"17 quadras" e "Eyimofe" vencem a Mostra SP

Da filha de Karl Marx à menina-robô, com lembranças de Gláuber

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira

Miss Marx
A diretora italiana Susanna Nicchiarelli investiga a figura de Eleanor Marx (Romola Garai), a filha caçula do filósofo alemão Karl Marx que teve também sua trajetória intelectual e política na Europa do final do século XIX.
Diretora do premiado Nico, 1988, uma sensível cinebiografia da cantora alemã homõnima interpretada por Tryne Dyrholm, Nicchiarelli é uma cineasta atenta ao protagonismo feminino e ao preço pago por ele. No caso de Eleanor, o peso de uma figura tão influente quanto seu pai e, mais ainda, a de um marido de quem ela depende tanto emocionalmente, Edward Aveling (Patrick Kennedy).
 
Se a história resolve a primeira influência rapidamente, começando pelo enterro do pai, em 1883, o foco recai com ênfase sobre este casamento desequiilibrado para Eleanor. Culta e desembaraçada, capaz de traduzir e escrever textos e dar palestras sobre feminismo, socialismo e direitos dos trabalhadores, é evidente que Eleanor tem luz própria e não precisa de confirmação. No entanto, sua paixão por Edward, um homem instável e muitas vezes leviano com dinheiro e outras mulheres, acaba expondo o lado mais frágil da protagonista. 
Esta dualidade não seria problema se o filme não investisse tanto neste aspecto íntimo, sendo bastante menos eficiente na maneira como retrata a trajetória política e profissional de Eleanor, bem como seu contexto. É difícil ter uma ideia precisa do espaço intelectual ocupado por ela em seu tempo quando a diretora a coloca falando trechos de seus textos para a câmera, um recurso um tanto artificial.
 
É visível que Nicchiarelli optou por pesar a mão no melodrama, o que até certo ponto se pode compreender, mas perde a mão - ao contrário do bom resultado conseguido em Nico, 1988.  Talvez a diretora não tenha sentido segurança em adentrar mais fundo no território das ideologias e dos dilemas políticos do final do século XIX, cuja permanência em nosso tempo até o uso de imagens antigas e atuais, de protestos de trabalhadores, o filme acerta em colocar. 
Mais excêntrica, sem dúvida, é a escolha de trechos de rock - numa trilha assinada pelo grupo Gatto Cilegia contro il Grande Freddo - para assinalar algumas passagens e uma cena, em particular, em que Eleanor dança como uma garota moderna. Esse tipo de liberdade já havia sido tomado antes por Sofia Coppola, em seu Maria Antonieta, e, tanto lá como cá, não soma muito significado, ao menos pela maneira como o recurso foi usado.
De todo modo, Romola Garai é uma intérprete sensível e digna de uma personagem inegavelmente rica e interessante que, ao final do filme, ficamos com vontade de conhecer muito mais. (Neusa Barbosa)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
Consulte o site da Mostra sobre a disponibilidade de ingressos e as condições de aquisição.
 
Diretora cria em “O problema de nascer” uma fábula anti-Pinóquio
A diretora e roteirista Sandra Wollner define o seu O Problema de Nascer como uma espécie de anti-Pinóquio. A protagonista do filme é uma criança-robô, “filha” de um homem que mantém com ela uma relação peculiar. “Pinóquio é a história de um boneco de madeira que quer ser gente. Mas e se esse pedaço de madeira não quisesse ser nada além daquilo para o qual é programado ser? Um androide é basicamente um espelho programado com as memórias e desejos de seu proprietário. A maneira como as memórias e ideias se sobrepõem me interessa como uma narrativa que fornece sentido e identidade, sem a qual cairíamos no caos”, declarou a diretora em entrevista ao Cineweb por e-mail.
Para interpretar a criança-andróide, a escolhida foi uma menina que escolheu o nome artístico de Lena Watson e que tinha o apoio de sua família para fazer esse personagem tão controverso. Não há nada de explícito no filme, mas algumas cenas sugerem o teor sexual da relação da “menina” com seu “pai”, interpretado pelo ator Dominik Warta. “Conversamos muito com ela sobre o que estava acontecendo na história do filme, e o que aquilo significava. Se eu achasse que algo de ruim pudesse acontecer com ela durante as filmagens, jamais a teria escolhido. A relação entre essa robô e o homem foi toda construída na sala de edição do filme. E, claro, ela nunca ficou nua ou viu alguém nu no set.”
 
