do Festival de Berlim 2021, esta curiosa comédia fantástica russa explora, através de arquétipos do folclore e dos contos de fada eslavos, o trajeto de uma jovem, Polina (Viktoria Assovskaya), na busca de seu próprio destino.
 
É o primeiro longa-metragem da diretora Uldus Bakhtiozina e ela usa muito de sua múltipla experiência como fotógrafa, figurinista e maquiadora para compor os cenários e figurinos coloridos e exóticos da fantástica jornada de Polina. Esta trabalha num foodtruck que vende peixes - chamado “Era uma vez um peixe” - e está sofrendo de insônia, causada pela preocupação com o desaparecimento de seu irmão. Uma velha senhora excêntrica aparece por ali e lhe dá um chá para solucionar seu problema de sono, o que leva Polina a embarcar numa viagem onírica.
 
Polina entra num universo paralelo, comandado por mulheres de vestidos e maquiagens extravagantes que devem guiá-la na busca da transformação numa “tzarevna”, uma filha de tzar, ou seja, uma princesa – o que tem um sentido figurado. Para isso, ela deve atravessar diversas etapas num caminho de auto-descoberta, aperfeiçoamento e ascensão que, em nenhum momento, inclui a procura de um príncipe encantado, superando o pressuposto machista de tantos contos de fadas tradicionais. Homens aparecem neste universo de maneira curiosa, como na sequência que mostra rapazes fantasiados de carneirinhos, executando uma coreografia num teatro. 
 
Ambientados num antigo edifício, os cenários incluem diversos detalhes retrô com referências à era soviética, como máquinas e rádios, ampliando as metáforas políticas que o filme, mesmo fixando-se numa fantasia de tom leve, não ignora ou esconde. 
 
Em sua obra de estreia, a jovem diretora mantém seu foco com modéstia de objetivos com notável segurança na composição, acertando num tom de fantasia cômico delicado e sugestivo.
 
Mostra: Novos Olhares
Sessão: Quinta (14) - o filme fica disponível 24 horas no site do festival
Ingresso: R$ 5,00

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