"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Da infância à maturidade em ficção e documentário e uma animação política russa

Alysson Oliveira e Neusa Barbosa

Esmir Filho discute a maturidade em “Verlust”
 
O público fiel do diretor e roteirista Esmir Filho pode ter uma surpresa em seu novo trabalho, o longa Verlust. Depois de alguns anos contando histórias sobre jovens (e para jovens, como Alguma Coisa Assim), o cineasta escolhe como protagonista uma mulher na maturidade, Frederica, interpretada por Andrea Beltrão. O diretor conta que o processo de realização desse filme levou anos, e isso acabou sendo absorvido e tornando-o uma obra sobre crise na maturidade. “Foi como jogar uma linha com anzol no mar e esperar algo fisgar. Essa demora toda, as idas e vindas, me ajudaram também a amadiurecer.”
 
Frederica é empresária de uma cantora de sucesso, Lenny (a cantora Marina Lima). Tudo está em crise na vida da protagonista, seu casamento com um fotógrafo (Alfredo Castro), sua relação com a filha (Fernanda Pavanelli), e também com sua cliente, que aceitou ser tema de uma biografia, escrita por um desconhecido (Ismael Caneppele). Tudo isso enquanto ela prepara uma festa de réveillon e um animal estranho encalha na praia ao lado das casas delas.
 
O filme foi escrito para Andrea Beltrão, mas Marina Lima chegou depois. “Na primeira versão do roteiro, Lenny nem tinha gênero, podia ser um homem ou uma mulher. Eu queria alguém já famoso, um astro pop. Conhecemos [Esmir e Caneppele, que assinam o roteiro] a Marina entrevistando-a num podcast anos atrás e, para mim, tinha que ser ela.” O diretor conta que a cantora riu quando convidada, mas acabou aceitando.
 
Em cena, Andrea e Marina repetiram a parceira de suas personagens, entendendo-se muito bem. “Elas são muito parecidas, uma nasceu um dia depois da outra. Mas o mais importante foi que a Andrea foi muito generosa, abraçou a Marina como atriz e isso ajudou a equalizar as interpretações.”
 
Além do filme, o projeto de Verlust conta com um livro que será lançado em breve, escrito por Caneppele, que também assina o roteiro em parceria com o Esmir. “Nós fazemos tudo juntos, concebemos as ideias juntos. Tínhamos no longa o ponto de vista de todos os personagens, menos o da criatura marinha. Daí veio a ideia de fazer uma outra coisa, no caso, o livro, que desse voz a ela.”
 
Essa criatura marinha era, a princípio, uma baleia, pois, explica Esmir, ela é um animal que tem uma dualidade, está no mar, mas precisa sair para respirar. “Então acabamos criando um ser indefinido, inspirado naqueles abissais. É um animal que quer encalhar, sair do coletivo que é o mar. Serve como uma metáfora para todos os personagens do filme, que querem sair do mundo onde estão.” Originalmente, o animal foi “interpretado” por um boneco gigante, mas o diretor não ficou contente com o resultado. Assim, no processo de finalização do longa, contratou uma empresa para dar vida a ele. “Foi trabalho de mais de um ano, mas valeu a pena.” (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
Documentário “Uma máquina para habitar” projeta uma visão inusitada de Brasília
 
Uma cidade tão inusitada como Brasília merecia um filme tão curioso quanto ela, como Uma máquina para habitar, dirigido pelos americanos Yoni Goldstein e Meredith Zielke. O longa, um documentário de ficção científica, é assinado por um grupo de quatro amigos intrigados por essa utopia moderna, no centro do Brasil. Além dos diretores, Andrew Benz assina a fotografia e Sebastián Alvarez, a produção e o roteiro, em parceria com Goldstein.
 
“Brasília foi o primeiro lugar para onde viajei quando criança, a primeira vez ainda bebê. E tinha me causado uma impressão surreal”, conta Alvarez em português com um leve sotaque que transita entre o inglês e o espanhol. Os quatro se conheceram em Chicago, mas a ideia do filme surgiu quando Goldstein leu Brasília Secreta, de Ernani Filgueiras Pimentel. Ao longo de 8 anos, a equipe fez diversas viagens ao Brasil, captando imagens e depoimentos. O produtor explica que, nesse tempo, tiveram a chance de acompanhar o governo de três presidentes. “Quando a gente chegou o clima era outro, pouco se falava de política, mas tudo foi se acirrando com o tempo.”
 