Para proteger a identidade de Watson e dar um ar ainda mais estranho à personagem, Wollner colocou uma máscara de silicone sobre o rostou da pequena atriz. “Isso ajudou não apenas a preservá-la como também trazia algo de fantasmagórico à figura daquela robô. Eu garanto que ninguém a reconhecerá na vida real. Eu sei do potencial polêmico do filme e que pode chocar o público, mas jamais deixaria nada de ruim acontecer ao elenco”.
A diretora, que está em seu segundo longa, confessa que desde a estreia do filme, no Festival de Berlim, em fevereiro passado, já recebeu ameaças por e-mail. “Geralmente são as pessoas que não viram o filme que reclamam, porque têm medo ou estão irritadas e tiram conclusões precipitadas.” Ela conta que as retaliações começaram depois de uma matéria publicada pela Hollywood Reporter, na época do festival alemão, que tinha um título caça-cliques, “Provocação robótica menor de idade em ‘O problema de nascer’” (em tradução livre). “Comecei a receber vários e-mails de pessoas que acreditavam que eu fosse a favor da pedofilia, ou que nosso filme, de algum modo, estivesse promovendo, defendendo ou tentando normalizar sexo com uma criança. Não entendo como alguém poderia pensar isso. Qualquer um com um pingo de bom senso que visse o filme saberia que não é verdade. Eles acreditam que se deve proibir qualquer obra artística que retrate o abismo humano. Bem, se for assim, é preciso, então, descartar todo o Antigo Testamento, que lida com aspectos mais sombrios da natureza humana. Eu realmente acredito que é importante mostrar esse abismo, assim como é importante mostrar que o que a natureza humana tem de melhor.” (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Malmkrog
Ninguém sairá indiferente ao romeno (mesmo que se saia antes do final), um filme de mais de 3 horas baseado na obra do filósofo russo do século XIX Vladimir Solovyov, escrito e dirigido por  Cristi Puiu. Mais que um filme, é um desafio e um evento cinematográfico na mesma medida. Obviamente, não é fácil de se penetrar ali, por outro lado, o longa tem muitas recompensas para quem aceitar se empenhar nas suas discussões. Tudo ali poderia conspirar contra, mas há algo de mágico que Puiu consegue conjurar e seduzir boa parte do público.
O cenário é Malmkrog, na região da Transilvânia, e o período é em torno da noite de Natal por volta de 1900. O retrato que Puiu faz é de um projeto de civilização em vias de deixar de existir – se mudaria para melhor ou pior, é outra questão. Em cena, gente rica e culta, uma elite parasitária mas muito estudada que discute filosofia, religião, poder, realpolitik, Deus, Jesus, diabo, vida e morte com destreza de argumentos. O roteiro se constrói em pequenos embates dialéticos sobre temas do momento e outros atemporais: o bem versus o mal, o divino versus o mundano, honra, nacionalismo, e por aí vai. Tudo em francês, porque precisam ressaltar que não usam línguas de gente simples. Eles são cruéis uns com os outros, desfazem e refazem parcerias conforme a necessidade do argumento.
 
