"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Memórias sombrias do colonialismo e um perfil literário original

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

João Nuno Pinto faz em “Mosquito” uma crítica do colonialismo português 
 
A história do filme Mosquito acompanha o diretor português João Nuno Pinto desde sempre. Era um relato que sempre ouviu sobre o avô paterno, em Moçambique, durante a I Guerra Mundial, quando foi para a África, aos 17 anos, e nunca mais voltou para Portugal. “Eu nunca o conheci, mas a história sempre me foi contada. O filme acaba sendo uma busca pessoal minha, uma tentativa de entender minhas origens, meu lugar no mundo”, diz em entrevista por vídeo ao Cineweb.
 
O desejo de fazer este longa esteve com Pinto por muitos anos, mas ele não queria que fosse seu filme de estreia, pois considerava-o complexo demais. Para o realizar, sentia que precisaria ter mais experiência, domínio do ofício. Mosquito acompanha o jovem Zacarias (João Nunes Monteiro), alistado para lutar na I Guerra Mundial e enviado para Moçambique para lutar contra os alemães que ameaçam tomar o país dos portugueses. O diretor, que nasceu em Moçambique, já morou no Brasil, e agora, em Portugal define o longa como “uma reflexão sobre a colonização europeia”. “Minha origem é africana, mas eu sou um branco que nasci na África. Meu passado vem do colonizador, mas isso não me impede de ter uma visão crítica disso tudo.”
 
Pinto afirma que, ao contrário dos espanhóis, os portugueses nunca encaram de frente o mal que fizeram às colônias. “Achamos que nossa grandeza é do tempo dos Grandes Descobrimentos. Até essa palavra, ‘descobrimentos’, tem algo que falseia a realidade, dá ideia de ‘o bom colonizador’. A Espanha é mais honesta e chama aquilo de ‘Conquista’.” O filme, explica ele, toca nessa ferida e coloca em xeque não apenas a história oficial como também a identidade portuguesa.
 
Conforme o cineasta, “ninguém sai indiferente de Mosquito”, pois a narrativa é toda construída pelo olhar de Zacarias, um jovem franzino e despreparado que chega a Moçambique já com malária. “Ele não entende o que está acontecendo, e eu não dou ferramentas para que o público entenda também.” Para isso, a escolha do ator Nunes Monteiro foi fundamental. “Ele é franzino, ao contrário do meu avô, que era grande e forte. Ele é o próprio mosquito, não tinha como ser outro intérprete.”
 
A história da produção do longa é curiosa. Quando Pinto resolveu que a faria, viajou para Moçambique com sua mulher, a socióloga e roteirista brasileira Fernanda Polacow. “Fizemos de carro todo o trajeto por onde a guerra havia passado, escolhemos possíveis locações e tudo mais. Iríamos filmar no norte do país, quando uma semana antes, em 2014, estourou no local um conflito armado, e tivemos de cancelar as filmagens. Acabamos reescrevendo todo o filme, pensando na paisagem do sul, que é de cerrado, ao contrário das florestas do norte.”
 
O roteiro, escrito por Pinto, Pollacow e Gonçalo Waddington, parte da conhecida jornada do herói, que aos poucos foi subvertida e transformada em algo próprio do diretor. “É o meu Mosquito, um olhar que vem de mim, embora, é claro, tenha influência de outras obras.” Entre as mais importantes, ele cita Apocalypse Now, mas, mais do que o filme de Francis Ford Coppola, o romance que serviu de base a esse longa, Coração das Trevas, do polonês Joseph Conrad, sobre a colonização belga no Congo. E outra fonte, essa um tanto inesperada, é o drama alemão Lore, de Cate Shortland, sobre uma garota nazista. “O que acho mais incrível é como o longa nos leva a ter empatia por essa jovem. Era isso que eu buscava.”
 