O olhar estrangeiro de Alvarez e sua equipe é um diferencial no filme, pois vem despido de um tipo de clichê dos brasileiros sobre a cidade, mesmo aqueles que nunca a visitaram, como a capital do poder. É óbvio que Brasília é isso também, mas vai além. A opção pela ficção científica permite jogar uma luz em alguns elementos. “A cidade é fruto dos anos de 1960, da era espacial, sua arquitetura, a estrutura biomórfica, os cultos ao redor, e esse gênero de cinema nos permitiu investigar esses elementos.” Alvarez lista uma série de filmes que serviram de inspiração para Uma máquina para habitar, como Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán, Homem com uma câmera, de Dziga Vertov, e Sob a Pele, de Jonathan Glazer.
 
Um dos momentos que mais chama a atenção é quando entra em cena o Vale do Amanhecer, uma comunidade mística nos arredores de Brasília, fundada no final dos anos de 1960 e repleta de rituais e de uma arquitetura que espelha a da cidade, com construções incomuns e até um lago artificial. “Foi muito difícil filmar lá. Eles não queriam autorizar, pois tiveram péssimas experiências com equipes de televisão que fizeram reportagens dando um teor negativo à comunidade. Depois de muita negociação, conseguimos e pudemos até filmar algumas das celebrações deles.”
 
Outra lugar difícil de filmar foi o prédio do Congresso. Alvarez conta que foram mais de 100 pedidos de autorização, em cada um, ele contava uma história diferente, até que finalmente conseguiram. “Valeu a pena, pois entramos dentro da cúpula, um lugar que nunca tinha sido filmado antes, e encontramos mensagens deixadas pelos homens que trabalharam na construção daquele lugar.”
 
Não é apenas para Alvarez e seus colegas que o filme permite descobrir uma Brasília para além de presidentes, senadores e a Praça dos Três Poderes. Ele conta que conversou com muitos brasileiros de outras cidades, e pouca gente conhece a história e as peculiaridades da capital que o documentário traz. “Tentamos colocar coisas além daquilo que é mais conhecido. Foi uma busca pelo olhar mais exótico da arquitetura hiperracional. O resultado é um filme bem particular de reflexão. Tentamos fazer algo distinto.” (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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17 Quadras
Dezessete quadras é a distância entre o Capitólio dos Estados Unidos e o bairro onde mora a família afroamericana ao centro desse documentário dirigido por Davy Rothbart. O filme foi feito ao longo de duas décadas e, nos últimos meses, ganhou uma urgência enorme, pois seu tema é a violência contra negros e negras nos EUA.
 
O projeto começou no final dos anos de 1990, quando o documentarista conheceu dois jovens numa quadra de basquete: Smurf Samford, de 15 anos, e seu irmão Emmanuel, de 9 anos, que moravam nas redondezas. Em pouco tempo, o diretor já era amigo deles e de sua mãe, Cheril, e da irmã deles, Denice. O garoto mais novo tinha interesse em ser diretor de cinema e, ao longo dos anos, Rothbart emprestava-lhe uma câmera e o menino fazia algumas imagens do cotidiano de sua família.
 
Anos depois, Rothbart, trabalhando com a montadora Jennifer Tiexiera, organizou quase mil horas filmagens, criando a narrativa fílmica de 17 Quadras e resultando no retrato poderoso sobre a vida de uma comunidade marcada pela pobreza, drogas e violência, com momentos de alegrias e tristezas, mas sempre muita luta.
 
Cheryl vem de uma família relativamente mais rica do que esta que constitui, frequentou escola de elite, mas teve problemas com o pai quando precisou da ajuda financeira dele – algo que, embora o filme não explicite, parece ter a ver com drogas. Como essa vida tão promissora chegou a esse ponto?, parece perguntar o longa. Ao contrário dela, seus filhos e filha não tiveram nem a companhia do pai, que morreu antes de começarem as filmagens. Ela tem um namorado, Joe, que usa drogas, mas se esforça para ser uma presença positiva na vida dela.
 
É interessante notar que, com o passar dos anos, a estética das imagens se transforma, do visual precário de câmeras caseiras simples até chegar à digital com mais definição. Da mesma forma, a trajetória de Cheril e sua família é repleta de altos e baixos, marcados pela violência sistêmica. Rothbart não faz julgamentos das pessoas que estão em seu filme – e, como fica claro, são todas suas amigas, devido à proximidade de tantos anos.
 
Inesperadamente, uma grande tragédia se abate sobre os Samford e o filme, inevitavelmente, torna-se mais soturno e melancólico. É impossível ficar indiferente quando isso acontece; estamos tão próximos da vida dessa família, conhecemo-os tão bem, que isso nos afeta também – obviamente, num grau menor do que quem viveu a tragédia na pele. Com os acontecimentos nos EUA nos últimos meses, em especial a ascensão do Black Lives Matter, 17 Quadras ganha ainda mais potência em seu retrato sincero e destituído de manipulação de pessoas que tentam sobreviver mesmo que o governo não se importe com elas. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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O nariz ou a conspiração dos dissidentes
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Animação de Annecy, o filme de Andrey Khrzhanovsky é uma delirante viagem na história da URSS no século XX, misturando uma série de técnicas e inspirações para compor um painel visualmente muito complexo e belo.
 
No centro da narrativa, está o conto O Nariz, de Nikolai Gogol, escrito em 1836 e uma das pérolas da literatura mundial. A história surreal de um major que acorda sem seu nariz, motivando-o a uma busca frenética dessa parte de seu rosto, inspirou também o compositor Dmitri Shostakovich a compor uma ópera em 1930., o que ocupa uma parte considerável da ação. 
 
O enredo da animação imagina uma ida do temido lider Josef Stálin à apresentação da ópera, com toda a sua entourage, desautorizando completamente aquilo que considerou uma “cacofonia e não música”, em pleno vigor do realismo socialista. O perigoso incidente - que aconteceu realmente, mas envolvendo uma outra ópera de Shostakovich, Lady Macbeth of Mtensk - dá ensejo a que se coloque em pauta os expurgos e fuzilamentos que atingiram milhares de cidadãos no período stalinista - inclusive alguns do seu círculo íntimo, que compartilharam aquela noite na ópera.
 
Em 1h29 de duração, a criativa animação recorre a sequências live action, fotografias, trechos de filmes e várias técnicas de animação, envolvendo personagens e pinturas famosas e também os célebres cartazes soviéticos, criando uma estrutura de uma variedade estética admirável - ainda que às vezes difícil de acompanhar em sua explosão de cores e variantes. Não falta ambição, certamente, a Khrzhanovsky, que põe o dedo na ferida ao utilizar inúmeras fotos das vítimas dos fuzilamentos dos anos 1930/1940, como o escritor Isaac Babel e o ator e diretor Vsevolod Emilevitch Meyerhold. Se não foi fuzilado, Shostakovich certamente nunca teve vida fácil no período stalinista, tendo obras banidas e vivendo sob constante medo.
 
Assim como Josep, de Aurel, também na programação da Mostra 2020, O Nariz…. é uma animação para adultos, impregnada de reflexão política também por discutir o valor da liberdade criativa da arte, cujo inconformismo diante de regras preestabelecidas incomoda todos os ditadores, em qualquer tempo e lugar. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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La Francisca - Una Juventud Chilena
O longa de estreia do diretor Rodrigo Litorriaga toma a pulsação d a juventude interiorana chilena a partir de uma jovem de 19 anos, Francisca (Javiera Gallardo), moradora de Tocopilla, na região norte do Chile. Tanto como a cidadezinha, espremida entre a cordilheira e o mar, e sacudida por frequentes terremotos, a garota parece mal se segurar numa rotina a perder de vista, monótona e sem perspectivas. Filha de uma família remediada, que administra um pequeno posto de gasolina - a mãe é costureira -, ela vê os dias se repetirem, todos iguais, sem horizonte. 
Seu irmão caçula, Diego (Aatos Flores), de 8 anos, foi considerado autista. Ele nunca fala e a irmã parece a que melhor consegue comunicar-se com ele, criando um arco de ternura que os protege numa casa em que a violência doméstica espreita.
 
O filme é eficiente em estabelecer essa atmosfera precária, que envolve não só Francisca, como sua amiga Yessi e um interesse amoroso, Pato. Nesse ambiente, transpira um Chile que parece ter perdido inúmeras oportunidades e massacrado outras ainda - das quais são símbolos as inúmeras construções em ruínas espalhadas pelas montanhas com vista para o mar. 
 
Fixando-se numa pegada realista, o filme investe num retrato sutil do cotidiano desta juventude um tanto desvalida, criando sua complexidade nos detalhes e numa situação mais trágica, envolvendo Diego. De todo modo, é um retrato sincero e honesto de uma geração perdida na herança maldita da ditadura Pinochet e do neoliberalismo que ali ganhou uma aplicação das mais radicais. (Neusa Barbosa)
 
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A Santa do Impossível
Este filme funciona como uma espécie de atestado da globalização contemporânea. Os personagens centrais são peruanos, o romance de origem do longa é holandês, a roteirista, neozelandesa, o diretor é suíço e o cenário é Nova York. A protagonista é Raffella (Magaly Solier), que vive ilegalmente nos EUA com seus dois filhos adolescentes, os gêmeos Paul e Tito (Adriano e Marcello Durand).
 
Dirigido pelo estreante em longas Marc Raymond Wilkins, o filme começa como uma comédia leve, na qual uma família de imigrantes tenta sobreviver à selva de Nova York. As dificuldades são aquelas típicas, como a língua, o que leva os meninos a frequentar um curso de inglês para estrangeiros, em que conhecem Kristen (Tara Thaller), vinda do leste europeu, por quem eles logo têm uma paixão platônica, que trará outros desenvolvimentos para a trama.
 
Raffaella arruma um namorado, o escritor o escritor suíço Ewald (Simon Käser), que a incentiva a montar um serviço de entrega de burritos em seu apartamento. Mas isso lhe trará problemas com as autoridades. Os filhos, por sua vez, deixam-se levar pelas armações de Kristen, o que lhes trará complicações também.
 
A Santa do Impossível, aliás, para quem os personagens peruanos rezam é Santa Rita de Cássia, que aparece logo no começo do longa. Wilkins é bem-intencionado, mas nem sempre supera algumas limitações dos clichês de filmes sobre imigrantes ilegais nos EUA. Em seu favor, ele tem uma grande atriz, na figura de Solie, e duas interpretações inspiradas dos irmãos Durant, ambos estreantes, como adolescentes com os hormônios à flor da pele.  (Alysson Oliveira)
 
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Filho de boi
Estreante em longas de ficção, Haroldo Borges traz no currículo o roteiro e a direção de fotografia do premiado documentário Jonas e o Circo sem Lona, da diretora Paula Gomes - que aqui funciona como produtora. Tanto quanto naquele trabalho, como em Filho de Boi, há uma criança ao centro, cuja sensibilidade e processo de amadurecimento a história procura acompanhar.
 
João (João Pedro Dias) é um garoto de 13 anos, que vive com o pai (Luiz Carlos Vasconcelos), um vaqueiro e sitiante rude, de poucas palavras, numa casa sem mãe, sem nenhuma presença feminina. 
 
Solitário, João é de pouca brincadeira, ocupando seu tempo quase todo ajudando esse pai difícil, endurecido. Por conta disso, o menino é zoado pelas outras crianças da região. É como se ele não soubesse também falar, não soubesse brincar, falhando em estabelecer um contato com os garotos da mesma idade.
Rompe a rotina local a chegada de um circo, um mundo mais solto, colorido e anárquico que exerce uma poderosa atração sobre João. Ali dentro, ele enxerga pessoas mais livres, que se vestem e se comportam de jeitos que ele nunca viu. Ele termina interessando-se pela arte dos palhaços - em tudo o oposto de seu pai, que quase nunca pára de trabalhar (apenas toca uma sanfona de vez em quando).
 
Muito singelo, o filme funciona nesse choque familiar não-declarado entre pai e filho, que se desenvolve na maior parte do tempo sem palavras, remetendo a um universo primitivo, rural, ancestral, em que a arte oferece algumas janelas para a expressão. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 1000 views)
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