Cine PE 2020: documentário sobre sertão encerra festival

Cine PE dá a largada com longas do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul

Neusa Barbosa

Seguindo um novo formato dos tempos de pandemia, com exibições de seus filmes através do Canal Brasil e plataformas dos canais Globo, o Cine PE iniciou sua 24a. edição nesta segunda (23-11) com os dois primeiros longas, o documentário Ioiô de Iáiá, de Paula Braun (RJ), e a ficção Mudança, de Fabiano de Souza (RS). 
 
Ioiô de Iáiá entrevista vários casais, de todos os lugares do Brasil, que estão juntos há muitos anos, começando por um de Pernambuco que comemora 70 anos de casados. As conversas evocam os altos e baixos das relações que, afinal, sobreviveram a muitos entraves, focalizando desde os obstáculos que os mais velhos encontraram no passado para começar a namorar, passando por embates com a ditadura, clandestinidade, passagem de um dos cônjuges pela prisão e rompimento de barreiras - como é o caso de um casal lésbico, Maria de Fátima e Ester, que vivem no Rio Grande do Sul.
 
O documentário flui ao sabor dessas conversas, eventualmente esbarrando em impasses como a decadência de memória de um dos personagens idosos e uma surpreendente revelação de mágoa passada de um dos casais mais velhos. Nada disso interfere no que o filme procura captar, que é o mistério da sobrevivência destas uniões, quando tantas outras se rompem. Sem pretender erigir-se em um tratado sócio-psicológico, de tempos em tempos, consegue, graças à simpatia de tantos de seus personagens.
 
Memória da abertura
 
Já a ficção Mudança, de Fabiano de Souza, define de saída um contexto temporal no dia 15 de janeiro de 1985, data da vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral que anunciava o fim da ditadura militar com a eleição indireta do primeiro presidente civil depois de 21 anos. 
 
Esse contexto político até esbarra na vida dos principais personagens, como o sociólogo Reinaldo (Gustavo Machado). Animado com a abertura que espera começar no País, ele volta da praia para Porto Alegre, deixando lá a mulher (Carolina Ribeiro), que não compartilha de sua animação, e trazendo o filho, Caio (Guili Arenzon). 
 
A jornada, que se anuncia festiva, com gente nas ruas em todo o país, penetra o filme pelas telas de televisão e eventuais passagens em cena. A expectativa de uma participação mais direta nessa comemoração, por parte de Reinaldo, vai sendo transformada ao longo do dia, mediante encontros com personagens que afetam diretamente seu destino, como um empresário que apoiou a ditadura e agora quer tornar-se candidato, convidando Reinaldo para assessorá-lo, e a filha dele, Monica (Rosanne Mulholland), com quem ele está envolvido.
 
Em paralelo, transcorre a jornada de Caio. Aos 14 anos, ele está mais interessado em procurar aventuras, sexo e drogas, envolvido com uma jovem prostituta e seus amigos.
 
Em seu terceiro longa, Fabiano de Souza - diretor de A última estrada da praia (2010) e Nós duas descendo a escada (2016) - desenvolve uma história que tem visivelmente um ponto de partida autobiográfico que tomou outros rumos. É pena, porém, que tenha se fixado mais num aspecto pessoal de Reinaldo, que a uma certa altura parece ter embarcado numa decepção política que o filme não define dramaticamente muito bem. 
 
O diretor parece ter mais afinidade e até compreensão do personagem adolescente de Caio, que mergulha em aventuras de alto risco. De maneira geral, as mulheres do filme são bastante superficiais, frequentando a história como interesses amorosos de pai e filho. 
 
O aspecto político, que parecia ter tanta importância na data assinalada no começo, afinal, perde energia ao longo do caminho. Assim, fica parecendo um mero pretexto para dar mais seriedade à história que, afinal, não encontra muito o que fazer com a relevância daqueles dias no resto da história do país.

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