"Bróder" vence Festival de Gramado

Documentário uruguaio em Gramado reavalia mudanças na América Latina

Neusa Barbosa

Documentarista premiado no Festival de Amsterdã – o maior do mundo no gênero documental – em 2007, com o filme “Stranded”, o uruguaio Gonzalo Arijón atualizou a discussão sobre as mudanças políticas recentes na América Latina, colocada em “Ao sul da fronteira”, de Oliver Stone, no primeiro concorrente da seção latina do Festival de Gramado, “Ojos bien abiertos – Un viaje por la Sudamérica de hoy”.
 
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva é um personagem de destaque dentro do documentário, como já tinha sido, aliás, em trabalho anterior do diretor, “Lula , além da esperança”. O tom crítico está presente, especialmente neste mais recente trabalho, bem como em relação aos demais presidentes retratados, Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia). Mas essa crítica tem como ponto de partida uma nuance: “Meus filmes não tem teses. Acho mais importante avaliar aquilo que temos pela frente do que simplesmente criticar tudo sistematicamente”, ponderou o cineasta, na coletiva do filme, nesta tarde de domingo.
 
Esta postura, no caso do presidente brasileiro, significa, para Arijón,”reconhecer que seu governo mudou muita coisa na região (a América Latina) e no mundo, mesmo que se faça ressalvas a concessões que ele teria feito em algumas questões, como os transgênicos, o agronegócio, a reforma agrária e os banqueiros”. Um critério semelhante é aplicado no filme em relação aos demais dirigentes.
 
Passando por questões como a ecologia, Arijón destacou que as mudanças na América Latina servem para atualizar, também, uma visão de todo o pensamento da esquerda que, no seu filme, é representado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano (autor de “As veias abertas da América Latina”). “Diziam há tempos que ele era ‘esquerdoso’. Mas a história demonstrou a atualidade do pensamento dele”, defendeu.
 
Comentando que espera que seu novo filme seja distribuído no Brasil – o que não aconteceu com os anteriores, nem mesmo o premiado “Stranded”, que abriu o Festival É Tudo Verdade em 2008 - , Arijón disse que este é o grande gargalo para este tipo de produção. Mas adiantou que sua produtora já teria tido um contato neste sentido ontem, após a exibição no festival.
 
Tema intimista
 
O terceiro concorrente da competição brasileira, o carioca “180º.”, do estreante em longas Eduardo Vaisman, apresentou um drama em torno de um triängulo amoroso, protagonizado por Malu Galli (“O contador de histórias”), Eduardo Moscovis e Felipe Abib.
 
O roteiro de Cláudia Mattos proporciona uma estrutura intrincada, marcada pelas idas e vindas no tempo, desdobrando uma trama que, em determinado ponto, assume um clima de thriller. A intriga básica envolve a editora Anna (Malu), a princípio envolvida com o jornalista Russel (Moscovis), depois com outro jornalista mais jovem, Bernardo (Abib). Uma subtrama se desenrola em torno de uma caderneta perdida, que dará base a um livro de sucesso de Bernardo.
 
A roteirista assumiu ter se inspirado no escritor norte-americano Paul Auster – e, mais remotamente, no argentino Julio Cortazar - para escrever essa história cheia de idas e vindas e que foi, a princípio, pensada para um livro. No cinema, a grande admiração de Cláudia Mattos é o roteirista e diretor Guillermo Arriaga (autor do roteiro de “Babel” e “Amores brutos”).
 
Já o diretor (autor de um curta multipremiado, inclusive internacionalmente, “Dadá”), defendeu a realização de filmes brasileiros como o seu, com temáticas intimistas, como acontece muito no cinema argentino. “A gente não precisa estar sempre atento às grandes questões da brasilidade. Pode, mas não precisa. Posso falar de amor, de família, de um cara que quer parar de fumar”.
 
“180º.”, que será distribuído pela MovieMobz, deverá chegar às telas no primeiro semestre de 2011.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança