"Bróder" vence Festival de Gramado

Radicalidade de “Ex-isto”, de Cao Guimarães, encerra Gramado, à espera da premiação

Neusa Barbosa

Último concorrente da seção latina do Festival de Gramado, o filme nicaraguense “La Yuma”, de Florence Jaguey, sobre uma jovem que quer tornar-se boxeadora (Alma Blanco), divertiu a platéia – bem vazia, a bem da verdade – do Palácio dos Festivais na muito fria e chuvosa noite de sexta. Mas não mudou o rumo dos palpites de premiação dos longas estrangeiras, em que continuam fortes as apostas no rumo do colombiano “El vuelco del cangrejo”, de Oscar Ruiz Navia e do documentário chileno “Mi vida com Carlos”, de Germán Berger. Todas as premiações do festival serão anunciadas hoje, a partir das 21h.
 
Mais empolgação cercou a exibição de “Ex-isto”, novo filme do cineasta mineiro Cao Guimarães (“Andarilho”, “A alma do osso”). Atração de encerramento do festival, fora de competição, o filme explora, de maneira bem livre e experimental, uma imaginária viagem do filósofo racionalista francês René Descartes (João Miguel,de “Estômago”) ao Brasil, desembarcando como membro da comitiva do holandês Maurício de Nassau (1604-1679). Uma ideia, aliás, que parte do livro “Catatau”, de Paulo Leminski (1944-89), poeta que foi o objeto deste filme, uma encomenda do Itaú Cultural dentro da série Iconoclássicos.
 
Fazendo uma informal viagem no tempo, entre vários cenários naturais e cidades, entre Amapá, Alagoas, Pernambuco e Brasília, o filósofo vai-se despojando de suas atitudes e roupas, encontrando a época atual, suas feiras, músicas e rodoviárias e abraçando a perplexidade dessa mistura. Não há diálogos, apenas narração em off (do próprio João Miguel), com textos de Descartes (de sua obra máxima, “O discurso do método”) mas principalmente trechos de “Catatau”.
 
A repercussão do filme – que muitos gostariam de ver incluído na competição oficial -provocou até uma mudança na agenda dos debates deste último dia do festival, sábado, encontrando-se uma brecha para um breve encontro entre Cao Guimarães e a imprensa, que não estava previsto.
 
Guimarães contou que optou por “Catatau” como espinha dorsal de seu filme por causa da densa pesquisa de linguagem contida no livro, que consumiu dez anos da vida de Leminski. “É o ‘Finnegans Wake’ do Brasil”, comparou, referindo-se à obra do irlandês James Joyce. Para ele, a história representa “o processo de enlouquecimento da razão. É uma travessia de uma corrente de pensamento racionalista, que foi super-importante para o mundo, e que está em embate constante neste país, esta coisa caótica”.
 
“Ex-isto” – um titulo retirado da célebre frase de Descartes, “penso, logo existo” – representa uma mudança no estilo do cineasta mineiro, já que, pela primeira vez, ele recorre a um ator profissional. Para Guimarães, não se tratou de uma ruptura: “Nos outros filmes, os personagens foram atores de si mesmos”.
 
Para o ator, porém, o método do cineasta, que nunca usa roteiros, foi um pouco difícil a princípio, como contou o próprio diretor: “Ele me dizia, ‘como vou fazer, nunca fiz um filme sem roteiro’. Eu respondi: você ‘é’ um filósofo, pense. Deu certo”.
 
Nem por isso a produção se estendeu. Guimarães lembra que foi “a filmagem mais rápida da minha vida,13 dias. A gente não tinha hora para filmar, era como fazer turismo naqueles lugares todos”.
 
Primeiro filme da série Iconoclássicos a ficar pronto, “Ex-isto” será lançado no cinema, provavelmente na rede Unibanco-Itaú, ainda sem data prevista. Todos sobre artistas, os outros quatro filmes da série abordam Nelson Leirner (dirigido por Carla Gallo), Rogério Sganzerla (Joel Pizzini), Itamar Assunção (Rogério Veloso) e José Celso Martinez Correa (Tadeu Jungle e Elaine César).

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