Ao lado do diretor de fotografia Adolpho Veloso, Pinto disse buscar uma câmera na mão e muita luz natural, além da fogueira nas cenas noturnas. “Incialmente, as sequências são longas, mas conforme Zacarias mergulha em sua loucura e a febre da malária se torna mais cruel, as sequências ficam menores, mais picotadas e desconfortáveis, quase como o delírio que ele sofre.”  Mas, acima de tudo, a vontade do diretor era não trazer uma visão romantizada da África – e ele conseguiu. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
44.mostra.org
 
Shirley
A escritora Shirley Jackson, mais conhecida por seus contos e romances sombrios e góticos, como A Assombração da Casa da Colina, ganha um tratamento sombrio e gótico em Shirley, filme de Josephine Decker (A Madeline de Madeline). O ótimo longa está longe de ser uma biografia, é uma meditação sobre a vida, a arte e a fantasia. A protagonista é vivida por Elisabeth Moss, de O conto da Aia, que mostra, mais uma vez, ser capaz de dar vida a qualquer personagem com uma interpretação profunda e repleta de nuances.
 
Shirley há pouco publicou um de seus maiores sucessos, o conto A loteria, pelo qual ainda recebe muitos elogios. Ela vive com seu marido, o professor  Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg), que hospeda em sua casa um jovem colega de trabalho, Fred (Logan Lerman) e sua mulher, Rose (Odessa Young). A presença deles, num primeiro momento, causa estranhamento a Shirley, mas logo ela está fascinada por Rose.
 
A escritora tem um comportamento problemático. Há meses, recusa-se a sair de casa, tudo a irrita. Os casal de estranhos transformam sua rotina e a insistência de Rose em tornar-se amiga de Shirley a atrapalha – mas não por muito tempo. São duas mulheres dos anos de 1950, vivendo numa sociedade opressora, mas Shirley tem ideias muito mais avançadas do que a outra. A partir dessa amizade, a vida de Rose se transformará.
 
O filme coloca, no entanto, rupturas naquilo que parece estabelecer. Não é uma simples história de despertar de consciência de gênero e social. Shirley, embora não faça o papel da esposinha perfeita – tal qual Rose – , tem problemas no casamento com um marido enfadonho e um relacionamento aberto do qual ele tira mais proveito do que ela – especialmente por viverem numa cidade e num campus universitário pautados pelo conservadorismo da época.
 
Trabalhando com um roteiro de Sarah Gubbins, a partir do romance de Susan Scarf Merrell, a diretora mira em Quem tem medo de Virginia Wolf?, em que um jovem casal facilmente manipulável cai nas garras de um outro casal mais velho, mais experiente e um tanto sádico. O jogo de perversidade entre os dois casais é hipnótico e bem-construído.
 
Ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance, no começo de 2020, Shirley é inventivo no sentido de subverter a gramática das cinebiografias, deixando de lado a trajetória surrada do berço ao leito de morte para investigar um período da vida da protagonista, jogando, assim, luz sobre toda a sua existência. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Nossa Senhora do Nilo
A autora do livro que inspira o filme, a ruandesa Scholastique Mukasonga, traz indubitavelmente na própria pele a experiência da trágica divisão da sociedade de seu país entre os dominantes hutus e a minoria tutsi - à qual ela mesma pertence, sendo uma sobrevivente dos massacres étnicos ocorridos em seu país, nos anos 1990.
 
O diretor afegão Atiq Rahimi (de A Pedra da Paciência), que adaptou o livro com Ramata Sy, injeta urgência na história, ambientada em 1973, num colégio feminino interno católico. Ali estudam garotas de várias camadas sociais, algumas filhas de dirigentes do país,outras de origem mais humilde, com bolsas de estudo. Nessa espécie de resumo da nação, começam a esboçar-se tensões étnicas que não tardam a atravessar os muros da escola.
 
O filme estabelece, a princípio, um retrato do ambiente, apresentando as diversas alunas, sua rotina de estudo e trabalho, em que salta à vista a permanência de alguns dos valores e hábitos dos colonizadores franceses, dos quais obteve-se a independência em 1962. 
 
Gloriosa (Albina Kirenga) é a voluntariosa filha de um ministro hutu, que começa a estimular agressividade contra colegas tutsis, caso de Verônica (Cariella Bizimana) e Virginia (Amanda Mugabezaki). O pretexto é um suposto ataque de rapazes tutsis à estátua de Nossa Senhora, danificando seu nariz - na verdade, um feito cometido pela própria Gloriosa.
 
A repercussão do episódio levará à eclosão de conflitos de repercussões trágicas, preparando o caldeirão que desembocaria no genocídio tutsi dos anos 1990. 
 
