Cine PE 2020: documentário sobre sertão encerra festival

Filmes de diretoras ocupam o segundo dia do Cine PE

Neusa Barbosa

Em seu segundo dia competitivo, o 24º Cine PE reuniu dois filmes assinados por diretoras: o documentário Memórias Afro-Atlânticas (foto ao lado), de Gabriela Barreto (BA), e a ficção Mulher-Oceano, estreia na direção da atriz Djin Sganzerla (SP).
O documentário baiano descreve a notável experiência do linguista norte-americano Lorenzo Turner (1890-1972) que, entre 1940 e 1941, coletou materiais e gravou músicas de candomblé em diversos terreiros da Bahia. Ele esteve em Salvador e também em Cachoeira, Santo Amaro da Purificação e São Félix, realizando igualmente fotos de diversos personagens.
 
Todo esse material precioso sobre a cultura afro-brasileira ficou guardado na Universidade de Indiana, que guarda um acervo riquíssimo de músicas tradicionais de todo o mundo. Os arquivos brasileiros ficaram esquecidos por 75 anos, sendo encontrados quando Xavier Vatin, professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, foi ali fazer seu pós-doutorado. A partir daí, Xavier, unido ao etnomusicólogo Cássio Nobre, dedicaram-se a pesquisar o material coletado por Turner.
 
O filme consiste, basicamente, na busca de Xavier por retraçar as ligações entre as gravações e as fotos com descendentes dos personagens nelas retratados ou que tiveram suas músicas gravados pelo linguista americano - o que permite um admirável mergulho nas raízes africanas não só da Bahia, como do Brasil.
 
Entre o Rio e Tóquio
 
Já apresentado em festivais como a Mostra Internacional de S. Paulo, além de alguns no exterior, Mulher-Oceano elabora uma profunda investigação da identidade feminina a partir de duas personagens, ambas interpretadas pela diretora Djin Sganzerla - a escritora Hannah, que está temporariamente em Tóquio, em busca de escrever um novo romance, e Ana, uma carioca que trabalha num escritório e treina arduamente para fazer uma prova de natação em mar aberto no Rio.
 
As paisagens das duas cidades, tendo pelo meio uma ligação com o mar, entram no roteiro, assinado por Djin e Vana Medeiros, que cria diversas situações aproximando Hannah e Ana como um duplo - na verdade, Ana é uma personagem criada no livro de Hannah, mas está impregnada profundamente de muitas de suas verdades existenciais.
A maneira singular como a diretora articula estas duas narrativas é atraente e cria camadas que vão muito além dos contrastes entre Tóquio e o Rio, criando atmosferas para as procuras de duas mulheres que poderiam ser qualquer uma de nós. A montagem de Karen Akerman e a direção de fotografia e câmera de André Guerreiro Lopes funcionam a serviço de uma delicadeza intimista e nunca óbvia. 

O festival encerra-se nesta noite de quarta (25), com uma dupla exibição: o documentário Nós que Ficamos, de Eduardo Monteiro (PE), e a ficção O Buscador, de Bernardo Barreto (RJ).

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