"Bróder" vence Festival de Gramado

Documentário chileno reconstitui trajetória de advogado morto pela ditadura Pinochet

Neusa Barbosa

A noite de segunda (9) no Festival de Gramado viveu o impacto de emoções distintas de dois filmes realizados por chilenos. O concorrente latino, o documentário “Mi vida com Carlos”, de Germán Berger, emocionou profundamente a plateia do Palácio dos Festivais – apesar de ter tido que ser exibido em DVD, já que sua cópia em 35 mm foi extraviada no transporte aéreo, o que prejudicou a qualidade de sua exibição. O filme reconta, sob o ponto de vista de um filho (o próprio diretor) a história de um jovem advogado e militante esquerdista, Carlos Berger, assassinado aos 30 anos pelas chamadas Caravanas da Morte do início da ditadura de Augusto Pinochet, em outubro de 1973.
 
O concorrente brasileiro da noite, “Não se pode viver sem amor”, coincidentemente, assinado por outro chileno, radicado no Brasil desde 1973, Jorge Durán, despertou reações mais variadas, do riso à perplexidade diante do caminho surrealista tomado pela história - em que um menino (o estreante Victor Hugo Navega Motta) parece ter poderes paranormais. Nada que evoque o espiritismo literal do documentário “O último romance de Balzac”, de Geraldo Sarno, exibido ontem, mas sim uma tentativa de realismo fantástico e poético. O filme de Duran já havia concorrido no Cine PE, em Recife, em abril, de onde saiu sem premiações.
 
Memória e esquecimento
 
O concorrido debate de “Mi vida com Carlos”, neste início de tarde de terça, motivou toda uma discussão sobre a punição aos crimes cometidos pelas ditaduras latino-americanas. A advogada Carmem Hertz, mãe do diretor Germán Berger e personagem fundamental deste seu documentário, denunciou “a classe política chilena em seu conjunto por promover a desmemória”.
 
Atuante até hoje na continuidade de processos na justiça chilena para punição dos responsáveis pelas Caravanas da Morte – processo em que não foi concedida ainda uma sentença -, a advogada sustentou que estas iniciativas “têm feito bem ao Chile”. E completou: “Ao contrário do que diziam os agourentos, que era preciso virar a página, esquecer e perdoar, estes processos permitiram construir instituições melhores no Chile. Hoje temos um exército depurado dos piores expoentes das antigas políticas de extermínio. Se tivéssemos concedido apenas perdão e esquecimento, teríamos uma sociedade menos democrática e mais injusta”.
 
Vencedor de prêmios em diversos festivais internacionais, “Mi vida com Carlos” não foi ainda distribuído nos cinemas chilenos. “Não tivemos ainda ofertas para cinema, apenas para TV. Estamos estudando alternativas, como exibição em escolas ou através do DVD”, informou o diretor. O filme já estreou na Espanha e na França e deve entrar em circuito em Nova York em setembro.
 
 
Curtas
 
O primeiro lote de curtas competitivos decepcionou. “Um lance do acaso”, de Beatriz Taunay (RJ), não esgota sua proposta de abordar as consequências da perda de um papel em que um músico (Fernando Alves Pinto) rabiscou uma poesia.
 
Dois curtas paulistas, estrelados pela atriz Juliana Galdino, enveredaram pelo gênero terror. “Pinball”, de Ruy Veridiano, acompanha os azares de um jovem que fracassa numa bruxaria e tem um encontro com a Morte (vivida por Juliana). “Ninjas”, de Dennison Ramalho, corroteirista de "A encarnação do demônio", de Zé do Caixão, compõe um cenário de pesadelo em torno de um policial (Flávio Bauraqui, de “Quase dois irmãos”) que se torna justiceiro.
 
O pernambucano “A minha alma é irmã de Deus”, de Lúcio Alcântara, tenta o humor e o nonsense ao retratar a trajetória incomum de uma moça (Luisa Lobo) que deseja ser santa.

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