O diretor é eficiente na composição do ambiente interno do colégio, embora o andamento da história atenda a algum didatismo, sem comprometer a seriedade do tema geral. O desenvolvimento das personagens das garotas também é um tanto unilateral, levando-as a representar tipos, mais do que personagens complexas. Mesmo a vilã, Gloriosa, carece de nuances, que não são devidamente desenvolvidas igualmente em Modesta (Belinda Rubango), menina atormentada por ser de uma família mista. 
 
A própria ambiguidade do colonialismo, representada pela figura do fazendeiro francês Fontenaille (Pascal Gréggory), é apenas esboçada, já que a história tem outro objetivo, que visa ressaltar a preparação do massacre. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Berlim Alexanderplatz
Pode-se acusar o diretor alemão Burhan Qurbani de tudo, menos covardia. Ele não se intimidou em fazer uma nova adaptação do romance modernista homônimo de Alfred Döblin, que também serviu de base para a famosa telessérie de Rainer Werner Fassbinder, de 1980. O protagonista, Frank Biberkopf, aqui ganha o nome de Francis e, ao contrário do cidadão alemão comum, ele é um imigrante de Guiné-Bissau, interpretado por Welket Bungué.
 
A ideia central de Berlim Alexanderplatz é mantida: a descida do protagonista ao inferno. Mas, se Döblin o fazia com suas pirotecnias narrativas e literárias, Fassbinder tomou-a num sentido quase literal e fez uma série que se torna, a cada capítulo, mais insuportável e que chega a um epílogo brilhante. Qurbani traz a trama para os nossos dias, uma proposta interessante que se perde em algum momento ao longo de pouco mais de 3 horas de duração.
 
Francis deixa-se levar pelo meio que o cerca, envolvendo-se com uma gangue que atua nos arredores do parque Hasenheide. O chefão é um gângster veterano, Pums (Joachim Król), e seu faz-tudo é um sujeito com sérias inclinações psicopatas, Reinhold (Albrecht Schuch), que acaba se aproximando do protagonista. Francis, conforme diz uma voz que narra o filme (e mais tarde sua dona será revelada), quer levar uma vida honesta, mas um incidente o obriga a pedir ajuda a Reinhold.
 
Há uma batalha muito grande na alma de Franz/Francis entre o bem e o mal, a honra e a perdição, a liberdade e uma prisão, e é o que o faz debater-se. Envolver-se com o crime é perder tudo o que preza, mas não se envolver parece impossível. Como dito, esse filme é sobre uma decida ao inferno – embora Qurbani, que assina o roteiro com Martin Behnke, subverta algumas coisas –, e o protagonista deverá ceder às tentações.
 
A fotografia, assinada por Yoshi Heimrath, é toda em tons metálicos e neon, enquanto a trilha sonora da russa Dascha Dauenhauer é etérea, criando um clima perfeito ao combinar-se com a voz feminina que, em sua narração, faz comentários pontuais. No mais, o longa ainda traz um epílogo, bastante desnecessário, que contribui ainda mais para enfraquecer o que pode haver de mais potente em Berlim Alexanderplatz. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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O Século XX
A expressão “o longo século XX” ganha um novo sentido com os infindáveis 90 minutos de O Século XX, do canadense Matthew Rankin, que não nega respirar o mesmo ar que Guy Maddin. O personagem principal é Mackenzie King, uma figura real, aspirante a primeiro-ministro do Canadá, interpretado por Dan Beirne.
 
Rankin faz um pastiche de visuais – em especial, pegando muito do expressionismo alemão, embora em cores, e não preto e branco – e cria uma fantasia um tanto surreal sobre um jovem de família bizarra, cuja mãe previu que ele ficaria famoso na política. Aos 26 anos, é um tanto ingênuo e espera a concretização da profecia materna, até que encontra Lady Ruby Elliott (Catherine St-Laurent), uma jovem com trança em forma de coroa – que, conforme também previsto pela mãe, seria sua amada.
 
Uma série de eventos, não menos bizarros do que o visual e a premissa do filme, entram em cena, como o fetiche de King por calçados masculinos, ou seu excesso de masturbação representada por um cacto que ejacula. Há, inegavelmente, inventividade e um humor até ingênuo por parte de Rankin, também responsável pelo roteiro. Mas nem tudo se articula muito bem e o filme pede boa vontade demais para funcionar a contento. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play de 23/10- a 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição:
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