Cine PE 2020: documentário sobre sertão encerra festival

Cine PE encerra-se com documentário sobre o sertão pernambucano e drama carioca

Neusa Barbosa

O Cine PE encerrou sua 24a edição nesta quarta (25-11) com a exibição dos dois últimos longas, o documentário Nós, que ficamos (foto ao lado), de Eduardo Monteiro (PE), e o drama O Buscador, de Bernardo Barreto (RJ).
 
Filmado nos arredores de Araripina, Serra da Boa Vista, no sertão pernambucano, Nós, que ficamos retrata os dilemas de moradores da região, que se dedicam à agricultura e à pecuária, resistindo à convivência inóspita com empresas mineradoras de gipsita e exploradoras de energia eólica. Essas atividades promovem desmatamento e poluição que abalam a sustentabilidade das propriedades rurais destes habitantes locais, que se recusam à migração - o que alguns deles até já fizeram, mas voltaram.
 
A direção de fotografia de Beto Martins valoriza este registro de um modo de vida que tenta se manter, valorizando seu apego à terra, seu manejo da natureza e um sentimento de cooperação mútua entre os sitiantes e fazendeiros. 
 
Inquietação
Já a ficção O Buscador, estreia do diretor Bernardo Barreto, é uma tentativa de mergulhar no mal-estar de uma família rica e dividida a partir da volta de Isabela (Mariana Molina). Ela, que vive numa comunidade de vida alternativa há quatro anos, decidiu rever os pais e o irmão, trazendo consigo o namorado, Giovani (Pierre Santos).
 
Um problema do filme é procurar abraçar várias causas e assuntos sem o devido aprofundamento. O choque de valores entre a filha e a família já é um tema de bom tamanho, que foi acrescido de uma tentativa de incluir a corrupção, acusação que pesa sobre o pai de Isabela, Afonso (Mário Hermeto), cuja prisão é iminente. 
 
Logo à porta da mansão, Isabela e Giovani encontram uma manifestação de protesto contra o pai dela, além de um batalhão de repórteres. À medida em que os dois entram na casa e os demais personagens se apresentam, a histeria vai crescendo - e aí os esperados choques se precipitam, sem um equilíbrio que os torne realmente orgânicos.
 
Num elenco que inclui nomes como a sempre ótima Débora Duboc - na pele de Rita, a mãe de Isabela - e Erom Cordeiro (como Max, ex-noivo da moça), é uma pena que os personagens não consigam, de modo geral, ultrapassar uma camada superficial que, muitas vezes, os limita a uma caricatura. Afinal, mesmo os vilões e pessoas fúteis e ridículas são humanos. A falta de nuances para encarná-los e o tom apressado de um roteiro que precisaria de muitas outras versões e desenvolvimento comprometem completamente o resultado final - isso independentemente de pensarmos numa comparação com tantos outros filmes mais consistentes sobre esse tipo de mal-estar sócio-familiar no País, como Três Verões, de Sandra Kogut, e Domingo, de Felipe Barbosa e Clara Linhart. 

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