Tudo se passa numa mansão cercada de neve – mas o interior parece mais gélido do que lá fora. Puiu, trabalhando com o diretor de fotografia Tudor Vladimir Panduru, realiza um filme austero, em que cada vírgula dos diálogos, cada movimentos dos atores e atrizes e da câmera é meticulosamente orquestrado, dando a dimensão desse mundo de aparências que encobre a essência de cada um. Há ecos tanto de O discreto charme da burguesia quanto de A regra do jogo. Da literatura, o longa pega emprestado algo dos húngaros – em especial de Sándor Márai, e seu As Brasas – mas Malmkrog vive em seu universo particular à espera do fim que certamente virá, como se sabe, menos de vinte anos depois.
A narrativa é dividida em capítulos que levam o nome do dono da propriedade, Nikolai (Frédéric Schulz-Richard); e seus convidados: o arrogante Edoard (Ugo Broussot), a passional Ingrida (Diana Sakalauskaité); Olga (Marina Palii), uma sofredora; e Madelaine (Agathe Bosch), mulher de um general pobre; e um capítulo que leva o nome do mordomo, István (István Téglás). Toda a ação se dá por meio de conversas, mas alguns pequenos imprevistos animam o filme, como um desmaio, uma bofetada e um ataque à mansão.
Puiu, que tem em sua filmografia, Aurora e Sierranevada, faz parte da nova onda do cinema romeno, que passou a chamar a atenção no começo da primeira década do século, consagrando-se quando  Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro, em 2007, por 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Puiu estreou com A morte do senhor Lazarescu, um filme de humor peculiar e urgência em sua narrativa. Aqui, ele vai para o extremo oposto – há humor mas não necessariamente dentro do filme e sim vindo de pensamentos e ideias, algumas vezes ridículas, que os personagens externam. Assim, a urgência se dissipa, numa narrativa enclausurada (mas não claustrofóbica) de mais de 3 horas, com seu tempo próprio. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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Glauber, Claro
Em tempos sombrios, nada melhor do que voltar os olhos para as referências. Assim é que o cineasta César Meneghetti revisita a filmagem de Claro (1975) para iluminar aspectos da trajetória incandescente, e também atormentada, do incontornável Gláuber Rocha. 
O diretor reúne, em Roma, uma notável quantidade de personagens que habitaram aquele filme, de atores como El Cachorro (Luis Maria Olmedo) e Bettina Best, passando por técnicos, como o diretor de fotografia Mario Gianni, a montadora Cristiana Tullio-Allean e o técnico de som direto Davide Magara, para rever a maneira apaixonada e, não raro, tumultuada como se produziram as imagens do filme - cujos fragmentos o documentário também incorpora, permitindo vislumbrar momentos de Gláuber, Juliet Berto e outros que já morreram, no magnífico cenário de Roma, símbolo da passagem da História, da decadência, dos sonhos imperialistas e da agitação política dos anos 1970, captada pelo filme.
É visível, nestes depoimentos de pessoas hoje grisalhas, maduras, um sentimento de empatia por Gláuber, apesar do seu temperamento vulcânico, que produziu não poucas disputas durante a produção. Talvez tenha bastante razão a montadora Cristiana, que acredita que, naqueles seus últimos anos de vida, Gláuber se jogava em seus filmes até fisicamente, por isso, até mesmo aparecia neles.
Diretores como Marco Bellocchio e Bernardo Bertolucci (em material de arquivo) também comparecem, falando não só de Glauber, como do contexto político daqueles dias na Itália, que influenciava inclusive a crítica. Também o veterano crítico Adriano Aprá, testemunha ocular da passagem meteórica de Gláuber pela Itália, dá seu depoimento e assegura que, para ele, Claro é um “documento histórico”, justamente por capturar aquele momento da Itália. Uma época de utopia, liberdade e generosidade, apesar de tudo.
De certo modo, o filme é nostálgico, como não poderia deixar de ser. Mas, de outro, também serve de lembrete para a enorme fertilidade da cultura. Melhor nunca esquecer. (Neusa Barbosa)
 
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Dezesseis primaveras
Suzanne Lindon, filha dos atores Vincent Lindon e Sandrien Kiberlain, estreia como roteirista, diretora e atriz de cinema em Dezesseis Primaveras, um filme potencialmente polêmico que dá um tratamento muito honesto a uma questão controversa: uma adolescente que namora um homem mais velho. A personagem, que também se chama Suzanne, tem 16 anos e muito tédio e solidão em sua vida de classe média alta de Paris.
Sufocada por seus privilégios, ela busca o seu lugar no mundo, ou algo que lhe dê algum ânimo, até que conhece Raphäel (Arnaud Valois), ator de teatro desconhecido, por quem se apaixona. A diferença de idade nunca é uma questão para o filme, que lida com o tema de forma sutil. Suzanne está preparada para namorar um homem mais velho? Ou, melhor ainda, está preparada para o mundo? O que começa com um crush se torna uma paixão verdadeira, ao menos do ponto de vista da garota.
Aqui, Lindon dá o ponto de vista da parte mais frágil da história. É óbvio que ela não está justificando abusos, pedofilia ou qualquer coisa do tipo, mas Dezesseis primaveras questiona em que momento uma história de amor sincera se transforma num problema social ou até emocional. Suzanne tem maturidade suficiente para manter um romance com outra pessoa? Não há qualquer traço de intimidade entre o casal. Com 73 minutos, é um filme revela interesse em levantar questões, mais do que trazer respostas, e esse é um dos seus méritos. (Alysson Oliveira)
 
Disponível na Mostra Play até 4/11 (ou até atingir 2000 views)
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